Doces Sonhos,
de Saso Podgorsek


Sladke sanje, Eslovênia, 2001

Mais um rito de passagem da infância para a adolescência, diria um primeiro olhar. E, por se passar nos anos 70, lembra muito a série de TV americana Anos Incríveis. Porém, se esta é a comparação, o filme esloveno sai na frente pela capacidade de incorporar aquele humor quase surreal típico do cinema do Leste Europeu ao retrato acridoce desta fase da vida que, de tão crucial, talvez represente por si só um gênero dentro do cinema mundial. E a expressão "acridoce" é essencial aqui, porque o retrato traçado pelo diretor Podgorsek faz questão de misturar doses fortes de muita graça, com dor e sofrimento. E ambos aparecem com o mesmo carinho pelo ser humano. Talvez, inclusive, esta seja uma diferença ainda maior perante o imaginário norte-americano: a falta de necessidade das coisas serem ou totalmente boas ou totalmente más. Em Doces Sonhos, tudo pode ser os dois, ou seja, a mãe é uma figura intransigente na sua quase loucura, mas não deixamos de vê-la com carinho por isso. Assim como a avó. Talvez a única figura mais vilanesca seja o professor de educação física, mas mesmo ele tem mais graça do que terror.

Doces Sonhos é um drops que se chupa com prazer, mas também é um filme que não dura muito na memória, talvez sofrendo do excesso de imagens produzidas pelo mesmo tema, que acabam todas misturadas. Mas, enquanto ele passa pela tela, é um grande prazer, e mais, um filme inteligente e digno em todos os momentos. Mais do que se pode dizer de boa parte do cinema hoje em dia.

Eduardo Valente