Plano Geral Agosto 2001

Crônica: O Cinema Pré-Colombiano (Guilherme Sarmiento)
Entrevista:
Mário Carneiro: pintura, cinema e reeducação do olhar (Luiz Alberto Rocha Melo)
Crônica:
O Verdadeiro Plagiador (Guilherme Sarmiento)


CRÔNICA
O Cinema Pré-Colombiano

A cidade de Nazca, no Peru, ficou conhecida por seus misteriosos desenhos, só decifrados quando se pôde sobrevoar a extensa e desértica planície peruana, no início do século XX. Deve ter sido um choque perceber os lagartos, aranhas, macacos riscados com precisão e corte profundo no chão ocre, para aqueles que pensavam que as escavações eram senão um sistema de irrigação obsoleto, desenvolvido por uma sociedade pobre e, o que é mais definitivo, extinta - os Viracochos foram dizimados pelos Incas, antes mesmos dos espanhóis dominarem a região. Vistos de cima, entretanto, os desenhos adquiriram desconcertante perspectiva, ao ponto de provocar uma série de equivocadas interpretações, como por exemplo a de que seriam desenhados pelos Viracochos depois de viagens em discos voadores. Mas a Nazca silenciada, destruída pela violência do colonizador, ainda é capaz de nos apresentar, mesmo que postumamente, indícios de uma surpreendente inventividade e tecnologia. Hoje se sabe que, para realizar aqueles desenhos tão precisos e tão gigantescos, com linhas que atingem até 30 quilômetros, foi necessária somente a engenhosidade de um povo que já dominava a arte dos balões muito antes dos europeus, bem como outras técnicas desenvolvidas e esquecidas no tempo. O cinema foi uma delas.

No ano passado, os cinéfilos de Cuszcu foram surpreendidos por uma publicação autônoma, distribuída por alguém desconhecido no meio artístico peruano. O estranho chamava-se André Sampaio. Ele distribuía uma filipeta exaustivamente xerocada para todos os que compareciam ao Cineclube de Cuszcu na ocasião da Mostra de Curtas-Metragens, que é tradicionalmente realizada nos mês de novembro. O autor dizia que em Nazca, no século X, já havia projeção de filmes e denominava o período como Período Pré-Colombiano, exigindo ainda a inclusão do fato na História do Cinema Universal. André Sampaio, conhecido no Rio de Janeiro por seus filmes "Palhaço Xupeta" e "Polêmica" e totalmente desconhecido no Peru, foi ridicularizado por todos e sua atitude relacionada com a publicidade de seu filme, que passou despercebido pela crítica de Lima. Mas o fato é que o cineasta havia feito uma descoberta extraordinária e no mínimo inquietante.

A passagem de André pelo Peru, toda a celeuma que causou no circuito underground de Lima, só foi descoberta por seus amigos há pouco, quase um ano depois do ocorrido. Murilo Mathias, em uma de suas viagens a Amsterdam, conheceu um videomaker peruano que trazia uma foto de Tupac Yupanqui (apelido pelo qual André Sampaio é conhecido na periferia da Cidade de Lima) e uma das malditas filipetas guardadas sem esmero em sua carteira de couro de lhama, onde está registrado um texto apocalíptico. A surpresa de Murilo foi imediata, tanto pela passagem do cineasta pelo Peru, desconhecida por ele, bem como o tom equivocado do texto, pois é sabido o humor carioca do cineasta.

O fato ainda tornava-se mais obscuro por nunca haver sido sequer mencionado por André e, depois de descoberto pelo seu círculo de amigos, negado veementemente por ele. Na verdade, somente há poucos dias André assumiu o manifesto. Provavelmente com medo da reação que causaria por aqui, o cineasta, assim que chegou no Brasil, silenciou como a antiga sociedade que queria defender. Foi com muito custo que conseguimos com que ele voltasse às suas teorias, abrisse suas gavetas e nos mostrasse estranhos desenhos junto a um diário de um espanhol chamado Ferdinand de Túnis Sarmiento, desbravador quinhentista.

