Água e Sal,
de Teresa Villaverde


Água e Sal, Portugal/Itália, 2001

Até que ponto devemos relevar ou mesmo nos interessar pelo que acontece com um(a) cineasta no "mundo real" ao analisar um filme seu? Esta é uma das questões menos simples de responder, porque ao mesmo tempo em que estar aberto ao que foge simplesmente da tela pode ser um dos atos mais generosos e essenciais de um crítico ou analista. Compreender que o mundo é maior do que a tela do cinema, sempre. Por outro lado, se caímos por demais neste domínio, o objeto de análise em si, o filme, fica eternamente relativizado, nunca poderá ser bom ou ruim, nunca poderá ser lido a partir de um conceito. Este filme de Teresa Villaverde nos joga as perguntas relativas a isto de uma forma pouco comum. Porque no fundo o que ela filma aqui é uma sublimação da sua própria vida. E nesta relação estão os grandes defeitos e as grandes qualidades do filme. Mas até onde podemos investir nestes a partir do filme que vimos ou da vida da diretora?

Para os que não saibam: a diretora encerrou a relação com o marido, e levou junto a filha com ela, sem que a custódia tenha sido lhe atribuída. De fato, cometeu um crime. Um crime por amor, pelo melhor para a filha, alega ela. No filme, a protagonista vive os conflitos de acabar uma relação com o marido, e brigar com ele pela filha. Como se não bastasse esta complicação toda, a menina do filme é interpretada pela própria filha da diretora. E o filme é dedicado a ela, com uma epígrafe que diz que um dia ela vai saber o que era melhor. Bom, não queremos virar sessão de fofocas ou julgamentos civis, isso é problema lá deles. Mas, como se pode ver, como desvincular realidade de filme num exemplo extremo como este? Não dá.

Mas, tentemos nos ater ao filme por um momento. Ele parece bom por si mesmo? Não, não parece. É confuso, no pior dos sentidos, sem um norte, uma estrutura estética ou narrativa que o faça funcionar. Parece ir em ondas, em cenas que se seguem em torno de um tema bastante abstrato: uma mulher vivendo o fim de uma relação e se reposicionando na vida. Isolada, recebe diferentes visitas e trava contatos com diferentes pessoas. Poderia ser interessante, mas no geral não é. As cenas não se completam, muitas vezes a diretora se perde no próprio umbigo criando alguns belos planos que não adicionam absolutamente nada. Da mesma forma, acontece com personagens, como o interpretado por Chico Buarque (sim, ele mesmo). Em alguns momentos ela parece estar dando um depoimento pessoal que interessa pouco aos não amigos dela, com mini citações a seus livros favoritos, canções queridas, que a emocionam e fazem pensar. E daí?

Por outro lado, é esta entrega pessoal que dá algum interesse ao filme. Há cenas verdadeiras de entrega, há muita emoção na atuação da atriz principal e sua angústia, há até mesmo alguma beleza na forma cifrada como não temos acesso ao que levou a personagem até ali. Há menções quebradas de acontecimentos passados, como a morte recente de uma irmã ou a relação com um amante. Não há qualquer explicação racional para o fim do seu casamento, apenas a sensação de uma relação terminal. Isso chega a ser bonito, ao não tentar explicar o momento desta personagem, seus motivos.

No entanto, a partir disso não sai uma narrativa que se entregue emocionalmente de todo, ela pede seguidamente momentos racionais, momentos simbólicos diretos que funcionam bem menos. A personagem se envolve com uma trama de personagens secundários que não chega a encontrar unidade com suas emoções, e parece atravancar a trama. Há uma alusão a um clima de paixão e entrega completos que poderia jogar com o momento frio e distante da personagem, mas não chega a ser algo que toque o espectador.

A sensação final é que Teresa Villaverde fez um filme importante para ela. Com verdadeira vontade de se expor, de se colocar na tela, de usar o cinema como terapia pessoal. Para ela pode ter funcionado, não sabemos. Para a outra parte, o espectador, não se pode dizer que aconteça o mesmo. Ele tem acesso a momentos esparsos, mas não chega a se envolver com o que vê. Talvez fosse o caso de separar vida e cinema um pouco, cuidar de um depois do outro. Os dois ao mesmo tempo parece má terapia. E rende processo na justiça...

Eduardo Valente