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Dias
de Cão,
de Ulrich Seidl
Hundstage, Áustria,
2001
É a temporada
de calor na Áustria. Seres humanos gordos, branquelos e carcomidos
pelo tempo tostam ao sol que torna os dias insuportáveis de tão
quentes. Nesse período, parece que as pessoas são capazes
de tudo: de amar mais cachorros do que seres humanos, de incriminar pessoas
com problemas mentais unicamente para se verem livres de pressões,
de iniciar sessões de sadismo e tortura, etc. A regra geral de
Dias de Cão é chocar, épater le bourgeouis:
já começa com a lenta humilhação da namorada
por um sujeito ressentido, passa por angustiantes cenas em que uma caronista
maluquinha faz perguntas absolutamente inconvenientes para seus motoristas
até fazê-los jogarem-na novamente na rua, e fecha com chave
de ouro ridicularizando o strip-tease de uma senhora de 70 anos. Claro,
o coquetel ainda tem sexo explícito e grupal, sangue... A lógica
é a da violência para com o espectador, só que as
intenções são mais ridículas ainda: mostrar
o lado oculto e nojento de uma sociedade de extrema direita, que na vida
privada pode cometer todos os horrores impraticáveis na vida pública.
Se essa é a única saída à ultradireita européia,
coitados de nós. Quer dizer, coitados deles. Já é
hora de fugir da ressaca que é ter dado Hitler. Será que,
na falta de um Kiarostami para o povo ariano, é com isso aí
que teremos que nos conformar?
Ruy Gardnier
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