Segundo André, estas relíquias foram compradas em uma feira no interior de Nazca, na barraca de um chino. Pesquisas feitas posteriormente atestam a antigüidade do documento e a Biblioteca Nacional do Peru possui registro da passagem de Ferdinand de Túnis Sarmiento pelas terras peruanas no ano de 1517, em uma expedição liderada por Luiz de Mónzon. A falta de verba impediu uma viagem à Espanha para um rastreamento mais preciso, mas pôde-se deduzir que Ferdinand era órfão de pai - pois o sobrenome Sarmiento foi dado pelo rei Fernando II aos órfãos da guerra da Reconquista- e emigrado de Tríves, pequeno povoado localizado no interior da Galícia. Seu diário era escrito em um espanhol arcaico e floreado, cheio de pernas, como um fóssil de um louva-deus, ilegível. O que se podia ver nitidamente eram os desenhos, muitos desenhos, que mostravam os rituais e o dia-a-dia daquela sociedade esquecida, filtrados pelo ingênuo senso crítico do desbravador. Por exemplo: os balões, hoje decifráveis, mas que para ele eram dragones de Asteroth, sobrevoando a planície desértica. Em um destes desenhos via-se vários homens de frente para uma tela e uma estranha máquina atrás deles projetando sombras. Seria o cinema?

Esta semelhança vulgar com o que hoje denominamos cinema fica por aí. O aparato, embora muito parecido, guarda muitas diferenças com o cinematógrapho, pois sua essência era outra.

André nos diz que a máquina Viracoches projetava sombras. Aquela sociedade ancestral a utilizava como base para suas pesquisas óticas. O que se imprimia e o que se projetava eram as sombras, e não a luz; as sombras brotavam da luz, contradizendo as palavras do Grande Livro Sagrado do Ocidente, a Bíblia; renegando os princípios que regem a projeção de um cinema voltado para a impressão da claridade; renegando o iluminismo, que foi na direção do esclarecimento, para um desenvolvimento sustentado pela luz da razão; aquela sociedade, a outra, mergulhou na escuridão, sem que, com isso, tenha aproveitado do seu conhecimento para a feitura do mal. Como o desenho nos faz deduzir, projetava suas sombras com o sol a pino, em meio ao deserto, sem nenhuma tenda ou construção, imprimindo no lusco-fusco os trapos de sombras para seus admiradores. O conhecimento é, acima de tudo, uma busca isenta. Pois a pequena sociedade de Nazca foi acertando seu universo, moldando seu mundo a partir da escuridão. Sem o preconceito do mal.

As ignorantes mãos de Ferdinand, por mais que tentassem desenhar aquela máquina à perfeição, nunca chegaram a tocar no mistério do seu mecanismo. Aqueles traços não foram suficientes para elucidar aquele mistério. O homem do ocidente tem dificuldade acerca da escuridão; estão aí os enigmáticos buracos negros que não me deixam mentir. Mas aquela sociedade dominava as trevas e Ferdinand de Túnis Sarmiento, já imbuído do espírito renascentista, foi incapaz de ver ali algo extraordinário. Para ele, tudo o que via lhe era inferior. Mas hoje os desenhos provariam o quão irônico pode ser o destino, pois, muitas vezes, os que são considerados os mais fracos são os que possuem a outra metade da laranja, a outra metade do quebra cabeça do conhecimento de Todas as Coisas, mas são dizimados antes de poderem dizê-lo.

Agora, fica mais fácil perceber o desespero mudo de André Sampaio. Depois de ver aqueles desenhos e ouvir suas explicações acerca do Cinema Pré-Colombiano, percebemos toda a fragilidade do discurso que sustenta a realidade nossa e todas as questões que o fizeram tomar aquela atitude desesperada de distribuir filipetas na cidade de Cuszcu. Infelizmente, as causas daquele acesso, o diário e os desenhos de Ferdinand de Túnis Sarmiento, foram destruídas pelo cineasta. Infelizmente as provas da loucura foram queimadas. Resta agora um documento apócrifo, que será esta reportagem, mero entretenimento tosco para os incrédulos e os cínicos.

