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Endereço
Desconhecido,
de Kim Ki-Duk
Soochwieen boolmyung,
Coréia, 2001
Começa o filme,
e surge na tela a frase "Nenhum animal foi ferido na realização
deste filme". Qualquer espectador que tenha visto o filme anterior do
diretor, A Ilha, respira fundo, porque para ele estar colocando
tal frase no começo do filme, o que virá por aí não
deve ser pouca coisa.
E não é,
sob qualquer sentido. Ki-duk confirma aqui que seu grande forte no cinema
é ser um cineasta que ousa colocar personagens em cena que quando
gritam "Pode atirar", é certo que o outro atirará. Seja
na cara, no joelho, onde for. São personagens que tiram tatuagens
na faca, que comem bolas de arame para depois colhê-las na merda,
que furam o próprio olho, que batem impiedosamente em cachorros
para amaciar e vender sua carne. Mas, desta vez, não é só
este sentido físico da tragédia que não é
pouco no filme de Ki-duk. Não é pouca a sua ambição
de tentar traçar um painel do que seja a influência (física
e no imaginário) da presença americana dentro da Coréia,
a partir da guerra.
Infelizmente, é
nesta pretensão que ele se perde, e tudo que A Ilha tinha
de poderoso na sua uma situação e um ambiente levados ao
extremo, este acaba tendo de caótico, de exagerado, de não
direcionado. Ki-duk acaba fazendo um filme que consegue muito pouco mais
do que ser uma sequência de cenas de "choque". Que não se
negue a validade hoje de um cineasta com muito pouco medo de cruzar as
fronteiras entre o mítico e o patético. Mas, infelizmente,
a mistura desandou. Desde as péssimas interpretações
de todos os atores que representam os americanos até os gritos
excessivos, o filme todo parece fora de tom. E, se ganha no final, é
só por ser mais centrado, mais direto. Um diretor que já
mostrou possuir um universo, uma assinatura, falta agora mostrar que tem
uma obra consistente.
Eduardo Valente
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