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Respostas
à enquete
Conforme a enquete
colocada no ar na Contracampo 29 em torno da questão do Ensino
de Cinema no Brasil, reunimos aqui algumas das diversas manifestações
que recebemos por e-mail. Inicialmente
voltada para alunos e ex-alunos, a enquete e a pauta Cinema e Escola tiveram
o retorno de representantes de diferentes áreas cinematográficas.
Abaixo segue-se a seleção de 7 (sete) dessas respostas recebidas
– sempre deixando claro que estamos abertos ainda à futuras manifestações
de nossos leitores para continuarmos as discussões em torno dessas
importantes questões para o Cinema Brasileiro:
1 - A Fantástica Fábrica de
Chocolate
Daniel Caetano,
Logo de cara, identificamos as seguintes
hipóteses levantadas por você [resposta ao artigo "Alguém
aprende samba no colégio?"]:
a) Fazer muitos filmes;
b) Entrar em contato com equipamentos tecnológicos de ponta;
c) Desenvolver funções técnicas e entrar no mercado
de trabalho;
d) Formação Humanista;
e) Formação aprofundada em aspectos da Teoria Cinematográfica;
f) Colocar em contato pessoas com idéias e projetos semelhantes
ou complementares
Percebemos, portanto, todas as suas referências que, por feliz coincidência,
são também nossas. Todavia, interferimos no seu sistema
de categorias, da seguinte maneira:
a) Fazer muitos filmes
b) Corresponde aos seus itens b e c, já que estes estão
intimamente ligados - uma coisa leva a outra.
c) Pode também corresponder aos seus itens d e e, tanto a formação
humanista como a teórica sugerem a possibilidade de uma carreira
acadêmica.
d) Colocar em contato pessoas com idéias e projetos semelhantes
ou complementares. Desculpe mas existe uma escola em Língua Portuguesa
aonde encontramos todas essas referências e você esteve nela
por muito tempo, ou ainda está, não sabemos. Só que
nessa escola o que se espera é que os indivíduos interajam
com as referências. Não se pode esperar que uma escola seja
com A Fantástica Fábrica de Chocolate, sempre conduzindo
as crianças por todas as etapas da vida de um chocolate.
Um abraço,
Leonardo Pirovano e Poliana Paiva – Estudantes de Cinema da UFF
2 - Sou Patrícia Munçone, gaúcha, que estuda no Instituto
Dragão do Mar, em Fortaleza no CE. Fiz Dramaturgia nesta escola
e agora faço Curso Técnico de Realização Audiovisual.
Essa minha apresentaçào diz
tudo. Saí da minha cidade, que é Porto Alegre (hoje um núcleo
de cinema) para estudar Dramaturgia. Se houvesse uma escola como o Dragão
lá, naquela época, talvez eu não precisasse ter saído
em busca da minha forma de expressão. Se houvesse uma escola de
cinema lá, eu não precisaria ter ficado 5 anos numa faculdade
de comunicação patinando sem saber onde ir. Havia uma expressão
em mim, mas esta expressão não sabia que forma tomar. Graças
a nobre iniciativa da Secretaria de Cultura do Ceará e da boa vontade
de um grupo de pessoas como Orlando Senna e Maurice Capovilla, 4500km
de distância de minha casa encontrei o meu caminho.
Graças também a expansão
das escolas de cinema hoje, muitos jovens não tem que passar o
que eu passei. Talvez sofram outros problemas, mas com certeza menos
críticos que uma crise de expressão que é um processo
interno muito doloroso grudadinho com uma crise de identidade.
Sou a favor do crescimento das escolas de
cinema no Brasil. Acho importante e acredito que este crescimento faça
parte da emergente crise de identidade audiovisual que o País
está passando. Diante do bombardeio do cinema hollywoodiano que
por anos nos sufocou e impediu o avanço de nossas produções.
Estas por sua vez também deixaram a desejar se apoiando no paternalismo
do Governo pra dar certo.
Acredito que cada vez mais o Brasil está
desenvolvendo uma cara particular e uma linguagem peculiar muito rica
que precisa ser aprimorada para não sucumbir. Minha área
de especialização é documentário, embora eu
também escreva ficção. Em documentário há
muito a se registrar das mais diversas maneiras por este País a
fora e a dentro. O Brasil é muito grande e quanto mais gente se
expressar através do audiovisual, mais necessidade de distribuir
e divulgar o trabalho feito vai aparecer. Com essas demanda formas alternativas
de exibição surgirão e o cinema poderá atingir
a todos, apesar e além da televisão e do cinema americano.
