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Que
caminhos traçar no Festival?


R'Xmas de Abel Ferrara
Chega setembro, e
com ele o cinéfilo já se põe de prontidão.
É hora do Festival do Rio, logo depois tem a Mostra de São
Paulo... São os dois momentos mais importantes na agenda do admirador
de cinema, que tem neles sua única chance de atualizar-se com aquilo
que de mais interessante vem sendo feito no mundo inteiro. E toda m,ostra
tem marcas, todo festival desenha novas configurações, novas
geopolíticas cinematográficas, focos de criação,
recorrências temáticas, surtos estilísticos, problemas
éticos, cinematografias descobertas, diretores revelados, outros
tantos destronados... Um festival é também um pretexto para
uma pergunta que sempre merece ser feita cada vez que alguém se
questiona sobre seu anseio audiovisual: como vai o cinema?
Essa pergunta, deliciosa
para nós, só pode no entanto ser respondida através
de um longo e estimulante trabalho de campo através de todos os
filmes possíveis de serem vistos num festival que exibe mais de
300 filmes num período de dez dias. A resposta, portanto, só
pode ser dada "après coup", depois da empreitada. Mas restam sinais,
esperanças, promessas, e é nelas que um texto de introdução
deve se pautar.
Dessa vez, o Festival
do Rio vive o clima da maturidade. Sem grandes mudanças significativas
do ponto de vista da estrutura (as mesmas mostras, mais ou menos as mesmas
salas, os mesmos campos de atuação) e com quatro dias a
menos (a alegação é de que os antigos dias finais,
de segunda a quinta, eram praticamente inexistentes em mídia e
público), o evento está hoje mais para o lado da administração
do terreno do que apostando em novos lances. Estratégia de time
que está ganhando. O que pode dar frutos de soberania, tendo o
meio-de-campo dominado, ou acomodação, pensando-se que o
jogo está ganho.
Do lado desta última,
há de se notar ao menos uma ocorrência infeliz: a falta de
retrospectivas de peso. Apoiando-se como vem no cinema de temática
política (no último ano: Pontecorvo e Ken Loach), o Festival
desse ano jogou todas as suas fichas em Francesco Rosi como grande atração.
Como uma das retrospectivas, vá lá, mas como A retrospectiva,
fica devendo. A carreira de Rosi é irregular (seu último
filme exibido por aqui, A Trégua, é medonho), mas
essa retrospectiva desaponta sobretudo pelo caráter monotemático
de "cinema político" dos últimos festivais. Como se um cinema
só pudesse ser sério e importante se tratasse de temas políticos,
quando na verdade há filmes muito mais políticos que se
escondem atrás do cinema de gênero mais banal (Joe Dante,
Tim Burton). "Político" em cinema não é um adjetivo
que deva ser atribuído à temática de um filme, mas
antes de tudo a seu "tom", a seu "toque". A política se faz nos
detalhes.
A outra retrospectiva,
uma série de filmes produzidos pela BBC em que diretores e atores
famosos encenam Beckett, malgrado a profusão de nomes conhecidos
(David Mamet, Atom Egoyan, Patricia Rozema), é uma incógnita
total. Além da sempre difícil tarefa de adaptar peças
de teatro para a linguagem do cinema, há algo mais difícil
em encenar Beckett, um autor absolutamente avesso à psicologia,
às mensagens, portanto freqüentemente mal interpretado. De
qualquer forma, mesmo que povoada de excelentes filmes, nada que possa
se comparar a algumas retrospectivas de festivais passados: Yasujiro Ozu,
Satyajit Ray, John Cassavetes, Andrei Tarkovski, Roberto Rossellini, Buster
Keaton...
Resta então
como o grande destaque do Festival o retrato do cinema contemporâneo
nas mostras Panorama, Expectativa, Midnight e no grande painel que será
o Foco França. Espalhadas pelas mais diferentes salas da cidade,
essas mostras prometem dar uma dimensão bastante boa do que se
faz atualmente de melhor no cinema ao redor do mundo.
Como sempre num festival
ou mostra, a idéia é correr para ver os filmes que dificilmente
terão alguma carreira comercial. É o caso de, se possível,
recusar o novo Woody Allen para ver um desconhecido filme coreano, esnobar
um David Lynch que logo será lançado (A História
Real) para assistir a uma nova promessa. Além do mais, porque por
uma incrível razão os filmes que serão lançados
em muito pouco tempo são sempre os que lotam mais rapidamente as
salas e deixam o público sem ingresso.
Entre os destaques,
três cinematografias prometem mais do que outras revelar algumas
pérolas e comprovar algumas outras. Com o Japão correndo
por fora, França, China e Coréia têm tudo para serem
os pólos cinematográficos do Festival.
