Cool and Crazy,
de Knut Erik Jensen


Heftig og begeistret, Noruega, 2001

A explicação fornecida pelo diretor para o que o fez realizar este filme mais do que apenas ajuda a entender o que ele seja, de fato ela dá toda a dimensão da relação do autor com sua obra. Pode parecer uma afirmação óbvia, mas não é. Quantas vezes vemos um filme onde o que está na tela tem muito pouco a ver com o discurso do seu realizador fora dela, tentando explicar suas intenções e objetivos. Pois bem, neste caso, o realizador conta que estava filmando um outro longa seu, de ficção, numa região da Noruega, e foi convidado a assistir uma apresentação de um coral masculino. Ficou impressionado com o impulso vital que levava aqueles homens de uma pequenina cidade costeira norueguesa a praticarem tão apaixonadamente tal atividade como o canto. Achou que ali havia assunto para um documentário, e voltou para realizá-lo em seguida.

Como disse no início, este impulso inicial está todo na tela. Pois o que move o diretor é, claramente, uma profunda admiração por estes homens, misturada com uma fascinação pelo ambiente que eles habitam e uma tentativa de entender esta atividade. Este impulso é central de ser compreendido, pois é o que dá maior interesse ao filme, pois trata-se de uma legítima curiosidade humana, uma vontade de saber mais sobre o outro, um carinho sincero pelo Homem. E estes sentimentos passam ao longo do filme todo, o que dá uma sensação boa ao espectador de estar assistindo algo de tamanho significado tanto para os objetos do documentário quanto para o realizador. Não há nada de burocrático portanto neste documentário, ao contrário de tantas outras encomendas e homenagens e biografias.

A armadilha para o diretor, porém, era narrativa: como fazer deste fascínio uma estrutura de começo, meio e fim. Aí não se pode dizer que ele tenha sido de todo bem sucedido. Porque se com suas imagens iniciais e finais ele resume toda sua idéia central, com cenas do coral cantando em meio a tempestades de neve e com o mar bravio ao fundo, o que se coloca no meio é altamente irregular em interesse. Ele tinha alguns problemas em mãos: o coral tem muitos integrantes, como contar a história de todos eles, ou algo sobre cada um deles? Outra questão: ele claramente quer falar daquela área da Noruega, mas como inserir isso no filme? Ele não consegue ser bem sucedido o tempo todo. Com isso, o documentário tem longos momentos em que parece estar dando voltas no próprio rabo, sem saber bem o que mostrar. Este é o problema de optar por documentar o banal de vidas sem nada de diferente das nossas: é preciso talento para tornar o banal algo mais, senão ele é apenas... bem, banal.

Mas, ao final, a paixão de todos os envolvidos supera estes inegáveis problemas, e o diretor consegue sim alguns planos e sequências muito boas, como a viagem do coral para uma apresentação na Rússia, que dá um gostinho do que deveria ser o filme como um todo. São momentos onde sobressai a extrema humanidade do projeto, e é impossível não se emocionar um pouco, aprender um pouco sobre um local tão distante, e ficar curioso. Que é mais do que se pode pedir de tantos filmes.

Eduardo Valente