Guilherme Sarmiento

ENTREVISTA MÁRIO CARNEIRO:
Pintura, Cinema e a Reeducação do Olhar

No dia 12 de agosto encerrou-se a exposição de pinturas de Mário Carneiro no Paço Imperial, centro do Rio. A exposição contou com 30 quadros da safra recente (entre 1996 e 2000), além de aquarelas e estudos. Mário, diretor de Gordos e Magros e fotógrafo de clássicos como O Padre e a Moça, Nelson Cavaquinho e Porto das Caixas, foi aluno de Iberê Camargo (1949-1955) e realizou diversos curtas e vídeos relacionados às artes plásticas. Neste depoimento, Mário fala de cinema e pintura, mas fez questão de evitar teorias, sugerindo entrar na ordem "prática" de uma exposição: "Como dizia um amigo meu, ‘sem bolsa plena, nem loura nem morena.’"

"O problema grave é esse: a arte não é feita para ganhar dinheiro..."

A exposição eu acho que está indo bem, ainda tenho uma chance de vender uma coisa ou outra, e tal... Se eu vender assim meia dúzia de quadros, sete quadros - eu já vendi cinco, e umas tantas aquarelinhas também, umas quatro ou cinco aquarelinhas... Enfim, pra 30 quadros não é muita coisa, mas dá pra quebrar o galho e continuar. De maneira que o que vai me salvar de fato é o cinema, nesse momento, porque eu tô fazendo um filminho sobre o Cícero Dias...

Esse negócio de você sobreviver sem nenhum emprego é uma coisa muito complicada. Eu passei a vida inteira - de vez em quando eu tô empregado, de vez em quando eu não tô, então... Já trabalhei na Globo, já trabalhei na Jodaf, esses foram meus empregos em que eu tinha um tempo maior de trabalho, não é? E o resto foram filmes.

Eu fiz uma exposição em 69 [na Petite Galerie, Rio de Janeiro]... Fiz outra em 90 [Parque Lage, Rio] ... A de 69 foi muito bem, eu tinha 80 quadros e vendi 29 na primeira noite. Bom, mas o fato é que essa primeira exposição tinha o financiamento do Banco Nacional. Agora, o Paço Imperial não é um lugar comercial, e isso é uma coisa já que eu acho um absurdo: devia haver a possibilidade de você vender os seus quadros. Tudo bem, há um caráter cultural, mas... Isso é uma espécie de uma maldição que a arte carrega: onde existe cultura o dinheiro é mal-visto. Se houvesse alguma verba pra bancar a exposição, tudo bem, mas não deram...

Não vai nisso propriamente nenhuma queixa, não. É uma organização enraizadamente paternalista, né?, então você tá sempre fazendo alguma coisa mais porque te permitiram fazer... No fundo queriam todos que tivesse um curador, uma pessoa pra julgar os meus quadros por mim, um outro que fosse o organizador da exposição, levasse uma grana pra ir pendurar os quadros... É difícil, porque hoje quem manda nas exposições são esses tais curadores, que são geralmente bons ou razoáveis críticos, "pesquisadores de arte" que invadem o olhar do artista e têm um poder de decisão que... Não sei, tem gente que gosta disso, a mim me desagrada. Eu sei o que eu acho melhor, não vou deixar a pessoa ficar julgando - "ah, eu acho mais interessante esse viés que você pegou" - e usar essa linguagem toda "modernizante" da globalização, eu acho isso muito esquisito, não faz parte da minha geração.

