Férias Prolongadas
Um último retrato – Van Der Keuken


Johan van der Keuken se prepara para filmar cena de suas Férias Prolongadas

(comentário livre sobre a obra de Keuken e sua última realização no cinema)

Retratos do Homem que retrata Homens. Auto-retrato...

Essa vontade de se prender aos mínimos detalhes, à mínima imagem... Diante dos olhos, que são uns olhos de câmera - retratar o espaço como um fragmento de mundo, como um fragmento de si mesmo no mundo – como uma projeção do olhar sobre um mundo volátil que se morfa... Férias Prolongadas: A entrega ao mundo de um corpo, de uns olhos – sujar-se com o que se filma, temer, olhar, gostar do que se vê...ou desgostar. Memória. Querer o que se filma por dentro da imagem, fazer da realidade um rastro de si, um lugar de seus passos. Um mundo que emerge do silêncio, ante o olhar espantado da câmera. Olhar de quem procura, sentido de quem constrói e se mostra aos sentidos... Mundos por dentro de mundos por dentro de coisas que só ali se vê, ou que sempre foram vistas... Vivências por dentro da câmera, através de uma realidade que se faz aos poucos...em pequenos pedaços de si, aquela pequena parcela que vemos de tudo, aquele instante em que erguemos o mundo sob nosso olhar e em que este nos ergue por dentro de si.

Retratos de pessoas, de coisas, de movimentos imperceptíveis... Uma viagem, uma jornada. A percepção do incompleto. Pequeno gesto em direção ao que nos perturba: o desafio de um medo? Da morte. Uma reinvenção de vida, uma brincadeira de vida, uma saudade das vidas que não conhecemos. Van der Keuken é um olhar e um movimento – pensamento por dentro do filme, espaço de muitos tempos. Anatomia do rosto da procura, de quem se filma. Identidade através do outro – na relação com o ausente de mim que em mim me faz. Uma recriação de vida, uma ironia de fina morte... A morte, essa ameaça, esse fim de mundo todo - de tudo o quê poderia ser... Fim do mundo-de-si-mesmo, do mundo-de-si-no-outro e do mundo-de-outro-em-mim...

Van der Keuken de uma imagem carrega mundos, filmes-realidades de pequenos gestos que nos continuam. A imagem sentida, a imagem dos sentidos raros e banais – circunstância de eternidade no mundo de quem se vê... No corpo frágil do homem doente que respira de filmar, filma uma respiração de si mesmo, mas não os próprios olhos ou seu próprio rosto – mas seu corpo em ritmo de filme, em projeção de filme de si mesmo, auto-referência para o outro, margem onde se equilibra a luz na tela... Como uma corrida contra o tempo, como atravessar o tempo... Câmera de vídeo. Keuken é o espelho do olhar do outro em nós, sentados na sala escura, ante a um retrato imenso e vivo: olhando, querendo, não entendendo em exato o que se vê, não vendo tudo... Nomeando o nome de crianças... Despindo-se diante de nós... Sobrevoando nossas cabeças. Mas vendo pouco, mas sendo só o que se vê – Keuken se faz de Cinema, de filme de gente entre as gentes – não de imagem congelada no tempo... Mas de pessoa fílmica, de se mostrar e esperar que o mundo se mostre...

Aos pedaços, sempre aos pedaços, flertando com o olhar de quem o quer – até o último instante.

" Sim, porque as coisas provocam, provavelmente em mim, então é a percepção das coisas... como eu sinto e como não sinto, acho que colocar tudo isso no filme é um outro tipo de realismo. Não podemos ser realistas se não sentimos verdadeiramente o que filmamos." Van der Keuken in Contracampo n 5.

Sem mais palavras.

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Johan Van der Keuken faleceu em janeiro de 2001, sendo homenageado no É tudo Verdade 2001 com a re-exibição de seu último filme Férias Prolongadas, no qual relata seus últimos meses de vida, suas jornadas em busca da cura de seu câncer, suas buscas por novas histórias a serem filmadas:

"Vivendo apesar de tudo, com a ajuda de belas histórias, que vendem a si mesmas, como um consolo diante do fim da existência" - J. Van der Keuken.

Em 1999, quando de estadia no Brasil para sua retrospectiva no É Tudo Verdade, Contracampo n.5 realizou a entrevista de cujo trecho me utilizo nessa pequena lembrança e que está disposta em nossos arquivos.

Felipe Bragança.