Cidade Efêmera,
de Giorgos Zafiris


Efimeri poli, Grécia, 2000

O que há de efêmero neste filme grego certamente é o seu melhor. Quando consegue capturar imagens sem um significado mais fechado, permanente, quando consegue se entregar à paisagem, o filme tem seus melhores momentos, ainda que passageiros. Infelizmente, o que ele possui de redutor é seu esforço em ser excessivamente "artístico", o tempo todo. O diretor mesmo cita Kiarostami, Tarkovski, e pensamos em Angelopoulos, claro. Mas citações só podem levar um filme até um certo ponto, a partir do qual ele tem que falar por si mesmo. E o trabalho de Zafiris nunca consegue. Pegando clichês de enquadramento (como as cenas dos sonhos e seus campos amarelos) ou de uso do som (como o barulho de água pingando nas imagens oníricas), o filme parece estar tentando demais ser poético o tempo todo, como se este estado pudesse ser atingido previamente, sem auxílio do conteúdo, sem espontaneidade de motivos. O preço pago é o distanciamento do espectador, e um efeito efêmero menos desejado: o quase completo esquecimento do que foi assistido tão logo ele passe.

Talvez o erro maior seja uma opção que muitas vezes engessa a sua poesia numa tentativa de significar demais, seja na estrutura narrativa separada em capítulos devidamente entitulados, seja nas cenas oníricas que nunca dialogam de fato com as imagens "reais". A própria trama diáfana trata de uma busca que é filosófica demais a priori, ou seja, não permite que a poesia se instaure com o tempo, mas sim nos força este possível estado goela abaixo desde o primeiro plano. Para tal, falta ao filme a capacidade transcendente de um Tarkovski, seja na composição de suas imagens, seja no entrelaçamento delas. Da mesma forma que falta uma capacidade de retratar o banal de um Kiarostami, ou de mitificar o cotidiano de um Angelopoulos. Comparações injustas? Talvez, mas é o próprio diretor quem as inspira com seus objetivos declarados e filmados. Sobra ambição, mas faltam condições de atingi-la. E o filme fica assim, efêmero.

Eduardo Valente