Mas esse negócio de exposição também traz uma reaproximação com o cinema de arte, não é? Porque aí sentem que você tem uma cultura de pintor e também é um cineasta mais ou menos manjado e tal, então já me telefonaram várias pessoas interessadas em fazer filmes ligados a esses assuntos, em que o olho do artista é uma coisa fundamental: um filme sobre as carrancas do Rio São Francisco, outro sobre aquele escultor negro, esqueci o nome dele agora, excelente escultor... Bom, eu já tô fazendo um sobre o Cícero Dias nesse percorrer do lance aí... E tem mais umas duas idéias aí rondando o ar, inclusive eu mesmo resolvi criar coragem pra fazer um filme sobre o templo positivista e... e assim vai, né?

Então a vida é complicada porque você nunca pode fazer algum cálculo preliminar... E de fato, a arte não é feita pra ganhar dinheiro, o problema grave é esse. A gente pensa que pode sobreviver de arte - não. A gente pode viver de arte deixando de ser o artista que você gostaria de ser. Aí me ligou a moça que está tentando vender os meus quadros: "Seu Mário! Não consegui vender nenhum. Será que você não tem umas ‘flores’ aí, de 60cmX80cm, o cara adorou as tuas flores..." Eu faço uma exposição que tem 30 quadros e... "Não, ele quer uma flor de 60cmX80cm, como aquela que eu vendi pro Fulano...", quer dizer... Eu posso até pintar, eu disse "ó, eu acho que eu vou tentar pintar, e você tenta vender", porque eu não tenho nenhuma condição de estar bancando assim uma prima-donna que não sai do caminho, não é? Leonardo Da Vinci também fingia que era uma prima-donna mas oferecia pros mouros as armas mais terríveis pra matar quem se aproximasse das muralhas... Tô citando Leonardo Da Vinci porque aconteceu de eu ler um livro sobre ele agora, não por ter qualquer pretensão... Mas os conselhos dele são excelentes, ele conhecia bem esse lance aí.

Agora, pros alunos universitários que pretendem fazer cinema hoje, que que eu vou dizer? Que eu acho que essa formação de pintor e de arquiteto que eu tive é uma coisa muito importante pro cinema que eu fiz. O cinema tem um vício de achar que a cultura começa e acaba no cinema. Geralmente isso é muito pouco comunicativo. E eu acho que devia fazer parte do currículo das escolas de cinema uma espécie de um pequeno curso de Belas-Artes em que as pessoas desenhassem um pouco, já que o desenho é fundamental pro olhar, e que houvesse um pouco de História da Arte também, pra não ficar essa coisa vaga: "Fulano entende de pintura"...

O que significa "entender" de pintura? Você tem é que ir atrás pra saber que pintor você gosta, por que as cores de um te agradam mais que as cores de outro, que tipo de linguagem que os pintores empregam... Então, eu acho que seria um grande avanço se houvesse esse "retrocesso de aprendizagem", de passar um pouco pelos museus...

Essa idéia de que cinema é comunicação... Comunicação tá muito ligada a jornalismo, televisão - "quem não comunica se trumbica"... - há uma frase assim, que está muito mais ligada a um programa de variedade, uma coisa bem popular como era o Chacrinha, que aliás era um gênio, né? Então não é pelo fato de ser popular, mas é pelo fato de que essa idéia de comunicação se barateou. Você se comunicar poderia não ser só uma coisa imediatista, mas algo que tivesse uma paciência com o olhar a longo prazo...

Inclusive proporcionando essa coisa maravilhosa que é fazer uma revisão, também, tanto dos filmes quanto do seu passado de brasileiro nas artes, do ser humano no mundo... Saber como é que os egípcios pintavam, esculpiam, por que as figuras tinham os braços juntos, por que era tudo duro, por que os gregos se soltaram... Mas isso é bom quando você tem slides, ou então filminhos de arte... Agora tá cheio de filmes maravilhosos de arte feitos pela BBC... Às vezes os caras dão umas "pisadas de bola", né? Mas com um professor acompanhando, ilustrando... acho que seria muito bom.

