O Órfão de Anyang,
de Wang Chao


An yang yin er, China, 2001

Os primeiros planos são empolgantes. Quer dizer, empolgantes para todos os que gostam do cinema oriental, já que na sua longa duração e pouca ação, talvez "empolgante" seja uma palavra enganosa. Mas, talvez se aplique, porque enganoso é o que estes planos iniciais realmente são. Afinal, após a apresentação da trama, durante a qual impressiona o rigor de enquadramento, a capacidade de introdução da narrativa, e o poder da sutileza das composições e estruturações de personagens, o diretor Chao (que, diga-se, estréia no longa com este filme) perde a mão e o controle do seu filme. Não que ele vire um mau filme, ele simplesmente não corresponde às expectativas geradas pelo seu próprio começo. Mas deixa a certeza de que o diretor pode vir a fazer belos trabalhos ainda.

O problema principal no qual o filme incorre após este início é um dos mais comuns do cinema atual: não saber manter na sua condução narrativa uma coerência de princípios que una forma e conteúdo tornando-os complementos perfeitos. Assim, o espectador mais atento vai perceber que os planos longos do início logo tornam-se valores em si mesmo, mas quando o conteúdo não pede este alongamento do tempo cinematográfico, ele vira apenas um recurso estilístico que pode ser tão vazio quanto o excesso de movimento e cortes de um cinema mais cinético. Da mesma forma, o encaminhamento dos personagens não atinge um objetivo claro, caso mais exemplar do gângster, mas de fato de todos os outros também.

O que fica do filme é a capacidade de usar a linguagem que o diretor possui, como exemplificado pela utilização do som fora da tela, ou mesmo pelas filmagens na rua que possuem enorme vitalidade e energia pulsante. Constrói ainda algumas imagens bonitas, como pode ser considerada a cena final. Mas o que ele não consegue é dar uma conexão a todos estes elementos que possa ser considerada funcional ao longo do filme, apesar de sua curta duração. Fica a promessa do que virá.

Eduardo Valente