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Manual
prático do curta-metragem


Camera de David Cronenberg
Ao exibir a cada ano quase 100 curtas do
mundo todo em suas mostras Latina e Internacional, o Festival de Curtas
de São Paulo nos ajuda a traçar um verdadeiro mapa do mundo
na produção do formato. Mas, facilmente, este mesmo mapa
do mundo pode se tornar um manual de como fazer um bom curta. Claro que
a simples noção do que seja um "bom curta" vai variar de
espectador para espectador, portanto toda e qualquer conclusão
a seguir é absolutamente parcial e pessoal. No entanto, o principal
é destacar que uma mostra desta amplitude permite que cada espectador
bem disposto (ah, sim, é preciso disposição...) trace
seu próprio mapa, e portanto, seu manual. Bem vindos ao meu.
Bom, ao contrário da maioria dos manuais
que só ensinam o que fazer, este meu humilde exemplar vai ousar
começar da forma como mais podemos aprender: O QUE NÃO FAZER.
Lição 1: VOCÊ ESTÁ
FAZENDO UM CURTA!!
Parece óbvio, mas um número
imenso de realizadores parece não conseguir superar o fato de não
estarem realizando seu projeto de longa metragem. Com isso, cismam em
condensar demais uma história que devia ser mais longa, ou simplesmente
contam longamente uma idéia curta, criando esta aberração
insuportável que se convencionou chamar o "mini-longa". Certamente
o erro mais cometido, que atrapalha alguns filmes até interessantes
como o australiano A Telephone Call for Genevieve Snow, o franco-senegalês
Une Femme pour Souleymane ou o canadense Passengers. Em
outros casos, este "approach" amplia os defeitos de filmes já frágeis
como o francês Claquage aprés Étirements, o
macedônio Veta ou o grego (ganhador de Clermont Ferrand,
mesmo primariamente dirigido) Ela na Sou Po... E, finalmente, torna
insuportáveis trabalhos mal intencionados no seu moralismo mais
careta e preconceituoso como o mexicano Quiero Ser (que reafirma
o quanto o Oscar não sabe nada de curtas), o peruano Un Minuto
de Silencio, o espanhol El Puzzle ou o constrangedor costa-riquenho
Once Rosas.
Lição 2: NUNCA DEIXE SUA SACADA
TÉCNICA SOBREPUJAR O QUE VOCÊ QUER DIZER
No curta, o risco de uma "sacada de linguagem"
ser maior do que o que o cineasta quer dizer é ainda maior, ainda
que menos danoso, do que no longa, onde este mesmo problema já
está ficando cada vez mais comum. O mais impressionante é
ver que ainda hoje este tipo de coisa engana a cada dia mais pessoas e
até mesmo júris de festival que cismam em premiar meras
brincadeiras bobas, e , francamente, cansativas. Maiores exemplos neste
festival, mas os maiores: o austríaco Copyshop com sua brincadeirinha
de repetição; o americano Jungle Jazz: Public Enemy #1
com seu jogo de reutilização de imagens antigas; e o chileno
Ekos com sua obsessão pela filmagem "virtuosa".
Lição 3: SE VOCÊ VAI
CONTAR UMA PIADA, QUE ELA SEJA NO MÍNIMO NOVA OU INESPERADA
Poucas sensações são
mais insuportáveis do que a de saber que se está assistindo
uma piada filmada, e que já se entendeu o final. A comédia
pode sim ser subversiva, vanguardista, até mesmo transcendental.
Mas também pode ser altamente irritante. Filmes como o escocês
Sex and Death ou o cubano El Valor de la Amistad são
uma verdadeira prova de fogo à paciência e disposição
de um público numa longa sessão de curtas.
Lição 4: SEJA EXPERIMENTAL.
MAS NEM SEMPRE.
O curta é o meio ideal para a experimentação
no cinema, já afirmou um homem sábio. Mas da experimentação
para a picaretagem a linha é muito tênue, e constantemente
cruzada. A verdade é que muitos curtas deixam no ar a sensação
de que "tudo vale", ou seja, na rapidez da duração estamos
liberados para qualquer tipo de coisa, sem necessidade de cuidados com
a linguagem, com o espectador, com o discurso. Assim é que filmes
como o francês Ya Rayah ou o dinamarquês Helgoland
podem sempre pedir o salvo-conduto da "obra de arte" para se defenderem
de qualquer oposição a seus pretensiosamente vazios projetos.