Lúcio Costa e o desenho em três tempos

O meu projeto sobre o Lúcio Costa é um filme sobre o ensino do desenho. O texto do Lúcio foi escrito em 1940, por aí, a pedido do ministro Capanema e... quer dizer, Lúcio Costa virou de repente diretor da Escola de Belas Artes, organizou o Salão de 1931, o primeiro salão moderno do Brasil, uma ruptura, com os artistas da Semana de Arte Moderna, Cícero Dias, Tarsila, Di Cavalcanti, e todo mundo que fazia parte daquele movimento...

Lúcio Costa divide o curso de desenho mais ou menos em três etapas: o desenho de observação, que deve começar quando o aluno sai do curso primário, com onze, doze anos, e começa a perceber e a desenhar coisas. O desenho técnico, que faz uma preparação pro desenho geométrico, dos arquitetos, dos designers. E o desenho de criação, que é uma espécie de prolongamento do desenho infantil, sem que haja uma ruptura. Esses três caminhos são ensinados juntos, vêm simultaneamente.

Lúcio Costa sentiu exatamente que os alunos iam pra Escola de Arquitetura, ou pra Escola de Belas Artes, sem ter uma formação básica de desenho. O que é que acontecia naquela época? Os acadêmicos todos dominavam o mercado de arte, os meios de aprendizado: desenho exato, de alta precisão. Então era um período em que os professores "matavam" a vontade de fazer desenho dos alunos que não tivessem "jeito". Esse negócio de "jeito pro desenho" é uma praga: não adianta você aprender a desenhar se você não tem talento... Mas os mais louvados eram os mais "jeitosos" e que tinham maior paciência pra copiar uma cabeça grega igualzinho... De repente o Lúcio sai com essa idéia de reensinar desenho fazendo uma preparação pros professores.

Basicamente, o meu filme é pra professores de desenho. Em primeiro lugar, pra não errarem nessa primeira fase infantil, em que deve-se deixar correr frouxo a cabeça da criança... Então, eu acho que é muito atual esse filme, baseado no Lúcio Costa, porque caiu muito essa necessidade do nosso ensino de aprimorar o lado cultural... Eu acho que um dos grandes males do Brasil é o ensino desapropriado, né? Ou bem se vai pra uma escolinha técnica e aí o ensino é puramente prático, o cara sai dali pra ser eletricista, maquinista, operário de primeira qualidade, e tal...

Porque isso tudo foi criado também pra que não houvesse desconfiança de que os brasileiros não poderiam montar automóveis, né?, então... A idéia básica era a seguinte: os americanos achavam que os nordestinos nunca aprenderiam a montar um automóvel, então fizeram essas escolas técnicas... Mas se eles vissem os nordestinos construindo Brasília... Os prédios mais complicados, as curvas de Oscar Niemeyer, os cálculos dos engenheiros brasileiros mais sofisticados, a mão-de-obra nordestina botou tudo de pé lá.

Só que isso também é você criar "bons escravos": o Brasil cismou que um dos objetivos do seu progresso era virar "montador de automóvel" que vem 70% pronto de fora. Essa é a idéia jusceliniana, porque não havia nada. Hoje tem milhões de carros estacionados e as pessoas sem poder de aquisição, o país sem poder de exportação... Não sei... Me dá a impressão de que o Brasil se desapropriou de sua vontade de ser, mesmo, e isso começa por esse caminho de anulação por um ensino mal-feito. Não vejo muita solução no momento atual, porque eu também... se eu entendesse dos problemas maiores de governo... Mas eu entendo que está tudo errado. Isso eu sei. Eu sei que você não pode criar um país endividando e depois economizando em cima do povo pra pagar dívida do FMI... (pausa breve) Muito bem! Esse papo está encerrado, vamos passar às amenidades da vida. Já chegamos quase à presidência da República, é fogo! (apontando para o gravador) Como é que desliga...?

