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Mostra de SP: Guia de sobrevivência na selva

Talvez se uma imagem
pudesse resumir a diferença entre a Mostra de SP e o Festival do Rio (o
patrocinador que me perdoe, mas chega dele), essa seria a longa fila no
quiosque das permanentes um dia antes da Mostra começar. Não que no Rio
não tenha tido este tipo de fila quando houve venda antecipada, em 2000. É
que a fila de São Paulo tem um gosto de reunião de família. E é isso que
vive basicamente o espectador da Mostra ao longo de 20 dias: uma grande
reunião de amigos, todos com um objetivo em comum, o de ver filmes.
No Rio, este ano e ano
passado tivemos o fenômeno das inúmeras sessões lotadas que indica a
formação de um público cinéfilo. Porém, há três diferenças cruciais. A
primeira: os 25 anos da Mostra de SP, que são um fator importante para
explicar esta legião de pessoas que se conhecem e se encontram sempre uma
vez no ano. A segunda diferença: a relação do paulista com o cinema. Em
São Paulo é comum ver o cinema lotado, em mostra ou não, nos fins de
semana e feriados. No Rio, há salas e horários difíceis, mas certamente em
parte por outras ofertas, digamos, naturais de lazer, o carioca não tem a
mesma relação intrínseca com a sala de cinema que o paulista. Por último:
a fidelidade do público. Como teve a coragem de colocar o dedo na ferida o
jornalista Joaquim Ferreira dos Santos em pleno JB (reduto maior da classe
média intelectualizada carioca), o cinéfilo do Festival do Rio é o mesmo
fã de jazz de daqui a duas semanas, louco pelo surrealismo nestes últimos
meses, fã de Picasso de dois anos atrás, de Rodin há cinco, de dança ou
teatro amanhã. O negócio deles não é o cinema, é o programa da moda. Tanto
que, no Rio, há 3 anos tínhamos sessões não lotadas no Estação Botafogo 2,
uma sala de 40 lugares, em pleno fim de semana (e não dizemos isso de
ouvir falar não...). Na Mostra de SP não daria nem para se colocar uma
sala destas no circuito. É ilógico supor que em dois anos o cinema foi
descoberto por tanta gente. O que acontece é que o festival cresceu na
mídia, nos botecos, e passou a ser necessário ao carioca "ixperto" estar
presente nos cinemas. Em São Paulo o negócio dos cinéfilos é mesmo o
cinema. Sempre. Por isso tudo, o Rio pode estar começando a formar uma
geração que vai ter daqui a alguns anos a personalidade que possui um
encontro como este de cinéfilos da Mostra nos quiosques de troca de
ingressos das permanentes.
Este ano, a Mostra tem
algumas novidades, talvez a principal seja uma adição e uma subtração nos
seus circuitos de salas. A saída do MASP é chocante, porque embora
possuísse uma projeção medíocre, o museu foi o local de nascimento da
Mostra há 25 anos. Logo neste ano importante, ele sair é sintomático de
novos tempos. Tempos de Arteplex. Pois é, este ano a Mostra chega a este
lugar cujo nome já é bizarro o suficiente. Com 2 salas. Muito boas, por
sinal. Mas perde-se em tradição e personalidade, sempre. O Arteplex
precisa comer muito feijão para ter a importância que o MASP já teve na
formação de público. Além destas quase simbólicas substituições, a Mostra
tem ainda um Vitrine renovado (com outro nome de patrocinador, ô saco...),
e tirou da programação o Maksoud, o MIS e o Centro Cultural São Paulo.
Parece ser uma consciente troca em busca da qualidade total nas salas. Uma
escalação com CineSesc e Arteplex é de respeito. A Mostra com isso ficou
mais concentrada do que nunca no corredor Paulista-Augusta. Terá início o
corre-corre anual que este ano unirá o novo Vitrine, o Sesc, o Cinearte, o
Unibanco, e os Arteplex, criando o circuito básico da maratona dos
sem-comida, em busca do filme perdido. Mais longe apenas as tradicionais
Sala UOL e Sala Cinemateca (tem um Cinemark lá também vai, mas este não
conta...). O corredor lembra um pouco o que acontece na Voluntários da
Pátria durante o Festival do Rio, mas no geral o Festival se espalha mais
pela cidade. Aqui em SP os cinéfilos sabem dizer de cor quantos minutos se
leva a pé entre qualquer um dos cinemas. E esta é uma das informações mais
importantes, aliás.
