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Tem
dias que é melhor nem levantar da cama... (ou de como tentei ver
6 filmes e só consegui ver um por inteiro)

Este texto é
dedicado ao inventor do estilo mundialmente conhecido como "cronicrítica",
mistura fluente de intervenção pessoal e análise
fílmica, o filósofo e cineasta japonês Dancaô.
Há algumas garantias numa Mostra de cinema. Uma delas é
a de se ver alguns bons filmes ao longo da duração do evento.
Outra é a de que serão vistos outros nem tão bons
assim, para falar a verdade alguns bem ruins. Isso faz parte do jogo,
todo mundo sabe. Algumas outras regrinhas são menos divulgadas.
Uma destas garantias silenciosas do trato entre o freqüentador de
um grande festival de cinema e a organização do mesmo é
que haverá problemas. Muitos problemas. Todos os dias e de todos
os lados. Nada será como parece programado de início, e
isso é normal. Filmes não chegarão, legendas falharão,
sessões começarão atrasadas, filas dobrarão
esquinas e corredores de shopping.
Existem, de fato,
dois tipos de problemas numa Mostra. Os estruturais, que nunca mudam e
nem merecem mais muita preocupação. Eu, por exemplo, prometi
parar de perguntar porque a lente scope do MASP nunca teve foco, porque
a sala do Unibanco usada na Mostra é justamente aquela que impede
aos espectadores das primeiras filas lerem as legendas eletrônicas,
porque no Vitrine a porta fica embaixo da tela, porque no Unibanco Arteplex
15 minutos não é considerado nem atraso, etc. Além
destas, existe o trato de que estaremos dispostos a passar pelas experiências
mais surreais. Faz parte da graça. Por conta deste trato, eu confesso
que já passei por situações antológicas: sessão
interrompida após rolo entrar de cabeça pra baixo e de trás
pra frente, e não ter como recomeçar. Dia cancelado num
cinema por conta de teto que cai devido a chuvas, e sala alagada. Sessão
cancelada porque uma obra no cinema não foi concluída. Sessão
interrompida porque o lançador de legenda não conseguia
acompanhar os diálogos, e pediu ao público se "alguém
aqui fala dinamarquês??" (uma mulher falava sueco e se dispôs
a sentar ao lado do moço e fazer o filme passar). Filme com rolos
fora de ordem sendo considerado genial pela liberdade narrativa. Em suma,
por isso tudo e muito mais é que digo que nada mais é novidade
para mim.
Mesmo assim, eu não
estava preparado para os acontecimentos desta sexta-feira, dia 26/10/01.
Após cinco dias consecutivos de febre e mal-estar, durante os quais
só mesmo um distorcido senso de dever e paixão me fazia
vagar de sala em sala vendo os filmes, era o primeiro dia em que eu acordava
genuinamente bem. Levantei feliz, porque minha programação
prometia seis filmes pela primeira vez, e vários deles me deixavam
animados. Sem perceber que estava sacrificando o almoço com um
atraso ao sair de casa, segui para o Arteplex. Como eu disse acima, o
Arteplex é o lugar onde se a sessão começa no horário,
tem alguma coisa muito estranha. Acho que é uma simpatia dos monitores
e gerentes pelos atrasados, aqueles que descem correndo a rua Frei Caneca
para estas que são as salas mais distantes (e novas) do corredor
Paulista-Augusta que é o coração da Mostra. Azar
dos que montam programações casadas com outros cinemas sem
contabilizar o atraso do Arteplex. Muitas vezes nem a primeira sessão
do dia escapa, então já cheguei lá às 13:20hs
com um certo bom humor para o que seria o filme das 13:30hs, o muito esperado
A Estrada, dirigido por um cineasta que para mim é quase
uma encarnação da Mostra, porque o conheci aqui: Darezhan
Omirbaev. Seu primeiro longa, Cardiograma foi uma das minhas primeiras
"descobertas" do prazer da garimpagem no desconhecido, no primeiro ano
em que freqüentei o evento (1995). Várias coisas acontecendo
pela primeira vez, e a primeira vez a gente nunca esquece... Depois, em
1998, ele nos brindou com Matador, que talvez tenha sido o melhor
filme que vi naquele ano. Imaginem, portanto, meu nível de empolgação
e tolerância para este dia...
Logo nesta primeira
parada eu devia ter reconhecido que o dia não seria fácil.