(Luís Alberto Rocha Melo, 14/08/2001)

CRÔNICA
O Verdadeiro Plagiador

As idéias são iguais a partículas que se movimentam no limbo. Pipocam sobre as cabeças pensantes, até encontrarem quem possa traduzi-las. Perante tal trabalho é que se entusiasmam os artistas, cada qual traduzindo-as conforme o tipo de instrumentação dado por sua arte, cada qual apresentando um resultado diverso, uma resposta própria aos seus estímulos. Dentro de uma mesma arte, já é possível realizar uma série de interpretações infinitas. Infinitos filmes sobre uma mesma idéia. A vertigem tomará conta de nosso pensamento se colocamos esta mesma idéia interpretada por cada uma das sete artes, com seus recursos variados. O infinito multiplicando-se em quadros de infinitas combinações de cores, músicas de infinitas combinações de notas, enquanto a idéia transmuda-se, deixando para trás sua antiga casca sucessiva. Será possível controlar seu fluxo, suas inúmeras possibilidades de correlações?

No Palácio Gustavo Capanema, funciona o Escritório de Direitos Autorais. Lá as idéias são, supostamente, registradas. Todo o autor, do mais medíocre ao mais genial, do mais compulsivo ao mais contrito, precisa ter sua idéia patenteada, registrada. Precisa pegar o elevador até o décimo segundo andar, entrar por um imenso corredor cheirando a burocracia, chegar na sala 1205, entregar xérox da obra e do cpf, preencher um formulário, colocar o local, data, assinar e pagar uma taxa de dezessete reais, para que, ao final de um mês de espera, sua idéia passe a lhe pertencer definitivamente, passe a ser reconhecida pelo Estado como um roteiro de Fulano di Tal. Qualquer canalha que porventura venha a arremedar o estilo, os diálogos, as seqüências de imagens daquele roteiro, poderá ser levado a um tribunal, pois a partir dali, a idéia deverá ser mantida bem debaixo do sovaco de seu autor.

Ao meu lado, um músico registrava uma partitura. Tinha muita intimidade com o funcionário. Provavelmente, ela provinha do patenteamento de sucessivas partituras, da relação estabelecida depois de várias indas e vindas das mesas para as máquinas de xérox, das máquinas de xérox para as mesas, de assinaturas, carimbos, enfim. O músico, depois de um longo tempo olhando para mim, balançou um cd sem capa, dizendo, Três mil cópias vendidas. Posso considerar-me um músico. Vão ter que me engolir, vão ter que me engolir. Disse isto ironizando Zagallo na copa de 98, com um riso cínico no canto da boca. Teriam de engolir sua persistência de registrador compulsivo de fracassos. Fracassos oficializados.

Depois que passei por todas as provações pelas quais um autor precisa para ter a posse de sua idéia, comecei a pensar na impossibilidade do que acabara de fazer. A troça do músico tinha colocado na minha cabeça, ainda que inconscientemente, o germe do questionamento. Tanto é que me coloco agora em frente ao computador para registrar minha inquietação.

Será possível controlar o fluxo das idéias? Será possível invadir o seu espaço virtual para tomar posse de um de seus transitórios confins?

Para respondermos esta pergunta, basta buscarmos na nossa experiência alguns momentos onde há coincidência espontânea de idéias entre duas ou mais pessoas. Quando se cria algo, existe sempre o risco de estarmos caindo no lugar comum, ou o que é mais grave, nas idéias comuns. Muitas vezes, o entusiasmo próprio dos que acabam de criar impede que se perceba o quão mediana é a forma pela qual sua idéia foi exposta. Na realidade, a princípio, todas as formas de expô-la serão medianas, pois o pensamento individual precisa de um contexto favorável para o seu surgimento; precisa de fluidez histórica, de tecnologia, ou seja, as idéias, para florescerem, necessitam de inter-relações múltiplas dos indivíduos com seu tempo, e com seus iguais.