Que todas estas cabecinhas pensantes que
vêem no cinema e no audiovisual a sua forma de expressão
atinjam o fim tão desejado da produção e da exibição
do seu trabalho.
Patrícia Munçone
3- Vou responder as perguntas na ordem em que foram formuladas:
1- Acredito que bastante. O pouco que eu aprendi sobre o fazer cinema
foi na faculdade. Me embrenhando como assistente de produção,
produtor de arte, platô, assistente de direção...
lendo as poucas coisas em português existentes sobre a parte técnica
cinematográfica e algumas em inglês... e também algumas
coisas em sala de aula. Mas confesso que aprendi mais nos sets e nos livros.
2- Se eu não estivesse fazendo uma escola de cinema eu não
trabalharia com cinema. Não que eu acha que alguém tem de
fazer faculdade de cinema para isso, mas ajuda, principalmente a quem
não tem q.i (quem indica). Depois, um ponto acerca da pergunta
que eu gostaria de retificar é que uma escola de cinema não
deve ser voltada apenas a formação de diretores, mas sim
de toda a gama de técnicos necessária a feitura de um filme.
3- Minha intenção é trabalhar com algo ligado a audiovisual,
não necessariamente cinema, como diretor ou editor. Como eu já
disse, a faculdade é mais uma forma de entrar na profissão.
Mas a forma mais forte atualmente ainda é o q.i. Bom, realmente
a parte teórica do meu curso é bem fraca. Aliás esse
é um problema da maioria dos estudantes de cinema: sua ignorância
em relação ao cinema e a arte em geral.
4- Eu tento reproduzir um comportamento profissional ou o mais perto possível
disso nos sets em que participo, mas há todo tipo de comportamento.
Acredito que no mercado a coisa deva ser menos bagunçada, porque
se o sujeito chega atrasado pra filmagem ou fizer alguma merda será
demitido. Bom, espero que quando eu me profissionalize venha passar um
carro da produção na minha casa às cinco da manhã...
5- Se essas escolas formarem bons profissionais, não há
problema.
Rodrigo, 3o periodo do curso de cinema da
Estácio de Sá, no Rio de Janeiro
4- Por acaso li suas linhas à propósito
do ensino e aprendizado de cinema em escolas especializadas. Quero afirmar
que as escolas de cinema são muito úteis pois aceleram a
qualificação do profissional se paralelamente eles fazem
estágios com profissionais competentes. Sou de uma geração
formada nas principais escolas de cinema da Europa. Eu, Edgar Moura, Eunice
Gutman, Vera Freire, Silvio Tendler, Ruy Guerra viemos de escolas como
o IDHEC, INSAS, LODZ, USA e muitas outras. Acho que não fizemos
feio. Tento devolver esse conhecimento escrevendo livros especializados
sobre o assunto visando democratizar a informação sobre
o assunto. Publiquei cerca de dez livros técnicos (O Ass. de Câmera,
Operador de Câmera, O Diretor de Fotografia, O Ass. de Direção
e muitos outros)e atualmente dirijo um centro de formação
no Tempo Glauber (RJ) onde formamos somente as carreiras de acesso. Na
minha humilde opinião, após trinta anos trabalhando como
diretor de fotografia é que as escolas só formam (ou tentam
formar) diretores. E esta carreira é construida nas especializações
e na prática de filmagens que vão dando a estrutura básica
para um profissional tornar-se diretor de cinema ou tv. Acontece que todos
querem queimar etapas e deformam os indivíduos em vez de formar.
Discute-se muito poucolinguagem e veem muito poucos filmes. Assim é
impossível ter um profissional preparado para "dizer alguma coisa"
com imagens.
Um abração Jorge Monclar
5 - Achei interessante a preocupação da revista de cinema
Contracampo. A área de ensino nunca foi motivo de preocupação
por parte da classe cinematográfica de maneira geral e, muito menos,
por parte daqueles que deveriam implementar uma Política Pública
para a área do ensino e da formação em cinema, ampliada
agora para o audiovisual em função de novos mercados e da
convergência de mídias.