Mas, e os filmes, e as
programações, afinal?? Pois é, este ano os dois estão mais diferentes do
que nunca, certamente em parte pelo acirramento da competição entre os
grupos organizadores. Os títulos em comum na maioria são os filmes
brasileiros e aqueles já comprados por distribuidoras nacionais para
lançamentos nos próximos meses. O cinéfilo que não foi ao Rio
inegavelmente saiu perdendo mais do que o de SP, se o critério for a força
dos nomes. Até mesmo cineastas tradicionais da Mostra de SP como Hou
Hsiao-hsien, Julio Medem, Tsai Ming-liang ou François Ozon não terão seus
novos filmes exibidos aqui. Mas, note-se também ausências como Godard, Hal
Hartley, Techiné, David Lynch (o novo), Claire Denis, Dario Argento,
Scorsese, Abel Ferrara, Xavier Beauvois, ou filmes como Os Demônios
Batem à Porta, Mundo Cão e Um Casamento à Indiana (recordista
de público no Rio). Ou seja, o cinéfilo paulista cada vez mais tem a
obrigação moral de ir ao Rio para se considerar autêntico.
Por outro lado, a
Mostra tem inúmeras exclusividades de respeito. Para os que acreditam em
nomes, poderíamos citar Mohsen Makhmalbaf e seu filme cada vez mais atual
(O Caminho para Kandahar), Abbas Kiarostami, Manoel de Oliveira
(com dois filmes de uma vez só), Alexander Sokurov (embora seu
Taurus, prometido, acabe não constando da programação,
tristemente), e talvez acima de todos em termos de nome, Spike Lee. Temos
ainda o vencedor moral de Cannes (visto que causou a maior polêmica) em
A Professora de Piano de Michael Haneke, os americanos Richard
Linklater, Ethan Hawke e Larry Clark, e alguns dos títulos mais
interessantes de Veneza e Berlim que o Rio não trouxe (em especial os
orientais Bicicletas de Pequim e Vício e Beleza ou os
premiados Dias de Cão e O Voto é Secreto). Entre os
brasileiros, destaque total para a única exibição, desde já histórica, do
filme Tortura Selvagem - A Grade, do famoso cineasta-bombeiro de
Brasília, Afonso Brazza, cujos filmes nunca tiveram esta oportunidade de
serem vistos em película no eixo Rio-SP. Mas, o forte de São Paulo
continuam sendo as pérolas escondidas no meio de inúmeros títulos
desconhecidos, uma tradição que o Rio ainda não consegue copiar de todo.
São vários filmes muito fracos, sempre, mas que compensam pela descoberta
de um Darezhan Omirbaev ou de um Aktan Abdylaykov, que inclusive terão
seus novos filmes exibidos este ano aqui. Por incrível que pareça, aliás,
mesmo com tantos filmes entre os dois festivais, a lista dos que ainda
permanecem inéditos no Brasil é enorme, e será tema de um texto especial
mais para a frente da Mostra.
Claro que nos
destaques do ano não se pode deixar de falar das retrospectivas, sempre um
forte dos festivais (alguns anos mais do que outros).
No setor de
retrospectivas, a escolha de nomes foi tão distribuída em relação à
história do cinema quanto a lógica das sessões dos filmes dos diretores
retrospectados na mostra (sempre caótica e impossível de seguir): um
célebre iugoslavo, laureado em Cannes, um obscuro diretor indiano a ser
descoberto, um mestre do cinema italiano eclipsado por nomes como
Antonioni e Fellini e hoje pouco relembrado. Oportunidade para desfazer
equívocos que a história acaba realizando, para (re)ver os filmes de
diretores ainda em pleno (bom) funcionamento de carreira e, claro, para
descobrir filmes de que pouco ou nada se falou.
