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As
Paredes do Chelsea Hotel,
de Ethan Hawke
Chelsea walls, EUA, 2001
Existe uma sensação
que o cinema moderno tem tornado cada vez mais rara. É uma sensação
que nós poderíamos tomar como óbvia, inerente ao
impulso realizador do cineasta. Mas não é. Tal sensação
é difícil de exemplificar, pois trata-se de algo que não
se pode notar como existente ou não em um filme tão facilmente
quanto uma bela fotografia ou uma trilha sonora marcante. É o que
se poderia em primeira instância chamar de tesão. Mas, precisamos
ser mais específicos. O que se sente falta hoje é de uma
verdadeira adesão positiva do cineasta por aquilo que filma. Acreditar
na urgência e necessidade do que filma, uma busca de expressão
verdadeira. O que mais vemos hoje em dia são cineastas que não
acreditam nos seus personagens, que não acreditam nos seus temas,
que não acreditam nos seus filmes. Filmam por filmar, filmam para
ganhar prêmios, filmam para ganhar dinheiro. Às vezes os
três. Só não filmam por paixão, por querer
"dizer" algo, sem o peso careta ou moralizante da expressão.
Se não por
mais nada, o filme de Ethan Hawke vale somente por retomar com tudo esta
sensação, o que não deixa de surpreender. A atração,
mas mais do que isso, o verdadeiro fascínio e carinho do diretor
pelo universo que tenta retratar emanam de cada plano, de cada corte.
Esta sensação por si só recompensa o espectador por
ver o filme. O filme é um retrato de um certo underground
artístico norte-americano (e mais especificamente nova-iorquino)
com muito amor e uma certa nostalgia por um estilo de vida onde o que
move é a crença na arte como motor da vida, ou melhor ainda,
na fronteira em que a divisão entre arte e vida não é
mais possível de ser delineada, e se misturam até tornarem-se
um só. O filme indica da parte de Hawke um carinho pela busca de
algo mais puro na arte, e em especial no cinema.
Neste sentido, sua
opção pela filmagem digital faz todo sentido. Mas, não
deixa de impressionar pelo despojamento, realizando seu filme com pouquíssima
luz, cheio de planos quase completamente escuros ou com definição
de imagem medíocre. Esta opção por um visual em si
mesmo underground tem tudo a ver com a filiação do
trabalho. Mas não é só pelo visual que impressiona
a coragem de Hawke em assumir a linguagem desta sua estréia na
direção. Impressiona também sua opção
por uma narrativa não-linear, uma narrativa de impressões
e momentos sem maior importância do que outros. Seu filme é
muito mais o fluxo de um dia por meio das experiências e conversas
banais de seus personagens do que uma história. Para um diretor
estreante, ainda mais um nome mais ligado ao cinemão americano,
não deixa de surpreender. Da mesma forma que a entrega de seu elenco,
e em especial de alguns como Kris Kristofferson e Uma Thurman, sendo que
esta como esposa do diretor certamente tem uma relação mais
forte com o material.
Seu filme se revela
de fato nos vários planos de espaços vazios, que mais do
que marcar transições, revelam a alma daquele prédio,
daquela cidade, que no fundo é o que o diretor quer nos passar.
Pelo uso incessante da trilha, pelas citações literárias,
pelas canções e cenas de amor e brigas fica clara a sua
aposta naquele estilo de vida, mas em especial, a sua devoção
às pessoas simplesmente se escorando umas nas outras, nos sonhos,
na arte, como forma de continuar vivos. Um belo filme, honesto e apaixonado,
por isso mesmo raro.
Eduardo Valente
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