Mostra Fassbinder
Considerações de um leigo


As Lágrimas Amargas de Petra von Kant
de Rainer Werner Fassbinder

Somos brasileiros, não vivemos os horrores da Segunda Guerra Mundial em nosso território, nosso povo não se identificou com a ideologia nazista de forma tão intensa. A suposta vergonha e o sentimento de auto compreensão atribuídos ao povo alemão após esse evento histórico pode não fazer muito sentido para nossa gente. Daí a estranheza que o cinema de Fassbinder causa nas platéias daqui pedir essa abordagem inicial que o torna mais palatável. Fica tudo mais fácil depois que seus personagens taciturnos e sofredores são enquadrados dentro da possível necessidade alemã de pedir desculpas à humanidade. A forma como a sociedade do pós-guerra na Alemanha é mostrada, com humilhações constantes, sempre de cabeça baixa ou, um pouco mais tarde, já refeita mas sempre confinada a valores burgueses opressivos também aceita bem essa explicação que fala do cinema alemão da época como preocupado com essas questões tão aparentemente imediatas e cinematograficamente menores.

Se não é certo ignorar essas questões históricas e sociológicas, o risco de construir um olhar sobre Fassbinder que se prende somente a elas precisa ser afastado para que o entendimento de sua obra não seja limitado. Talvez, recorrer à forma de abordagem mostrada acima seja tão eficaz justamente por causa da estranheza maior que é tão mais difícil de ser discutida por ser igualmente mais difícil de ser percebida de forma clara. Antes de tratar de seu tempo e de sua sociedade como motivo temático para seus filmes, Fassbinder o fez sempre tendo em vista um caminho estético e cinematograficamente engajado que faz uso desse universo não apenas como pano de fundo e muito menos querendo servir como base artística para mostrá-lo.

O que causa incômodo, e isso não acontece apenas aqui, mas em qualquer lugar onde o cinema possa ser colocado em questão, são os elementos cinematográficos trabalhados por Fassbinder.

Usando a melancolia e quase nenhum senso de humor seus filmes extrapolam o simples caráter germânico, existindo como obras primas da reflexão humana. A temática passa a ter função estética quando sua escolha é imprescindível para um projeto pré-concebido de significações e esse é o caso dos filmes vistos nessa mostra Fassbinder: um entrelaçamento único entre o que era mostrado como imagem e o que era discutido como tema.

Fassbinder cria um funcionamento exclusivo para os filmes que fez. Sua imensa produção teatral e sua cultura cinematográfica dão à sua obra a ambiguidade que a desloca para longe de qualquer compreensão fácil. Isso se pode perceber como resultado das apropriações diretas do cotidiano da época em forma de exageros cenográficos ou na construção de personagens igualmente aumentados e estereotipados que tenta dar conta de uma existência humana maior. Um mundo de fantasia, onde a realidade criada está de acordo com o projeto do cinema ilusionista, irreal, que usa a linguagem da forma mais escamoteada possível. Mas Fassbinder põe esses elementos ilusionistas trabalhados ao seu extremo. O público os entende perfeitamente mas a realidade é tão grande que passa a soar falsa, mesmo que tudo prove o contrário.

Nesse caso a linguagem clássica tem a função mais revolucionária. O que aparece na tela não confere com o que o público sente e espera. Nada é tão bem estruturado e em alguns casos, como em Martha ou As lagrimas amargas de Petra Von Kant, a imagem é tão convincente que a câmera insere mais realidade mesmo quando não está a serviço da ilusão do cinema clássico narrativo. São planos parados, teatrais ou de movimento que convencem que o que vemos é real quando está mais do que claro que não é bem assim.

Mas a atmosfera de tristeza dos personagens, as situações por vezes desesperadoras que vivem, é o que toda essa preocupação com o convencimento mostra. Um tom patético que permeia todo o sofrimento fazendo dele algo de mentiroso é negado justamente pelo excesso de verdade contida na imagem.

E é a verdade que vem ao caso. Trata-se de criar um projeto estético que permita a invenção e a comprovação de tudo que é falso, exagerado e, mais uma vez, patético. Fassbinder também não consegue explicar nada. Nenhuma situação que nos mostra faz sentido para ele. Com certeza suas dúvidas são grandes quando os problemas são as relações humanas que filma. A melhor maneira que ele encontra para lidar com isso é construindo o seu mundo de sentidos onde tudo se encaixa em uma realidade que se não é a correta, pelo menos tem a sua razão se ser nesse confinamento das telas.

João Cabral Mors