O que faz um autor ser admirado é a forma pela qual suas idéias evoluem, fazendo com que o leitor tome consciência, ao final, de sua banalidade. No pensamento comum, elas não tomaram forma ainda, muito embora tenham sido percebidas. O artista expressa o sentimento formalmente, fazendo com que às pessoas compartilhem da palavra(ou de qualquer outro meio de expressão) que teimava em permanecer interdita. Por isso a sensação de "Ele conseguiu dizer tudo o que eu não conseguia". Esse processo independe da qualidade artística da obra. Basta a iniciativa de se expor para desencadeá-lo ininterruptamente. O mais simplório dos poemas de amor poderá comover.

A banalidade é universal. O sentimento de que tudo já foi dito não é exclusividade pós moderna. O mundo já nasceu dito por uma voz distante; ao homem coube nomear, só nomear o mundo em prontidão. Desde que passou a existir como uma célula, trocando fluidos no oceano; desde quando se tornou um organismo vivo, o homem soube do banal, pois a existência prescinde de pensamento puro. A repetição dos fenômenos naturais, a permanência de condições ideais foram as responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento do homem.

Neste ambiente árido, onde o homem é deixado no canto do quadro, o que mais surpreende não é a banalidade das idéias; é o fato de algumas delas conseguirem superar esta vocação à banalidade, impondo-se como um pensamento original, digno de um maior apresso por parte da crítica e do público. Este mecanismo de escolha é que me intriga. O que faz com que uma idéia deixe de ser banal? O que faz desta idéia um paradigma?

Quantos daqueles trabalhos registrados no Palácio Gustavo Capanema sairão de sua condição banal? Qual deles renomeará o mundo?

Ninguém tem como saber. A seleção é algo desconcertante por sua imprevisibilidade. Cada um de nós batalha pela permanência de sua idéia no mundo, individualmente, mas os resultados só serão fornecidos pelo tempo. As idéias não pertencem a nenhum homem, nem a todos os homens. Pertencem ao tempo.

Portanto, a minha iniciativa de registrar o meu texto não conseguirá impedir um outro homem de entrar na idéia que o inspirou, liberta que está dentro do tempo que nos envolve. Qualquer tentativa de aprisioná-la resultará em ação inútil, fantasiosa, megalomania sem sentido. Do mesmo modo, é uma missão impossível identificar o plágio, pois fica-se sem saber se isto realmente aconteceu ou se tudo não foi mero acaso proporcionado pela banalidade das idéias. Aliás, todos os grandes artistas são mestres neste tipo de ilusão. São pessoas que não têm cerimônia de entrar sem bater na porta das idéias. Captam, roubam, respiram-nas sem o pudor de usufruir de seu poder, de ganhar dinheiro, fama, deixando para trás os que ficaram com medo de balbuciar as palavras mágicas. O verdadeiro plagiador não é aquele que copia o texto integral de um outro: este é um ladrão de galinhas; o plagiador verdadeiro é o que vai na raiz da coisa, o que copia o que foi sugerido pelo texto.

Não quero que este meu pequeno artigo se torne um libelo contra os direitos autorais; mesmo porque, acabo de registrar alguns textos, como já disse. Voltei para casa com uma nota fiscal e um protocolo, onde podia-se ler um número à caneta no molde de um carimbo: o número de meu registro. Nem alegre, nem triste, peguei um ônibus para casa. Abri a gaveta da mesa de cabeceira e joguei o texto ali. De alguma maneira, aquela ilusão de que estavam protegidos me deixou mais tranqüilo. Poderia inscrever-me em concursos, mostrar para quem quisesse, sem a preocupação de ser copiado por um espertinho sem imaginação. Mas a sensação desconfortável de que fiz algo idiota, vez por outra vinha com força.

Fui dormir imaginando que, se o décimo segundo andar do Palácio Gustavo Capanema pegasse fogo, transformando tudo em cinzas, seria um belo sacrifício ao mundo das idéias.

Guilherme Sarmiento