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Kusum,
de Jouko Aaltonen
Kusum, Finlândia,
2000
A idéia de
que Kusum é um documentário, e qual o foco do seu
olhar, demora a ficar clara para o espectador. Primeiro pela qualidade
cromática do trabalho da fotografia, que se utiliza da multi-colorida
realidade indiana (especialmente no que se refere aos saris e outras
vestimentas), mas também pela proximidade e construção
da câmera, que leva a crer, aos que já participaram de uma
filmagem, num longo preparo para aqueles takes. Em segundo, quanto ao
tema, a dificuldade é de se entender porque a doença de
uma menininha na Índia seria diferente de tantas outras, porque
seria motivo para um cineasta finlandês documentá-la. Uma
primeira pista está nas declarações de sua mãe
e pai, que fazem crer que o filme será sobre a condição
feminina na Índia, onde o filho homem é um orgulho que levará
o nome da família adiante, e a filha mulher uma preocupação
que deve logo arranjar um marido.
Entretanto, esta introdução
do filme, ao construir tais expectativas, nos pega de surpresa ao entrar
no verdadeiro assunto do filme: a cura de doenças "espirituais"
realizadas na Índia, no caso por um curandeiro que lembra muito
o trabalho do nosso Dr. Fritz, tão mostrado em especiais de TV.
Embora o indiano não chegue a executar operações,
e neste sentido pareça mais com um terreiro de macumba. Mas, voltado
tanto para aflições físicas quanto espirituais.
A partir daí
a pergunta passa a ser: qual postura manterá o documentarista em
relação ao curandeiro? Crítica, de denúncia
de charlatanismo, imparcial, em defesa dele? Nos primeiros exemplos dos
rituais, ele parece tender mais para o crítico, ao mostrar seguidamente
a expressão fechada da jovem Kusum, que sofre de uma moléstia
que nenhum médico consegue diagnosticar. À medida em que
pessoas à sua volta entram em transe, se jogam no chão e
falam coisas aleatórias, ela mantém-se serena, quase distante,
impenetrável. Construímos a imagem de uma criança
que não fingiria reações, como poderia ser o caso
daqueles adultos cientes da câmera presente. À sua falta
de reações vamos contrapondo as palavras do curandeiro e
da família, diagnosticando males espirituais que parecem tão
insossos quanto os dos médicos. O filme parece falar da crença
cega de uma população miserável na primeira solução
que se apresenta praticamente.
E é aí
que o documentarista nos surpreende de novo: num destes rituais, a menina
Kusum começa a responder aos estímulos, numa série
de cenas absolutamente impressionantes, onde qualquer um com um mínimo
de sensibilidade consegue ler nos seus olhos de menina que algo realmente
grande acontece dentro dela. Dor, confusão, sufocamento, até
que ela começa a falar. A partir daí o filme parece quase
um comercial do tal curandeiro, tal a credibilidade que seus métodos
parecem adquirir (inclusive com ajuda de uma montagem marota onde os mais
atentos percebem uma superposição de planos de momentos
diferentes como acontecendo sucessivamente, mas que torna-se menos grave
delito quando assumido pelo próprio realizador num crédito
final onde afirma que algumas cenas que aconteceram em momentos diferentes
foram montadas assim "para efeito dramático").
E a conclusão
final desta aparente constante movimentação de posicionamento
do diretor é que ele nem denuncia nem aceita, nem mesmo é
imparcial. Ele parece dizer: há mais coisas entre o Céu
e a Terra do que crê nossa vã filosofia. Entre estas coisas
está a miséria, está a cultura milenar, está
a espiritualidade também. E mais importante que saber quem está
certo sobre o quê é perceber estes nuances, e aceitá-las
na diferença. Porque até a câmera de cinema tem limites
no que consegue "esclarecer". Se não é um grande filme,
ao menos nos relembra algumas coisas importantes sobre o poder do cinema,
a construção de realidade deste e a semelhança na
crença numa Verdade, seja ela a do documental, seja ela a dos religiosos.
Eduardo Valente
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