A Caverna,
de Martin Koolhoven


De Grot, Holanda, 2001

A primeira sequência de A Caverna não é exatamente um bom cartão de visitas: a trilha sonora completamente over, em desacordo com qualquer coisa que vemos na tela. Uma situação encenada porcamente, que tenta insinuar um mistério, mas que não chega a ser bem sucedida. Nada demais até aí. Porém, o que se seguirá comprova que o início não foi acidente. Após uma narrativa formada por sucessivos flashbacks voltaremos a este momento inicial, apenas para descobrir que a forma como ele foi mostrado no início era até digna perante o ridículo da sequência final.

Porém, o mais estranho do filme é que, de fato, este seu "mistério" inicial tem muito pouco a ver com o resto da narrativa. Pode-se inclusive pensar que (e esta constatação é parte do que torna o que era misterioso, apenas ridículo no final) o filme existiria perfeitamente bem sem esta situação dramática. Pois o que há no meio era matéria-prima muito mais interessante: pode-se chamar da "geologia de uma amizade". Geologia esta, é verdade, encenada sem meios-tons, e por isso bastante desinteressante no que possui de clichê. Mas, se houvesse mais coragem do seu diretor em assumir que seu tema era este, e não uma trama que se explica em flashback para voltarmos a ela no final, o filme podia ser bem melhor. Ao invés de um suspense fake que nunca se instaura, o filme podia ser um belo estudo de personagens. Mas, é preciso coragem para se assumir este como seu tema principal.

Até porque o diretor mostra não possuir o talento necessário à construção deste estudo, já que tende a moralizar demais o que sejam posturas e influências interpessoais absolutamente naturais, especialmente na infância e adolescência dos personagens. Com isso, seu assunto perde em frescor e ganha em esquematismo, o que pode ser considerado normal para alguém que ousa finalizar o filme com uma suposta imagem poética, que é de fato cinema de terceira categoria.

Eduardo Valente