Não se pode pensar em uma indústria sem pensar no ensino
e na formação profissional, mas essa preocupação
não era disseminada. É indiscutível que o ensino
e a formação faz parte da cadeia produtiva (produção/distribuição/exibição).
Outras cinematografias já nos demonstraram isso há algum
tempo. As escolas de cinema na França, Itália, Alemanha,
Estados Unidos, México, só para citar alguns países,
têm um papel preponderante.'E é assim que o ensino deve ser
encarado. Formamos profissionais que estarão atuando em um mercado
de trabalho. É um mercado diferenciado, não há dúvida.
Trata-se de arte e indústria cultural ao mesmo tempo, e é
assim que deve ser encarado. Para tentar reverter essa situação
começamos a desenvolver uma atuação junto à
classe. Assim, participamos da organização do 3º Congresso
Brasileiro de Cinema, participamos com 5 delegados do Congresso propriamente
dito e, finalmente, em dezembro de 2000 fizemos um encontro na ECA-USP
onde criamos o Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual.
Participaram da criação do Fórum além da ECA/USP,
a FAAP, a UNICAMP, a UFSCAR, a UFF, a Gama Filho, a UFRJ, a Hélio
Alonso, a PUC-Rio, aUFMG, a PUC-Rio Grande do Sul, o Dragão do
Mar, a Faculdade de Tecnologia de Salvador.A Diretoria está composta
da seguinte maneira:
Presidente: Maria Dora G. Mourão (ECA/USP)
Vice-Presidente: José Serra (UFF)
Diretor Secretário: João Guilherme Barone (PUC-RGS)
Diretor Tesoureiro: Evandro Lemos da Cunha (UFMG)
Conselho: Adilson Ruiz (UNICAMP), Jackson Saboya (FACHA-RIO), Silas de
Paula
(Dragão do Mar), Messias (Faculdade de Tecnologia - Salvador).
Nossa preocupação é inserir definitivamente a discussão
sobre o ensino e a formação profissional no cenário
brasileiro. Várias perguntas devem ser respondidas. Além
das colocadas pela Contracampo eu faço outras:
- Qual é o papel de uma escola de cinema no mundo atual? - Como
as escolas tradicionais estão encarando as mudanças decorrentes
da convergência tecnológica que aproxima cada vez mais os
sistemas de produção em vídeo e cinema? Como inserir
a questão do surgimento de novas expressões (internet, CD-ROM)
nas estruturas curriculares? - Que escolas são essas que estão
surgindo? Quais seus objetivos? A qual demanda estão respondendo?
Qual sua inserção no panorama brasileiro? Isso tudo sem
pensar na questão estética, ética, filosófica.
A preocupação é grande, o descompasso também.
As escolas "tradicionais" sempre mantiveram um diálogo que, mal
ou bem, nos permitia caminhar juntas. Temos que voltar a discutir para
que não sejamos atropelados pelo oportunismo e pela falta de qualidade.
Por hoje é só.
Dora Mourão
6 - Amigos,
achamos bastante importante essa discussão sobre o ensino e a formação
para profissionais da área de cinema. Como diretores do Centro
de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, gostaríamos no entanto de
acrescentar o seguinte:
A situação da preservação dos nossos filmes
é crítica. Muitos já se perderam e inúmeros
estão ameaçados de extinção. Só
para dar um pequeno exemplo nossa primeira sátira "Paz e Amor"
não existe mais. Assim como nosso primeiro musical "Coisas
Nossas" e nosso primeiro sonoro "Acabaram-se os Otários". Sem
falar em clássicos como Barro Humano e Favela dos Meus Amores.
Da mesma forma inúmeros filmes da fase das chanchadas, do
Cinema Novo, Cinema Marginal e outros estão seriamente ameaçados.
Quando falamos em cotas de telas, preços mais baixos para os filmes
nacionais e outras idéias, devemos pensar primeiramente se o nosso
público irá prestigiar o cinema nacional como vai em massa
ver filmes americanos que já ocupam 96% de nossas telas.
E isso porque? porque o brasileiro precisa readquirir o hábito
de privilegiar o seu cinema. E para isso ele precisa conhecer também
os seus filmes do passado que retratem sua história e sua cultura.
