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Tortura Selvagem - A Grade, de Afonso Brazza, Brasil, 2000.
Vamos à crítica primeiro, por que é mais circunstancial e menos importante: o primeiro dia de uma mostra é o mais confuso e menos freqüentado, porque as pessoas ainda não tiveram acesso a informações sobre muitos dos filmes (mais cedo eu havia visto uma outra sessão com 5 pessoas, em pleno Arteplex!!), ainda não montaram suas programações, e é mais raro uma aposta. Como se não bastasse isso, pouquíssimo se fala de Tortura Selvagem numa mostra com Zurlini, Kusturica, Kiarostami, Oliveira, Makhmalbaf, Haneke, etc. Para adicionar mais um senão, a sala UOL fica distante do corredor Augusta-Paulista da Mostra, portanto sujeita a pegar-se trânsito, gastar-se tempo. A maioria dos cinéfilos freqüenta pouco esta sala durante a Mostra. Além de todos estes "poréns", esta foi a única sessão programada deste filme, ou seja, quem não viu neste dia não pode ver de novo, não há possibilidade de se fazer um boca-a-boca (e parte disso pode advir do fato do curador da Mostra talvez não acreditar que alguém fizesse propaganda positiva do filme). E, finalmente, neste mesmo horário está sendo exibido, também uma única vez na Mostra, Os Fantasmas de Marte, de John Carpenter. De uma forma ou de outra, pode-se dizer que os mesmos interessados num filme, estariam no outro. Mas por que afirma-se que esta complexa teia de esvaziamento do filme é uma crítica circunstancial? Porque não consegue desfazer o verdadeiro ato de coragem que foi programar este filme brasileiro na Mostra. Trata-se da primeira exibição "nobre" de um filme de Afonso Brazza no eixo Rio-SP. Ele representa o cinema brasileiro "que não ousa dizer seu nome", uma vergonha nacional perto do nosso atual "padrão de qualidade". Para quem ainda não ligou nome à pessoa, Brazza é o cineasta-bombeiro de Brasília que o Jô Soares gosta de levar ao seu programa de vez em quando. A atitude de Jô, ao contrário da de Cakoff, não é de nenhuma coragem. Como gosta de fazer freqüentemente, Jô leva representantes do "Brasil exótico" (esotéricos, vendedores de produtos estranhos, inventores, cineastas-mambembes) para que ele e sua platéia educadíssima possam dar algumas risadas do ridículo e arcaico deste Brasil tão peculiar. Claro que a Globo jamais exibiria um filme de Brazza, pois não passariam no seu "padrão de qualidade". Mas, para servir de escárnio eventual, ele serve. Para o bombeiro em si, não é mau negócio, afinal "falem mal, mas falem de mim", diz o ditado. Brazza era um bombeiro em Brasília que, apaixonado por cinema, começa a realizar longas em película mesmo, com sobras de negativo, economias pessoais, etc. Tortura Selvagem é seu sétimo filme. Como afirma o catálogo da Mostra, "Brazza é conhecido pelos baixos orçamentos e pela estética pobre de seus trabalhos". Poucos chegam a ser exibidos em cinema, embora este tenha sido até lançado comercialmente em Brasília, fazendo um inesperado sucesso por conta de seu apelo "trash". Os anteriores no geral eram vendidos em cópias VHS mesmo. Este fenômeno recente certamente ajudou a fazer o filme chegar à Mostra. No entanto, isso não diminui a coragem de Cakoff de se associar por proximidade a esta estética pobre, precária mesmo. Faz parte de uma certa coerência com a Mostra como um todo, sempre apostando no diferente, mas ainda assim era inesperado, e um fenômeno a ser louvado. Bom, mas feito este hiato explicativo, voltemos à Sala UOL naquela sexta-feira. A sala de fato está tão vazia (em torno da hora da sessão havia umas 12 ou 13 pessoas) que temos o luxo de tratar a sessão como evento privé, ou seja, sabendo do engarrafamento na cidade e do interesse do co-editor Ruy Gardnier