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A
Estrada,
de Darezhan Omirbaev
Jol, Casaquistão/Japão/França,
2001
Em
1998 tivemos a chance de assistir na Mostra de SP um dos filmes mais impressionantes
pela preocupação rigorosa de seu diretor com cada detalhe
da sua realização. Não era um filme, diga-se, que
se vendesse desta forma, engessado por isso. Apenas tratava-se de um trabalho
que, quanto mais se mergulhasse nele, mais se perceberia a coerência
de proposta que regia cada plano, cada corte, cada elemento na cenografia,
cada som. Isso é uma preocupação que parece cada
vez mais rara no cinema, a utilização da linguagem em sua
plenitude a favor de uma proposta, sem com isso deixar de contar uma história,
fazer um filme. Aquele trabalho se chamava Matador e era o mais
recente longa de Darezhan Omirbaev. Isso tudo para entendermos com que
expectativa comparecemos à exibição deste mais recente
trabalho seu.
Aí,
fica a pergunta inevitável (e não acho que seja nem injusta,
pois um realizador deve sim ser julgado por tudo aquilo que já
fez): o filme sustenta-se? Sem dúvida alguma. Trata-se, mais uma
vez, de um exemplar raro de coerência no cinema. Ao qual talvez
falte a contundência e a secura de proposta do filme anterior. Mas,
isso sim já é comparar demais duas obras distintas, porque
nesta aqui Omirbaev está justamente tematizando um diretor de cinema
em crise pessoal e com sua obra, para falar de ética e vida mais
uma vez. Então nada mais normal e pertinente que o filme tenha
um pouco desta confusão temática, narrativa, de objetivos.
O
filme se desenrola em torno de três eixos básicos: as viagens
mentais do personagem principal (que misturam sonhos, devaneios e memória),
sua incursão pelas estradas do interior do país para visitar
a terra de sua infância onde sua mãe encontra-se doente,
e seus dilemas atuais com um filme que está finalizando para lançar.
Trata-se portanto de um filme de reavaliação de vida e de
opções, um filme onde o personagem precisa confrontar-se
com sigo mesmo para concluir (ou não) ao final o que é importante
para ele. É um filme que lembra Matador (que, inclusive,
tem cenas usadas aqui como o suposto filme que o diretor está realizando)
nos dilemas éticos que constantemente assolam o personagem, onde
seus sonhos e lembranças inclusive possuem papel muito importante.
Os três eixos na verdade assumem o papel de passado (as lembranças),
futuro (os sonhos) e presente, e este trio será a base da discussão
do filme.
Omirbaev
tem uma capacidade acima de todas que é a de filmar o ser humano
no que ele possui de mais frágil, de mais fraco, e filmar isso
não apenas com carinho, mas como o que é sublime na existência.
É assim que uma notícia de rádio vira um devaneio
delicioso do personagem com um guerreiro mongol, revelando o tamanho dos
seus temores. É assim que temos uma cena quase sublime como a da
sedução da mulher do bar dentro do carro (outro devaneio).
É nestes sonhos que ele se revela em seus dilemas, em especial
nos que mostram seu medo do filme não ser bem recebido. E é
com detalhes sutis de um realizador maior (como a cena do pouso na Lua
mostrando um garotinho que sonha mais longe que seu cotidiano rural; ou
com detalhismos mesmo como a camiseta de Michael Jordan do filho do cineasta)
que ele permite que sua aparente secura se revele de fato de uma grande
ternura com o que seja o ser humano. Sem com isso precisar ser melodramático
ou, principalmente, manipulador. Omirbaev vai construindo com toda calma
e profunda organização a estrada do seu filme, o caminho
mental que tenta traçar.
No
discurso final (o som em off com textos longos é uma marca
sua, sempre nas vozes de uma pessoa não revelada), ele deixa claro
o dilema maior: a forma como passado e futuro aprisionam o presente de
forma a ele se tornar difícil de ser aproveitado, tornando a vida
humana este dilema constante e incompleto. É uma observação
que recontextualiza os dois tipos de plano que ele usa na viagem do personagem:
os da estrada que vêm, na frente do carro; e a estrada que fica
para trás, detrás do carro. São só partes
da mesma estrada, às vezes as mesmas partes vistas de ângulos
diferentes, mas que tornam muito mais difícil conseguirmos ver,
nós mesmos, a parte da estrada em cima da qual o carro está
neste exato momento. Esta preocupação com a forma de filmar
para buscar a transcendência pelo humano é o que faz dele
um diretor especial e sempre necessário. Um diretor que sabe, como
faz colocar na boca de seu personagem, que "um plano pode valer por 500".
E a grande maioria aqui, vale.
Eduardo
Valente
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