Embora não dêem conta de todos
os erros, estes são sem dúvida os mais comuns, e portanto
mais irritantes. Deve-se entender que um festival de curtas pode se tornar
uma exasperante experiência dadas suas longas sessões de
inúmeras procedências e idéias diferentes. Uma má
sessão de curtas é muito mais cansativa que um mau longa.
Com isso, cada pequeno pecado acaba ampliado. Mas isso não é
desculpa, porque no geral houve inúmeros outros cineastas acertando
na mosca, quase o tempo todo. Para tentar entender alguns dos seus "golpes"
que tornam os curtas pequenas delícias, vamos a eles:
Lição 1: NA DÚVIDA,
SEJA MÓRBIDO.
É impressionante como funciona num
curta ser simplesmente estranho, diferente, talvez um pouco cruel, porque
não. Tirar o espectador da sua "zona de conforto" garante a atenção
dele por toda a curta duração de um filme. Assim é
que a morbidez ou a crueldade explícitas têm grande aceitação,
porque em doses homeopáticas são muito mais aceitáveis.
Difícil imaginar que um longa na linha do escocês Daddy's
Girl ou o inglês To Have and to Hold pudessem sustentar
o nível de tensão e estranheza com o espectador que estes
estabelecem. Portanto, são filmes que têm a duração
que devem ter, e este é o maior elogio que se pode fazer. Mas os
súditos da rainha não detêm exclusividade na terra
da estranheza: o polonês Mamo Zobacz e o mexicano Hasta
los Uesos são dois outros exemplos de perfeita adequação
entre duração e morbidez.
LIÇÃO 2: CRIAR CLIMA É
SEMPRE UM PONTO A FAVOR.
Manter esta característica tão
inexplicável quanto facilmente perceptível que é
o "clima" não possui manual possível. Alguns simplesmente
sabem fazer, outros não. Claro que sustentar um clima por 10 a
15 minutos é mais fácil do que durante 90, mas isso não
diminui o mérito de quem o faz. Filmes como o norueguês A
SE en Bat med Seil ou o holandês Reis Door de Nacht praticamente
devem todo seu interesse à capacidade de criarem tamanho clima
que o espectador nada mais pode fazer além de ficar grudado no
que assiste.
Lição 3: PIADAS ORIGINAIS SÃO
BEM VINDAS
Existe uma idéia de que o filme-piada
é necessariamente ruim. Ora, claro que não. A piada é
como tudo na vida: quando boa, é mais que desejável. O que
se pede muitas vezes é que o humor tenha algo mais do que uma simplória
história sem qualquer atributo intrinsecamente cinematográfico,
seja de linguagem, seja de construção narrativa. Aí,
os humoristas fazem melhor. Mas são mais do que desejáveis
jogos de linguagem surpreendentes como o brilhante filme sueco Music
for One Apartment and Six Drummers; construções narrativas
desconcertantes como o norueguês Bla Java; ritmo preciso
como o americano For the Birds; texto e linguagem absolutamente
em uníssono como o também excepcional americano Bike
Ride; ou simplesmente o subversivo e quase surreal humor inglês
de A Heap of Trouble.
Lição 4: POR QUE NÃO
CONTAR UMA HISTÓRIA?
Outro preconceito bobo que o "mini-longa"
entranhou é que todo curta que só "conta uma história"
é ruim. Mentira, contar bem uma história requer muito mais
talento e criatividade do que muitas experimentações. Só
que as histórias precisam, acima de tudo, serem histórias
que estejam adequadas ao tempo do cuurta. Que possam ser contadas precisamente
no tempo que dispõem, sem faltas nem sobras. No Festival houve
exemplos de sobra. O francês Faux Contact talvez seja o melhor
de todos, ao misturar humor com domínio narrativo com uma observação
sutil do mundo moderno. Mas podemos pensar ainda no belíssimo
belga Raconte, no uruguaio Nico & Parker ou no dinamarquês
Kuppet. O alemão Zwei im Frack (Dois de Fraque) deixava
um pouco a desejar na sua duração mais longa, mas sem dúvida
mistura humor e morbidez o suficiente para compensar.
Lição 5: DOCUMENTAR É
POSSÍVEL
Usar o formato do curta para fazer um documentário
é um risco enorme, porque dificilmente há tempo suficiente
para desenvolver idéias, documentar fatos, expôr lados de
questões complexas. Mas, usando muita criatividade na forma (ser
careta num documentário curto é garantir a morte do filme),
alguns realizadores sempre mostram que é possível sim documentar
em curta. Este ano os destaques foram o mexicano Los Zapatos de Zapata,
o lindíssimo e criativo iraniano Bouy-e Gougerd, e em especial
o russo Et Cetera, um verdadeiro soco no estômago.