Assim, é necessário que num currículo escolar seja
considerado o ciclo completo da indústria cinematográfica
que não deve incluir apenas "Produção, Distribuição
e Exibição" , mas sim "Produção, Distribuição,
Exibição, Preservação e Guarda".
É importante que o futuro diretor, ainda na escola, conheça
técnicas e a importância de preservar sua obra para
as novas gerações. O CPCB, aliás, tem por lema que
"a preservação começa na produção".
O tema tem sido levado por nós em todas as reuniões, festivais,
seminários etc em que participamos. Outro fato grave é que
nós não estamos formando técnicos em preservação.
Não existindo a disciplina nas escolas, a tendência é
que os alunos procurem outros segmentos para seguir carreira. Da mesma
forma, quando surgem cursos e/ou reciclagens na área de cinema,
os temas se voltam sempre para roteiros, técnicas de linguagem,
fotografia etc. (importantíssimos sem dúvida, longe de nós
considerar que esses temas não devam ser tratados e difundidos),
mas é necessário igualmente que se realizem cursos voltados
para a área de restauração e guarda de filmes.
Da mesma forma é importante que nossas Cinematecas, a Funarte e
outros órgãos de guarda sejam melhor equipados e seus técnicos
(abnegados, mas muitíssimo poucos no Brasil, infelizmente) tenham
condições também de reciclagem e oportunidades de
treinamento e intercâmbio com e em outros países para conhecimento
e atualização de técnicas que estão sendo
utilizadas na preservação fílmica.
O cinema faz parte da identidade de um povo. É como um espelho
onde cada um vê a sua história e a sua cultura. Se não
zelarmos por essa guarda, fatalmente acabaremos perdendo nossa própria
memória e adotando os valores das culturas dominantes. E daí
até sermos definitivamente colonizados por elas será apenas
um passo. Sugerimos assim que a preservação e a guarda fílmica
passem a fazer parte dessa discussão no sentido de traçarmos
uma política realmente completa para o ensino e a para a formação
profissional na área cinematográfica.
Myrna Brandão e Carlos Brandão
7-Por que fiz meu filme?
Habituei-me a acordar com o ruído
das multidões. Os prédios antigos foram construídos
com paredes grossas, janelas robustas, sem frestas nem portas falhadas,
o que os fez silenciosos no passado. Hoje, o movimento do Arouche com
suas sopas e seus carros suspensos vai vencendo os tijolos e meu contato
com a cidade começa cedo. No meio da tristeza urbana, um morto,
uma mulher feliz, um japonês de sapatos trocados, ou alguma coisa
naturalmente absurda nos passam despercebidos. Tal singeleza quanto ao
estranho, deste jeito são as metrópoles, desse jeito é
a minha relação como morador e admirador do "centrão".
Poderia então destrinchar autores e idéias acerca da modernidade,
Baudelaire, Paul Auster, Milton Santos, no fundo aguçados observadores
das mil cidades que se descobre na mesma, mas não é exatamente
isso. Tampouco a disputa com os pós-modernos, o domínio
dos shoppings, dos tubos de imagem, o desprezo pelas ruas, não.
Porque se filma? As pessoas podem filmar começando pelo fim, avaliando
o impacto da película na tela e curvar-se a ele, calculando estratégias
que prendam a atenção do espectador, ou buscar o novo, simular
linguagens, propor estilos, destruir estilos, sem abrir mão do
impacto, certas elas. Não, não, a coisa aqui pegou a passarela.
Meu filme são apenas histórias. Difícil explicar,
mas há algo perdido no centro da minha cidade. Algo único.
Uma nostalgia, um olhar diferente que escapa de seus habitantes, de seus
artistas de rua, de suas falsas cartomantes, talvez uma saudade de que
ainda somos uma comunidade, não como as sedimentadas metrópoles
lá de fora. Há samba e mesas pelas calçadas, há
sempre uma solução mais simples para tudo, uma capacidade
de improvisação, impensável para os londrinos. Tal
incomum espírito urbano é o protagonista da história.