O Foco França,
muito mais representativo e interessante do que o Foco UK no ano passado,
traz cineastas importantissimos, desde alguns dos deflagradores da nouvelle
vague até os novos realizadores. Algumas apostas da velha guarda:
Eloge de l'Amour, de Jean-Luc Godard (traduzido bisonhamente para
O Amor Segundo Godard), Va Savoir de Jacques Rivette, A
Inglesa e o Duque, de Éric Rohmer, Relações
Distantes de André Téchiné. Dentre os novos,
apesar da ausência do novo cineasta francês mais badalado,
Arnaud Despleschin (Esther Kahn vem sendo considerado o melhor
filme francês em anos), o Foco França está bem representado
com a nova geração francesa por A Vingança de
Matthieu, de Xavier Beauvois, Desejo Insaciável de Claire
Denis, Sob a Areia, de François Ozon, e A Cidade É
Tranqüila, de Robert Guediguian.
Da Coréia vem
um belo foco de renovação. Com um cinema muito diversificado,
o país vem se firmando em festivais pelo mundo inteiro como um
dos novos grandes pontos do cinema, depois do Irã e da China. Tendo
já mostrado o belo Chunhyang na edição passada,
o Festival desse ano traz quatro títulos bastante significativos.
Apesar da ausência de A Noiva Desnudada por seus Pretendentes,
de Hong Sang-soo, o diretor mais elogiado do recente cinema coreano, o
Festival do Rio traz esse ano Memento Mori (nenhuma relação
com o quase homônimo filme de Christopher Nolan), de Kim Tal Yong
e Min Kyu, Zona de Segurança, de Chan Wook Park, Lágrimas,
de Im Sango-Soo e o belo A Ilha, de Kim Ki-duk.
Da China, mais especificamente
de Taiwan, dois nomes consagrados voltam com novos filmes: Hou Hsiao-hsien
vem com Millenium Mambo, fiel ao coquetel de drogas e confusão
de sentidos de seus filmes anteriores, enquanto Tsai Ming-liang em A
Hora Marcada continua filmando as perambulações do jovem
Hsiao-kang à procura de amigos num mundo em que as relações
humanas parecem impossíveis. Da China continental, Os Demônios
Batem à Porta, de Jiang Wen, é a maior promessa, tendo
feito sensação em Cannes 2000. A título de curiosidade,
consta mais um filme de Taiwan, que vem sem maiores referências:
A Linha da Vida, de Hsiao Ya-chuan.
Muitos japoneses na
mostra. Sem dúvida, o maior destaque é para Takashi Miike,
revelação nos festivais europeus e inédito nas telas
do Brasil. O Festival traz dois de seus filmes: A Cidade das Almas
Perdidas e O Teste Decisivo. Shinji Aoyama, depois de ter feito uma
pequena sensação no Festival passado com Eureka,
dessa vez vem com A Lua no Deserto. Duas apostas: Má
Companhia, de Tomoyuki Furumaya, e Batalha Real, de Kinji Fukasaku.
Mas não é
só aos grandes blocos que a corrida pelo ouro do cinema contemporâneo
se resume. Há ainda R'Xmas, a primeira oportunidade em 5
anos para (re)ver um dos filmes do genial Abel Ferrara em tela grande.
Como também há Dario Argento sendo exibido nas telas com
Insônia, e o primeiro filme de sua filha, Asia Argento (que
fora atriz de Abel Ferrara... como os caminhos da cinefilia se bifurcam...),
Scarlet Diva. Cansou? Tome Scorsese contando a história
do cinema italiano (Minha Viagem à Itália), tome
a versão grande em tela grande de Apocalypse Now de Coppola,
tome Edgardo Cozarinsky fazendo homenagem aos 50 anos dos Cahiers du Cinéma,
tome a Mostra Troma, uma possibilidade de dar uma olhada na produção
Z, carregada de vontade de cinema...
No setor nacional,
grandes esperanças para dois filmes que entram hors-concours
na Première Brasil: Dias de Nietzsche em Turim, de Júlio
Bressane, e Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho. Duas obras
ambiciosas que não se contentam com o estado geral do cinema, brasileiro
ou não. E, além da irregular mas neecssária mostra
dedicada ao trabalho de produção de Luiz Carlos Barreto,
vale lembrar e recomendar aquela que desde já deverá ser
a sessão mais "cult" (no bom sentido) de todo o Festival: a dos
curtas de Edgard Navarro, dentre os quais figura o genial Superoutro.
Cinema do vigor e da garra, da diversidade na adversidade, essa sessão
tem tudo pra tirar do esquecimento um dos maiores nomes do cinema brasileiro
recente. Num festival como esses, passado, presente e futuro estão
sempre interligados, inerrogando-se mutuamente. E mesmo que nesse ano
a parte passado tenha tido uma queda considerável (uma retrospectiva
apenas, a mostra Tesouros dedicada apenas a filmes restaurados, sem o
link de cinefilia que já exibiu Pierrot le Fou, A Malvada
e Martha), duas semanas de cinema ininterrupto ainda são
excelentes motores de questionamento, atualização e, acima
de tudo, prazer dos olhos e da mente. Que se dê, então, a
largada para o Festival do Rio BR 2001.
Ruy Gardnier
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