A porta da sala estava aberta, enquanto eu seguia para o banheiro, e eu
pensei: "Oba, nem vai atrasar..." E realmente, não iria atrasar:
não iria acontecer sessão. O filme, num lance surreal ainda
inédito na minha carreira, havia saído do aeroporto em Campinas
às 11 da manhã. Estava saindo da Marginal naquele momento,
me diziam os sempre simpáticos monitores. Mas, infelizmente, não
chegou a tempo. Não foi a primeira vez que perdi um filme ao ficar
preso num engarrafamento, mas certamente foi a primeira em que perdi porque
o filme ficou preso. Fenomenal. Resolvi não reclamar da manutenção
na programação de um filme que nem tinha saído de
Campinas até a véspera da exibição, e tomando
um olhar positivo sobre a vida, fui almoçar com os amigos Cid e
Sérgio, e tentar descobrir como mexer pela enésima vez na
programação e conseguir encaixar o filme outro dia. (pensando
bem, eu reclamei sim, até tirar o gerente do sério. mas
ninguém precisa saber, vai...)
Comendo uma culinária
mineira mediana pra dizer o mínimo (também, restaurante
mineiro em shopping, ai ai, que burrice...), achei um espaço para
ver o filme, no qual teria que sacrificar uma necessária revisão
de Underground do Kusturica (mas os deuses da Mostra falam certo
por linhas tortas, e de noite ao abrir o email soube que o Underground
foi cancelado...). Feliz, e para me recompor com mister Kusturica,
sigo com Sérgio e Cid para o CineSesc, onde iremos ver o primeiro
longa do mestre, As Noivas Estão Chegando. No caminho comentávamos
como é bizarro fazer do melhor cinema da Mostra um enorme auditório
de vídeo, e mais ainda de como é interessante levar quase
uma semana para admitir isso. Foi um erro, com certeza, não ter
divulgado antes que tantas sessões teriam exibições
em vídeo. Mas, certos filmes só podem ser exibidos mesmo
assim, e vamos felizes vê-los. Na porta, um aviso devia me preparar:
"NESTA SESSÃO O FILME AS NOIVAS ESTÃO CHEGANDO SERÁ
EXIBIDO SEM LEGENDAS ELETRÔNICAS EM PORTUGUÊS". Do jeito que
andam as legendas eletrônicas (mais virá abaixo, e ainda
mais em texto específico), isso é quase uma boa notícia.
Mas, a pulga se aloja na minha orelha: "Opa, o Bar Titanic ontem
estava anunciado com legendas em inglês, e não tinha na fita..."
Entramos, sentamos, e... batata!! Quinze segundos de filme e está
claro: os que não falem um servo-croata fluente não conseguirão
ver o filme, pois não há qualquer tipo de legenda. Já
começando a achar tudo muito engraçado, nosso time (acrescido
do Ruy) se retira para ver a platéia pedir o dinheiro de volta
(e nós que não usamos dinheiro, será que podemos
pedir algo mais metafísico como nossa empolgação,
nosso tempo, nossa juventude???). Será que ninguém podia
ter posto a fita no vídeo e checado antes se tinha legendas?? Acho
que não, e desta vez nem penso em reclamar mesmo... É claramente
um dia em que seria melhor não ter levantado da cama. Aqui estou
eu, então: quase 16hs, nenhum filme visto (já poderia ter
visto dois outros, se estas sessões fossem previamente canceladas),
mas muitos sorrisos. Pelo menos não estou com febre!!
Para matar o tempo,
passadinha na loja de CDs do Sérgio, e descida até o DirecTV
Music Hall, ou algo assim, em suma, o Vitrine. Aproveito para conhecer
as novas duas salas, ainda não abertas. A sala 2 parece promissora,
espaçosa, porta de entrada por trás. A sala 3 parece um
daqueles cineminhas aconchegantes, de tela mínima, se não
fosse pelo defeito congênito da irmã maior (sala 1): porta
da sala embaixo da tela. Ai, ai, nem começando do zero os arquitetos
aprendem...
Mas, bem, a próxima
sessão não tem erro: Vício e Beleza, legendas
em português na tela, filme que vai estrear. Encontro os amigos
queridos Bê e Carol, melhor humor impossível, pronto a começar
meu dia. Ôpa, o filme começa... e nada de legenda na tela.
Ah, tem legenda eletrônica!! Mas, uma olhada para o legendador e
a constatação: de chinês ele não tem nem a
sobrancelha. Lembrando de experiências passadas, sei que isso cedo
ou tarde não vai dar certo. E não deu, claro. Apesar de
um hercúleo esforço, ele se perdeu constantemente (pelo
menos em 4 ou 5 pedaços, dos quais 3 cruciais), tornando qualquer
clima que o filme criasse uma coisa impossível pela irritação
com a ausência ou inadequação das legendas. Vi o filme
até o fim, é verdade (e já devia comemorar...), e
também é verdade que nem é um filme bom (independente
da legenda), mas porque não ter alguém que fale chinês
(em SP não é tão difícil, visto a mulher que
salvava as sessões de 17 Anos em 99), ou alguém que
tivesse visto o filme em vídeo e conhecesse o timing de
lançamento dos diálogos? O menos culpado certamente era
o lançador, mas acho que o Bê não perdoou ninguém
de tanto que ele escreveu no papelzinho de voto dele antes de entregá-lo
meio puto ao monitor da sala. "Ufa," pensei, "já não sou
o mais chateado..."