Emir Kusturica é, dos
três diretores em retrospectiva, o mais festejado. Seu Gata Preta, Gato
Branco, há anos inédito, será finalmente exibido no Brasil,
juntamente com seu mais novo filme, Memórias em Super-8. A sessão
Kusturica compreende ainda a apresentação musical de seu grupo No Smoking
Orchestra (que deu ao público presente aos shows um pouco do conteúdo
anárquico e quase carnavalesco ora presente em filmes de Kusturica) e uma
rara oportunidade de assistir aos três primeiros filmes do diretor: As
Noivas Estão Chegando (1979, feito para a TV), Bar Titanic
(1980, idem) e Você se Lembra de Dolly Bell? (1981), este
último tendo sido exibido já na 6ª Mostra. Além disso, dois de seus filmes
mais notáveis serão exibidos em versões maiores, realizadas para a TV
iugoslava: Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (Vencedor da
Palma de Ouro em Cannes 1985, em três episódios de uma hora) e Vida
Cigana (seis episódios, uma hora cada). Conclui a Mostra uma oportuna
reexibição de Underground – Mentiras de Guerra, também prêmio
máximo em Cannes 95.
De Buddhadeb Dasgupta,
são poucas as referências. Tendo começado sua carreira em longa-metragem
no final dos anos 60 com pequenos documentários e tendo realizado seu
primeiro longa em 1978, Dasgupta não é um cineasta celebrado
internacionalmente. Entretanto, seu último filme, Lutadores, fez
alguns fãs fiéis na 24ª Mostra. Com idéias tão estranhas quanto curiosas,
mas com metáforas muito primárias, o filme não encantou Contracampo e a
revista não seguiu o séquito. Uma retrospectiva, no entanto, é sempre a
melhor ocasião para conhecer (e julgar) melhor o trabalho de um cineasta
ainda tão pouco conhecido mundo afora.
Mas quem arrisca
roubar para si todas as atenções cinefílicas da Mostra é Valerio Zurlini.
Dono de um cinema psicológico, sem as reduções comuns ao gênero, e acima
de tudo de uma elegância à toda prova, Zurlini acabou obnubilado
justamente por um cineasta que influenciou: Michelangelo Antonioni.
Conhecido no Brasil pelas novas gerações apenas por dois filmes – Dois
Destinos, que passava no canal a cabo TNT, e A Primeira Noite de
Tranqüilidade, único disponível em vídeo –, Zurlini terá pela primeira
vez em décadas alguns de seus mais filmes mais conceituados exibidos no
Brasil: Verão Violento (1959) e A Moça Com a Valise (1960).
Um excelente momento para conhecer esses e mais alguns filmes desse
diretor singular e cuja obra se posiciona hoje tão fora da zona de
gravitação dos grandes cineastas italianos (Rossellini, Fellini,
Monicelli, Pasolini...)
Quanto às sessões
históricas, uma logo se revela como obrigatória: a tentativa de
reconstituição por Rick Schmidlin de Greed – Ouro e Maldição
(1924), uma das obras-primas de Erich Von Sroheim. Conhecido apenas
numa versão de 130 minutos, a versão reconstruída por Schmidlin conta 243
minutos, intencionada como a versão definitiva pelo diretor, numa última e
necessária tentativa de chegar o mais perto possível da versão desejada
por Stroheim. Junto com Greed, a 25ª Mostra ainda exibe dois filmes
também necessários e importantes na história do cinema: A Marca da
Maldade (restaurado também por Schmidlin, pela primeira vez com certas
cenas apresentadas tais quais Orson Welles gostaria) e Apocalypse Now
Redux, completamente remontado por Coppola e Walter Murch, além de
acrescido de 53 minutos que, diz-se, contêm algumas das mais belas cenas
filmadas da carreira do diretor.
É no meio deste
verdadeiro excesso de opções que, tanto nós cobrindo a Mostra, como os
espectadores mais assíduos, precisam optar no dia a dia por aquilo que
ocupará seu tempo e o que pode ser que fique sem outra chance de revisão
na tela grande. A tentativa de Contracampo é dar algum norte aos nossos
leitores interessados em se afogar em imagens e sons por quase 20
dias.
Eduardo Valente e Ruy
Gardnier
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