pelo filme, peço ao assessor de imprensa do Festival, o multi-Chiquinho, que segure um pouco o começo para a chegada do Ruy com nosso colaborador paulista, Sérgio Alpendre. Finalmente, às 00:15, começamos o evento. É inegável ao entrar na sala que os poucos presentes sabem que vão presenciar algo único, podemos dizer até histórico. Numa arte marcada pela reprodutibilidade, pelas sessões consecutivas e lotadas, pela pequena presença de "momentos únicos", esta é uma sensação rara, que quase nos faz gostar daquela sala vazia, porque somos uns dos "happy few". Há um certo constrangimento no ar, afinal Brazza foi trazido desde Brasília para esta única sessão, mostrando que com todo receio da organização pelo filme (daí a sessão única), eles certamente não esperavam algo tão vazio. E com o diretor presente, sempre se deve chamá-lo para apresentar o filme, mas Chiquinho fica em dúvida de como fazê-lo para este grande cinema às moscas. Facilita o trabalho dele que boa parte do público (afinal, nosso grupo de amigos representava um terço do total) goste de sentar nas primeiras cadeiras, portanto fica menos "solitário" para Brazza apresentar. Mas, todo constrangimento desaparece nas primeiras palavras do cineasta. Fica claro que, ao contrário da maioria dos cineastas-artistas, que a esta hora estariam angustiados, envergonhados e revoltados, ele se sente muito honrado de exibir o filme em SP, na Mostra. Se tem só 15 pessoas na sessão, são 15 pessoas a mais do que ele esperava que vissem o filme em cinema. Claro que parte deste discurso vem da velha dominação social, que faz com que os mais humildes se sintam agradecidos com qualquer migalha oferecida. Mas, boa parte da sensação faz sentido. Até porque, mesmo que este tipo de raciocínio possa não ter passado pela sua cabeça, se alguém teria que ouvir suas reclamações e mágoas, certamente não seriam aqueles 15 que ali estavam para curtir seu filme. Neste ponto, a compreensão instintiva de Brazza do que seja o fenômeno do cinema ultrapassa muito a fogueira de vaidades que arde no meio. E o discurso dele demonstra isso tudo: a humildade, o raciocínio muito pouco burilado sobre o que seja o cinema, a gratidão por fazer e mostrar filmes. Acima de tudo, porém, o que fica do seu discurso é a irracionalidade da paixão daquele homem pelas imagens em movimento, por realizar filmes. Afinal, é uma arte cara (ele afirma isso algumas vezes), de pouquíssimo retorno. No caso dele, inclusive, sem direito a leis de incentivo, apoios oficiais, e outros amenizadores. Seu cinema é movido puramente de amor, verdadeiro. Neste ponto o discurso aumenta a sensação especial que cerca a sessão. Brazza afirma não se importar em ser considerado um dos "piores cineastas do mundo". Ao meu lado, Ruy completa: "Com o que anda sendo chamado de melhor por aí, não deixa de ser um elogio". Verdade. Brazza revela já estar trabalhando no próximo filme. Trata-se, definitivamente, de um louco. Graças a Deus. Palmas sinceras dos 17 presentes, vamos ao filme. Antes, porém, um outro hiato faz-se necessário: o que afinal buscávamos nós enquanto cinéfilos naquela noite? Afinal, será sem dúvida um filme precário, sem qualquer articulação de linguagem. Será que gostamos do exótico também, será que somos cultores do trash, ou será que somos apenas condescendentes esperando para passar a mão na cabeça deste "autêntico brasileiro"?? Há um pouco disso tudo, creio. Mas há acima de tudo a curiosidade natural do cinéfilo verdadeiro de ver aquilo que é único, que é diferente. A bem da verdade, esperamos um filme narrativo precário, mas esperamos que ele possa nos revelar um olhar diferente, que ele possa passar pelas suas frestas uma apreensão nova do que seja o cinema, sem ser