Lição 6: UMA PORRADA DÓI
BASTANTE
Um longa metragem dificilmente se sustenta
em torno de uma idéia com a força de um soco, uma imagem
poderosa, um momento de completa surpresa. O curta pode se dar a este
luxo. Saber dosar e criar o clima para esta porrada é tão
importante quanto saber terminar o filme após esta. Este foi o
grande problema do filme esloveno Hop, Skip and Jump e do finlandês
Nolla Astetta, que após exibir duas das mais fortes imagens
vistas em muito tempo, se alongam por mais longos minutos de puro anti-clímax.
Já o suiço Einspruch II e o cubano Rogelio
dão o soco e se retiram na hora certa.
Lição 7: ARRISQUE, POR QUE
NÃO?
O jogo da linguagem, o frescor, a estranheza,
são muito mais aceitos no formato curto do que no longa. Uma brincadeira
de 90 minutos pode se tornar insuportável, mas em 10 minutos ela
pode ser adorável. Da mesma forma, um filme estranhíssimo
de ficção científica e insana como o mexicano Cérebro
dificilmente se sustentaria por mais tempo do que a sua duração,
que o torna só intrigante ao invés de confuso e chato. É
assim que a bizarrice do franco-búlgaro Mon Pére ou
a galhardia do francês Je t'Aime John Wayne ficam do tamanho
exato antes de tornarem-se reptitivos.
Lição 8 e final: QUANDO NADA
MAIS TIVER EM MÃOS, SEJA GENIAL.
Em última instância, se seu
filme não se aplicar em nenhuma destas categorias que podem ajudá-lo
acima, reze apenas para que o Papai do Céu tenha te dado o talento
e a visão dos cineastas que realizam filmes excepcionais. Havia
entre os 93 filmes vistos na mostra internacional/latina deste ano apenas
4 que podiam receber esta alcunha. Mas, só eles já valem
mostras inteiras. Como se vê acima, havia inúmeros outros
ótimos filmes (no geral, a seleção internacional
foi muito boa, embora a latina bem mais fraca), mas se não houvessem
estes 4 já bastavam:
- Motorcycle, de Aditya Assarat (Tailândia).
Tão mais impressionante por ser de um país com pouca tradição
de cinema, um filme de estréia, e um filme de escola! Mas seu diretor
mostra uma sensibilidade do tipo que não se aprende na escola,
fazendo da sua linguagem tosca e pobre parte integrante do que conta,
e emprestando ao filme tamanha pungência, dor, e cor local. Impressiona.
- Afta, de Kornél Mundruczó
(Hungria). O título significa "Cotidiano", só que o cotidiano
deste húngaro nada tem da repetição desimportante
de um Jarmusch inicial nem o ritual de um Ozu. Tem sim a dureza, a violência,
o vazio de uma geração em crescimento. Estranhamente enérgético
e passivo ao mesmo tempo, o filme transpira "necessidade" de ser feito.
- Camera, de David Cronenberg (Canadá).
Tá bom, alguém pode dizer que colocar Cronenberg aqui é
covardia. Mas, deve-se lembrar que ele recebeu uma encomenda para fazer
um curta para abrir o Festival de Toronto. Para ele fazer uma burocrática
picaretagem que todos adorariam da mesma forma não precisava muito.
No entanto, o que ele faz é um poema de 6 minutos, uma declaração
de amor ao cinema, mas acima de tudo, ao futuro do cinema. Filmado com
a maestria esperada, tem ainda uma atuação simplesmente
desumana do seu protagonista.
- Helicopter, de Ari Gold (EUA). Disparado
o melhor filme de todo o festival. Como se pode compreender que alguém
resolva fazer um filme sobre a morte da própria mãe, misturar
animação, encenação, comédia, documentário,
e não soar nem piegas nem exagerado. Acertar em todas as transições
de clima, em todas as misturas de linguagem, e no meio disso tudo fazer
uma declaração de amor à sua própria mãe,
à dor e sua superação, ao cinema como arte maior,
e ao poder humano de encontrar sentido no incompreensível. Um filme
como poucos, possivelmente como nenhum, e que nos faz obrigatoriamente
prestar atenção no seu diretor de agora em diante. Ninguém
faz um filmes destes por acidente!
Eduardo Valente
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