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Há uma série de fatores que tornam único este Festival do Rio BR 2001. Já havia estes fatores há pelo menos alguns meses, é verdade. Mas é impressionante como no espaço de algumas poucas semanas houve desenvolvimentos efetivamente dramáticos que tornaram muito mais claro o que antes era só observação circunstancial. Claro, não sei se vocês ouviram dizer, mas houve um certo incidente em Nova York há coisa de uns dez dias. E muito se falou que este tal incidente estava "mudando a forma como vemos o mundo". Isso é inegável, tome-se esta frase como reflexo de uma postura em relação a este mundo, tome-se ela simplesmente no que se refere ao universo da visão, do olhar. Porque se os eventos históricos são, hoje e cada vez mais, eventos midiáticos, é claro que este acontecimento teve um impacto único sobre nosso olhar, sobre a produção de imagens e absorção destas, nas quais o cinema é peça importante. Embora estes 16 dias entre WTC e Festival do Rio não permitam ainda que vejamos os efeitos deste Dia D na produção de imagens e discurso do cinema, a forma como começamos a olhar as imagens produzidas a partir deste incidente certamente terá aqui neste festival seu primeiro grande teste. Porque se, como virou lugar comum afirmar, a realidade mais uma vez superou a ficção, se as imagens veiculadas no dia 11/9 "pareciam um filme", caberá agora ver: e os filmes, e a ficção, como fica? O que ainda pode ser dramático, pode ser significativo, após esta explosão de imagens? O que veremos é um verdadeiro embate, aliás no qual a seleção deste ano mostra-se quase "premonitória". Temos inúmeros documentários interessantes da mostra Filme e Realidade que estava já montada este ano justamente para falar do hoje, dos problemas contemporâneos. Quais problemas continuam contemporâneos uma vez que o mundo pareceu só passar a ter UM problema? Outra pergunta fascinante passa a ser: qual modelo de ficção nos consegue tocar ainda hoje depois da enxurrada "emocional" de imagens "reais"?? Será que um cinema político que busca retratar a "realidade" pela ficção como o do homenageado Francesco Rosi vai se revelar mais relevante ou ultrapassado? Será que o cinema dos dramas pessoais (como o de O Quarto do Filho de Nanni Moretti e Casamento à Indiana de Mira Nair, simplesmente os vencedores de Cannes e Veneza em 2001) será o mais adequado a ainda conseguir a adesão da platéia? Ou será que os cinemas mais filosóficos, mais ensaísticos mais cinematográficos, por que não? de um Tsai-ming Liang, de um Godard, de um Hou Hsiao-hsien, baterão mais fundo, ou pelo contrário, soarão "deslocados"?? O cineasta que será na mostra a "contradição incarnada" é David Lynch, que apresenta seu filme mais "humano" (na falta de palavra melhor) em História Real, seguido de seu mais novo filme, que retorna de cabeça ao cinema mais do "inconsciente" com Mullholland Drive. Qual deles é hoje a "imagem exata" que o espectador poderá estar apto a consumir? Tudo isso joga o Festival num enorme clima de incerteza, junto com o dia a dia do mundo e das pessoas. Um Festival, afinal, não existe sozinho num universo paralelo. Graças a Deus. A este que talvez seja o mais dramático (em todos os sentidos) e inesperado desenrolar do Festival, uniu-se a contingência absolutamente "micro" do universo fechado dos circuitos de cinema e economia do mercado, que por si só já dava uma cara diferente ao Festival. Três fatores levaram a isso: primeiro a polarização do circuito de exibição de filmes "artísticos" (ai, ai, cada vez as palavras perdem mais o sentido, como as imagens afinal) no Brasil entre dois grupos: o Estação (organizador principal do Festival do Rio no que tange aos filmes), e o Circuito Cinearte/+ Filmes, de Adhemar de Oliveira e Leon Cakoff (organizador da Mostra de SP). Com isso, um efeito que será imediatamente sentido neste ano será uma seleção mais do que nunca diferente de títulos entre os dois eventos. O resultado se é positivo num primeiro momento (mais filmes chegam ao Brasil), também garante que a maioria destes filmes será obrigatoriamente de títulos "menores", o que garantirá um número de pérolas brutas, misturadas em muita areia. Será que os festivais em sua grandeza conseguirão incentivar esta garimpagem necessária? O segundo fator e o terceiro se misturam: a alta do dólar e as incertezas que cercam o marcado dos filmes "independentes" no Brasil, que sofre com uma possível medida governamental estúpida (pois não favorece ninguém) o risco de diminuição drástica. Estes dois fatores ameaçam o número e a variedade de títulos que entrarão em cartaz ao longo do ano. Com isso, os festivais tornam-se chances únicas de ver uma enormidade de filmes. O que pode parecer especial e interessante, mas fica desesperador quando unido, por exemplo, à diminuição de dias totais do Festival do Rio. As perguntas se amontoam: como escolher o que ver? Como priorizar um recorte ou um olhar? Como garimpar pérolas na areia? Como saber o que o olhar pós-WTC dita como o "papel do cinema" como produtor de imagens e discurso? É disso tudo e muito mais que a Contracampo se incumbe de fazer neste próximo mês, torcendo para servir de "ponto de referência" ao leitor, sem tolher dele a capacidade de procurar suas próprias respostas. Oferecer um norte, não como solução única e final, mas como posição fincada até para o leitor poder se colocar contra. Porque a confusão do excesso (de opções, de imagens, de informação) e da falta (de critérios, de posições nítidas) tem sido o golpe maior desferido contra o olhar contemporâneo. É hora de focar este olhar de novo, de olhar com atenção e com seriedade. É hora de o cinema mostrar a que veio. Eduardo Valente |
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