Meu filme, assim, é um filme sobre buscas, ainda que os personagens
(como as pessoas) não entendam exatamente o que procuram, e traçam
improváveis caminhos frente à obscura diversidade das metrópoles:
um homem sai atrás do fim de uma avenida (a saber, a própria
São João), tenta por vários meios, mas sempre fracassará,
o que busca perdeu-se há muito. De resto, os erros. Faltou-me o
mais essencial atributo de um diretor: o pulso firme. Este foi meu terceiro
curta, o único finalizado, os outros dois totalmente rodados pelo
centro, mas sem diálogos. Desafiei-me a fazer um filme "falado"
pelas ruas centrais, com histórias que já tinha escrito,
mas foram a hora e o local errados. Não obstante a ajuda financeira
do depto. de cinema da FAAP, que recebi na condição de aluno
bolsista, e toda a assistência teórica e prática que
tive dos professores, visto que assumi pessoalmente a montagem e a mixagem,
não foi um curta adequado aos padrões da fundação.
Erro meu. Quem sabe um reflexo do cinema publicitário, não
sei, na FAAP o grande filme é o das locações internas,
com cuidadoso trabalho de luz, ambientação e fotografia,
e de duração inferior a dez minutos. Escaldado, apelei para
os planos-sequência, dificilmente cortáveis, e veio o erro
maior. Não mantive minha posição com a firmeza necessária.
O que se seguiram foram longos embates acerca da montagem final (que permiti),
como se precisassem "consertar" o que começou errado. Cenas foram
reduzidas e uma seqüência inteira foi extirpada. Muito além
do deslumbramento do diretor: é sábio sacrificar a idéia
em prol da dinâmica? Certo, o filme nunca foi meu de fato. Apesar
do detalhadíssimo projeto apresentado, talvez eu devesse ter especificado
a idéia com mais clareza, antes das filmagens. Tudo isto somado
às dificuldades de um grupo de estudantes encararem as ruas com
um abusado roteiro. Estava na portaria do prédio do Banespa, buscando
um espaço para filmar, quando um mendigo mal vestido, mas com pose
de político - o queixo levantado, o casaco abotoado - tentou passar
pela recepção. Os seguranças entreolharam-se rindo
o puseram pra fora. Contam que todos os dias ele tenta, sem êxito.
Aquele fantástico jardim suspenso no terraço parece desafiar
a cidade.
8- PARA QUE SERVE ESTUDAR CINEMA NO BRASIL?
pra muitas coisas... pra ganhar a vida profissionalmente, assim como um
jornaleiro ou um porteiro, uma profissão como outra qualquer, ou
serve para questionar o mundo (a começar pelo Brasil) , seja através
de diálogos, de enquadramentos, da fotografia, do tempo ritmado
através do que se vê e se ouve na sala escura... quem ama
o cinema (ou a arte/vida/verdade) estuda-o sempre, todos os dias e noites,
porque tem tesão neste estudo, sem o qual sente-se incompleto (e
estudar cinema, aqui, não é apenas ler livros ou escrever
teses, é muito mais ir ao cinema, escrever e ler roteiros, conversar
com quem fez/faz fotogramas em movimento e, principalmente, ter a necessidade
de conhecer mais desta técnica/arte) e insignificante... hoje o
brasil não produz nem 10% do que vai passar a produzir em mais
dez anos, com as novas gerações ( de gente e de máquinas)
que a cada semana surgem...
CINEMA SE APRENDE NA ESCOLA?
sim e não. isso vale pra tudo, da medicina 'as artes, pode-se aprender
dentro ou fora da escola, vai depender de um monte de fatores , dos econômicos
aos existenciais, e não é de hoje que a banda toca assim...
em tese a escola seria uma caminho mais fácil de se aprender alguma
ciência ou técnica, mas no caso de uma arte o buraco é
mais embaixo... por isso acho que se de fato você quer aprender
cinema vale mais comprar uma câmera super8 por 100 moedas e começar
a filmar e montar seus filmes em casa, ou fazer o mesmo digitalmente,
com amigos ou parentes... acho que se aprende muito mais na prática
do que na teoria, é na experiência que as coisas se dão,
os erros e acertos... a pratica e a teoria, desde Platão, caminham
juntas... agora, se você quer estudar o cinema, ai sim, vá
para uma escola/biblioteca e estude-o, como bem sugeriu o Guerreiro em
recente entrevista num site... em ambos os caso, entretanto, pra aprender
a fazer ou pra estudar sua historia, assistir a filmes é fundamental...pode
parecer loucura mas tem muito neguinho por aí que sonha em fazer
cinema mas raramente vai ao cinema, muito menos ao cinema falado em português...
tais pessoas estão no lugar errado e ainda não se deram
conta, para azar de todos, inclusive delas mesmas.,.. eu ajudo a organizar
algumas mostras e vejo/ouço cada coisa de arrepiar até peruca...
