Canções Sangrentas,
de Hiromichi Tannai


Okami Shonen, Japão, 2000

O império dos fantasmas

Canções Sangrentas aparece desde seus primeiros planos como um estouro na tela. Não porque de fato algo exploda, mas pelo motivo mais prosaico de desde o início apresentar-se como um enigma para o espectador. Um enigma que seduz desde o princípio até o fim, dada a beleza das imagens e sua completa opacidade. Sim, é um desses grandes filmes onde é melhor deixar todas as certezas do lado de fora do cinema e tentar capturar da tela ao menos um pouco da experiência que aquelas imagens promovem. Canções Sangrentas é um delírio de violência (poética), sexo (velado) e, acima de tudo, do predomínio dos fantasmas sobre esse mundo, das aparições sobre o mundo dos vivos, da precariedade da existência e da fragilidade do cinema, terra privilegiada dos fantasmas e das sombras.

Sobre a história, há pouca coisa a dizer e pouco importa o que será dito: duas pessoas, um homem e uma mulher, dois irmãos, numa cabana isolada. Vendo algo que parece um fogo-fátuo ou um vaga-lume, que aparece pelas telas semi-transparentes das antigas casas japonesas, Kunio, o homem, persegue a tal aparição até encontrar o que deseja: penetrar num mundo desconhecido, naquilo que o filme chama o "outro mundo". Pretexto para daí em diante o filme não seguir uma linha propriamente lógica dos acontecimentos, mas antes uma poética da imagem, esse "outro mundo" sendo uma verdadeira paisagem de cinema que dá todas as liberdades possíveis para o estreante Hiromichi Tannai mostrar toda a força e vigor de seu universo imaginário.

O que segue disso são episódios de encontros com seres estranhos, nunca do ponto de vista do anedótico (se bem que haja um certo humor em algumas passagens), mas antes de tudo enigmáticos, tanto pelos estranhos poderes que têm – aparecem e desaparecem, teleportam pessoas, mexem objetos... – quanto pelo próprio trabalho do filme. Nós, espectadores, pouco entendendo aquilo que estamos vendo, nos identificamos àquele personagem naquele mundo estranho não pelos desejos, mas pela sedução e pela incompreensão.

Dividido em seis capítulos e um epílogo, todos diferentes etapas nas relações dos dois irmãos com o "outro mundo", Canções Sangrentas entretanto não guarda o mistério de sua realização na estrutura formal, mas antes no ato de filmar, na potência evocatória das imagens – a floresta, o deserto, a casa –, na animação dos objetos, todos carregados de poder – bandeiras que cercam e atacam o protagonista, estranhos desenhos e ideogramas que desencadeiam reações perigosas... Mas tudo vai além disso: Hiromichi Tannai é um excelente cineasta já em seu primeiro filme, um puro filmador, alguém que desde cedo já compreendeu a força delirante e criadora de imaginário do cinema. Canções Sangrentas dura boas 2h15 sem que o espectador consiga agarrar uma história para fazer passar o tempo, e ainda assim sustenta só pelo mistério de cada plano do filme, hipnotizando-o e fazendo com que ele se embrenhe no meio daquele mistério para constituir algum sentido do que está vendo (o que jamais acontecerá totalmente).

Horichimi Tannai apresenta uma poderosa filiação com a obra tardia do mestre japonês Seijun Suzuki. Quem assistiu aos delirantes Yumeji e Zigeunerweisen sabe do nível imagético complexo atingido por Suzuki em filmes abstratos, cinepoemas sobre a inspiração, sobre a arte, no limite – não à toa, o epílogo do filme chama-se "A Morte da Invenção". Canções Sangrentas coloca-se justamente no mesmo universo, às vezes lembrando de Imamura (as cenas de sexo quase bestial por ora lembram momentos de A Balada de Narayama), mas sendo sempre opaco, longínquo, de uma beleza difícil de ser atingida sem uma verdadeira entrega ao filme. É um filme que se coloca de fato neste "outro mundo" que ele filma, num mundo onde a imaginação resiste à gravidade, onde a liberdade resiste a toda convencionalidade. Canções Sangrentas é um filme sobre poesia, sobre cinema, sobre desejos limites (diversas cenas de sexo, sangue [ou será, como já dizia Godard, que não é sangue, que é a cor verlmelha?], e sobre aquilo que tudo se transforma quando torna-se arte: fantasmas, signos, jamais capturáveis. Hiromichi Tannai os mantém como tais: misteriosos, cheios de climas (a lembrar também o excelente trabalho sonoro do filme, com músicas e ruídos realmente geniais), mais para confundir do que para explicar, ao final do filme todos os nossos fantasmas – e não há dúvida que cada plano do filme é ele mesmo um fantasma que vem nos assombrar – permanecem conosco. Que vivam por muito tempo.

Ruy Gardnier