mediada pelo nosso olhar educado, de "classe média pensante". Porque este hiato é importante? Porque se não bastasse este relato todo, que já valeria a noite, ninguém estava preparado para o que surgiria na tela. Ninguém mesmo. A platéia estava embasbacada, e lá pela metade do filme, a sensação passou de dever cumprido e momento histórico para a de experiência inesquecível. O filme então é fenomenal, revelando um talento sem igual? Longe disso, embora o "sem igual" se aplique. Mas, completamente surpreendente não se pode negar. Claro, esperávamos uma fotografia tosca. Mas talvez não ao ponto de termos troca de luz no meio de um plano, inúmeros "takes" fora de foco, negativos completamente vencidos. Claro, esperávamos um som medíocre, mas certamente não uma dublagem quase caricatural, uma trilha sonora de rock pesado constante. Claro, acima de tudo, esperávamos uma montagem primária. Mas, certamente não esperávamos o que nos foi jogado na cara: uma seqüência de planos sem qualquer enredamento lógico, nenhuma história. Não se pode nem falar em seqüências, porque não há andamento narrativo. Personagens somem e aparecem, no meio de uma "seqüência". Todas as regras do bem filmar (eixos já não era mesmo de se esperar) são subvertidas, não há qualquer continuidade entre planos, não há sequer a tentativa de articulação mínima. O que há no filme é uma série de cenas de tiros, de mortes em tiroteios, de perseguições que não levam a nada, de clichês policiais. O filme, bem visto, lembra muito um filme pornô, onde o sexo é substituído pelo tiroteio. Nenhuma necessidade de história. Para isso, precisamos admitir, não estávamos preparados. Inúmeros nomes vêm à nossa cabeça educada de cinéfilo: Seijun Suzuki, Sam Peckinpah, John Woo, Tsui Hark. Mas o melhor de tudo é saber que isso é tudo nosso, de forma nenhuma são "referências" ou "influências" do diretor. Formado com certeza pelo que há de mais comum do cinemão, apreendido em cinemas poeira e TV, o resultado final é este liquidificador que supera tudo que podíamos esperar. É verdade: Brazza nos ensina algo de cinema, mostrando que para renovar a linguagem não se precisa planejar. Ele nos mostra o poder fetichista da imagem, nos mostra como qualquer seqüência de planos se monta no imaginário do espectador, mostra como o cinema ultrapassa os limites da narrativa clássica, e não só na mão dos grandes inovadores. Brazza é a explosão de um imaginário incontido, de uma paixão irracional. Seu desapego à linguagem é exatamente isso: uma despreocupação com o que é supérfluo, pelo que é único no cinema: imagens e sons, em seqüência. Como descrever os planos perdidos de um céu com nuvens, no meio de um tiroteio? Ou de um personagem que grita o filme todo "Apareça, Maicon!!", quando não conseguimos nem localizá-lo geograficamente? Como falar de frases como "Para cada bandido que prendemos aparecem 1000", enquanto o filme faz o tiroteio no meio das ruas parecer a coisa mais comum, beirando o comentário involuntário sobre nossa vida nas metrópoles? Como explicar a presença de Zé do Caixão: uma homenagem, uma exploração de um nome famoso, uma sandice completa? Como falar de um personagem, ou melhor dado a inadequação da expressão, de uma pessoa que surge de repente em close e grita: "Ah, eu não agüento mais!!"?? Não se fala, não se descreve. Ao cinema de Brazza não há comparação possível. Pobres de nós que tentamos tecer teias de compreensão a partir de um arcabouço teórico-lógico. Para nós, ficam as balas de Brazza, seu cinema, muito maiores do que somos. Cinema é aquilo. E a certeza daquelas 17 pessoas: o que presenciaram naquela sexta à noite foi único e definitivo. Eduardo Valente |
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