é lamentável.
QUAL É O CINEMA ENSINADO NAS ESCOLAS
DE HOJE EM DIA?
nao se pode generalizar, cada escola tem seu nivel, seu padrão,
tanto de professores e equipamentos como de alunos...
sendo assim, imagino que, com raras exceções, o cinema ensinado
nas escolas do brasil é um cinema mediocre na medida em que cisma
de situar o cinema como algo muito mais complexo do que de fato é
... talvez muitos destes professores, que nunca filmaram nada na vida,
tenham medo que seus alunos descubram que fazer cinema é muito
mais simples do que diz a lenda e daí eles, os professores - que
muitas vezes vivem de lendas cumuladas - perderiam muito do glamour de
serem professores de cinema...como tenho uma tendencia muito forte para
o pragmatismo, acho que o que falta hoje, pelo menos na uff e na estacio,
que conheci mais de perto como aluno (há alguns anos), é
a vontade de ser prático e de se produzir filmes... e mesmo assim
se produzem filmes porem numa quantidade muito, mas muito menor do que
poderiam ser feitos se tais escolas fossem melhor administradas ou tivessem
mais recursos, do tipo equipamentos e material ... em video e super8 principalmente...
voltando à tua pergunta, eu não sei qual é o cinema
ensinado nas escolas hoje... suponho que na UFF, por exemplo, se ensine
um cinema mais humanista, porque se trata de uma universidade, enquanto
na Estácio se ensine algo mais técnico... qual é
o certo e o errado? ambos estão certos e errados ao mesmo tempo,
de nada adianta ser humanista ou técnico se o cinema, que é
bão, não pe feito... no Brasil é tudo tão
mais difícil, mais caro, mais burrocrático que no fundo
aquele ditado, de que é o aluno que faz a escola, vale mais que
em qualquer lugar... as escolas de cinema tinham que dar aos alunos a
liberdade de aprender e de filmar aquilo que quisessem, dentro de uma
limitação mais elástica do que a de hoje, mas isso
é impossível, por muitos motivos, então que é
tudo mais lento e mais complicado, o que faz a realização
de um curta metragem estudantil, hoje, tarefa quase impossível
aos alunos, tantas são as aporrinhações, porque ninguém
tem dinheiro pra investir num cinema que não dá nem lucro
nem visibilidade aos investidores... como disse antes, pra mim o cinema
tinha que perder esta aura de coisa mística que carrega, como se
fosse algo de outro mundo, não é... mas a gente só
descobre isso fazendo, cada vez mais, e não menos, como no brasil..
ou seja, em nosso pais parece que se gosta de complicar as coisas para
que elas tenham um valor extra, babaquice da pura, os mistificadores do
cinema tinham que sumir das escolas, dando lugar aos práticos...
só me resta esperar que um dia o Brasil acorde desde atrasado catolicismo
cinematografico que apenas serve pra perpetuar lendas, como esta tolice
de achar que cinema é coisa complicada e que tudo que os professores
dizem/escrevem/fazem esta certo...
A SUA ESCOLA DE CINEMA?...
várias, a começar pela UCSD, Universidade da California
de San Diego, USA, onde em 1995/96 estudei cinema e tive a chance de participar
da produção de vários filmes em 16mm, inclusive de
3 que dirige (e atuei) e que ainda não estão montados. Apenas
1 esta finalizado, o Não é não. De volta ao
brasil comecei a estudar cinema na UFF mas me desiludi com a greve
e a falta de condições oferecidas, tudo bem que estava mal
acostumado, mas também já não tinha tempo nem saco
de ficar esperando professores e funcionários saírem de
greves e tal... em 2000 dei uma ultima chance pro cinema acadêmico
e entrei na Estácio, achei as condições melhores
mas as aulas que tive foram fracas, dai abri minha produtora de
cinema, a WSET, e passei a estudar cinema produzindo-o...desta forma fiquei
livre de greves e de professores malas e mais perto fico de quem realmente
quer fazer cinema e não ficar a viver de lendas.
Guilherme Whitaker
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