A sessão atrasou,
e com isso estávamos em cima da próxima, mas como era no
Arteplex, falei para relaxarem (Carol e Bê iam ao mesmo filme, de
carro). Chegamos lá bem em cima do horário, mas esperamos
os 15 minutos de praxe até o começo do austríaco
Dias de Cão. Tinha filme, a legenda estava lá, tinha
legenda em inglês na tela. Tudo certo desta vez. Mas, e o filme,
meu Deus... Não sei se porque o meu dia de cão não
estava com paciência para outros, não sei se porque um cineasta
que faça Michael Haneke parecer humanista, Todd Solondz carinhoso
e Bianchi um bonachão, não sei se por conta daquela platéia
que gargalhava com um plano de um velho colocando uma dentadura na água.
Não sei. Não sei se pelo meu estômago roncando, não
sei se pelo Guilherme do meu lado achando aquilo tudo "muito legal...".
Não, não foi por nada disso. Se saí do filme aos
50 minutos, foi por saber que irritar gente como eu é o que o diretor
quer, causar discussão e polêmica é sua meta. Nada
mais justo que trocar irritação por um lanchinho no segundo
andar, ou a polêmica por estas duas linhas ao invés de uma
crítica. Senhor Ulrich Seidl não merece nada mais de mim.
Comi, visitei as nababescas instalações aquáticas
do banheiro do Frei Caneca Mall (vale a visita, garotada!!), e ainda voltei
para a fila a tempo de pegar a saída do filme, na qual pude encontrar
as pessoas de bem (Alfredo Manevy, Paulo Santos Lima, Carol, Bê)
irritadíssimas com o que viram, enquanto alguns espíritos
de porco famosos (conhecidos como Guilherme Tristão ou Érico
Fuks) diziam ter curtido. Alfredo me perguntava "qual a função
da crítica" se vamos sair no meio de filmes como estes e não
discuti-los? Não sei, Alfredo, não sei. Talvez o Ruy possa
me ajudar nesta. Sei qual a minha função: não digerir
mais lixo ressentido, sádico e escroto do que o necessário.
Por esta encarnação, já chega.
Ora, ora. 22hs. Nenhum
filme visto na sua plenitude ainda. Que sexta-feira... A fila para Terra
de Ninguém era grande, e indicava mais um atraso de pelo menos
15 minutos. Atraso este, inclusive, que inviabilizava de saída
minha última sessão programada, às 0hs, de You
Really Got Me Now. Mas meu chapa Ruy me informou no dia anterior que
o filme não valia a pena. Nos entendemos ao ponto de sabermos o
quê o outro quer dizer quando usa uma expressão destas. Não
me senti mal com o atraso. Seria apenas o quinto filme frustrado de seis
ingressos retirados no dia. Restava torcer pelo Terra de Ninguém
ou o melhor filme do dia seria o comercial do DirecTV (com os da BR
e Unibanco passando fica difícil saber o quanto é mérito
e o quanto é falta de opção, mas não, de fato
é engraçado).
Cakoff aparece para
apresentar a sessão. Fala de "tanta coisa que aconteceu hoje...".
Será que ele sabe do meu dia? Acho que não... Bom, o produtor,
o simpático Cedomir Kolar que eu reconheci de anos anteriores,
apresenta o filme. Começa a projeção: tudo bem que
o projecionista não consiga colocar a lente scope toda em foca,
nem com Cakoff e o produtor na sala. Depois do dia de hoje, seria preciosismo.
Ainda mais lembrando da exibição do Trem da Vida
(filme que eu vi Kolar apresentar há dois anos) no Cinearte, um
desafio às melhores multifocais. E, nada disso importa: trata-se
de um belíssimo filme. Sobre isso, teremos até uma crítica.
Mas, basta dizer que somente aqueles 100 minutos me deram todas as energias
de volta. Me fizeram crer que valia a pena tentar ver seis filmes de novo
amanhã. Que o um raio não cai duas vezes na mesma pessoa.
E que, acima de tudo, um exemplar de bom cinema nos faz esquecer muita
coisa ruim...
Me despeço
do guerreiro Cid (que começara o dia comigo lá no Arteplex),
entro no táxi, e venho pensando no caminho pra casa que o dia de
hoje não se explicaria numa crítica, mas se refletiria em
qualquer coisa que eu escrevesse. Vou pensando no que fazer... É
aí que embro dos ensinamentos do mestre japonês Dancaô,
e decido: hoje é dia de cronicrítica. Porque não
se resume um dia destes de nenhuma outra forma. E amanhã vai ser
outro dia. Tem que...
Eduardo Valente
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