Irmão,
de Yan Yan Mak


Ge ge, China, 2001

Assim que começou a ser mais utilizada, a câmera de vídeo foi saudada como o aparelho que ia democratizar o acesso ao cinema. Um argumento difícil de ser criticado. Mas desde então eu já me preocupava: fazer cinema não é o mais difícil, o mais difícil é ter o que dizer, ou por que dizer algo. Pois bem, este Irmão vem reforçar minha dúvida se esta democratização não acaba representando também uma preguiça de elaboração quase inerente.

A partir de um início interessante, no qual um jovem refaz os passos do irmão por dentro da China, em busca dele, o filme degringola para uma auto-indulgente repetição de temas e idéias, sem um desenvolvimento narrativo ou de expressão, onde a idéia bruta justifica tudo. No início, no trem, um discurso oficial do governo chinês cria um contraponto interessante ao que possa ser a noção de "uma China, um povo chinês", o que parece negado imediatamente pela estranheza entre o viajante (urbano) e a grande China rural que se apresenta à sua frente. Entretando, toda a energia desta proposta se dispersa uma vez que o personagem se estabelece numa cidadezinha pequena, por onde seu irmão uma vez passou.

Sob a justificativa de que o personagem interrompe então a busca física para começar a viver como o irmão (e, talvez com isso conseguir compreendê-lo mais profundamente), o filme tropeça na própria capacidade de solucionar tal idéia narrativamente, e através de imagens e sons. As relações entre os personagens nunca escapam ao nível mais esquemático, as cenas não possuem nenhuma verdade, parecendo sempre posadas tentativas de fazer belo cinema memorialista, resultando numa ingenuidade quase estudantil que, longe de ser apenas engajante, torna-se de fato cansativa. Bastante mal encenado e com atuações fracas, o filme perde sua empatia ao mesmo tempo em que a música fica cada vez mais irritante, enquanto personagens nem história parecem evoluir. E fica a sensação de que talvez o custo do negativo e o ritual da filmagem pedissem ao diretor que burilasse mais sua idéia rascunhada e aparentemente filmada antes de estar pronta para tal.

Eduardo Valente