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Ficções
adolescentes, anos 80:
Amy Heckerling e John
Hughes retratam uma nova América


Jeff
Spicolli (Sean Penn) entre as fotos de mulheres nuas e
experiências com drogas em Picardias Estudantis
de Amy Heckerling
O universo do cinema
é fascinante. Podemos nos deixar embriagar pelo jogo puro da ficção
das obras de Robert Bresson ou Hou Hsiao-hsien, podemos nos emocionar
com a impureza de Candeias ou Frank Tashlin, podemos engajar nosso olhar
com Dziga Vertov e Straub, ou podemos discutir a sociedade a partir de
filmes como os de Godard e de Eduardo Coutinho. A natureza de todas essas
belezas, evidentemente, reside num dispositivo ímpar, que dá
a grandeza dessa prática: o cinema, contrariamente a todas as outras
artes, é capaz de registrar o momento, e essa especificidade dá
a ele infinitas propriedades: ser "arte", ser documental (todo filme é
documental antes de ser ficcional), falar tanto sobre o genérico
quanto sobre o particular, ser filosófico, sociológico,
antropológico, político. Ser registro do momento, esculpir
o tempo (segundo a expressão de Tarkovski) dá a impressão
de que o cineasta é mais do que um simples artista: tamanho domínio
do tempo, tamanho controle daquilo que nos ultrapassa dá a idéia
de que o cineasta é um verdadeiro demiurgo. Dentro do mundo, ele
cria um outro mundo. Isso desde o cinema considerado mais ralo, mais imbecil,
ao cinema de investigação filosófica, considerado
mais sério. E é esa gama de significações
que nos leva aos lugares mais recônditos do mundo, das línguas
e dos comportamentos para poder falar, como um personagem de novela antiga,
"Meninos, eu vi!" E uma das coisas que mais apaixonam é observar,
mesmo por trás do objeto aparentemente mais óbvio, um tema
de discussão política-estética-social (para quem
vê cinema - e vê o mundo através do cinema,
e vice-versa - essa distinção é inexistente) relevante,
um corpus que se constitui como interlocutor de seu momento, e
que representará para as futuras gerações o passado
encarnado, recuperado em rolos de celulóide. Ontem, quem acreditaria
que a chanchada pudesse ser tema de discussão teórica? Hoje,
ela é culto - não só em termos de diversão
e entretenimento, mas inclusive como tema de discussões políticas
e filosóficas a respeito de representação, subdesenvolvimento,
paródia e outros temas relacionados. Ontem, quem acreditaria que
aqueles filmes, gentis e desbocadas diversões para crianças
dos anos 80, conseguiriam expressar uma época e representar de
tal forma um item inestimável de pesquisa para qualquer um que
se interesse em ficções adolescentes, em comportamento na
época de Reagan, e ao mesmo tempo constatar que eles têm
discursos sérios - ou ao menos têm algo a dizer - sobre mudanças
na sexualidade americana, relação com drogas, falência
do sistema educacional. E, acima de tudo, em alguns casos, com uma tarefa
ainda maior, mais "artística": fazer as contas do mundo com o espectador
e, utilizando-se de um discurso libertário, efetivamente trazer-lhe
novas perspectivas de vida, de comportamento, povoando seu imaginário
e discutindo seus problemas sem precisar disfarçar-se de autoridade,
como fazem pais, professores ou analistas.
Comédias adolescentes:
gênero definitivamente menor, excrescência mercadológica
indigna de um reino tão grandioso quanto o cinema? Não,
não acreditamos nisso... Sabemos hoje que gêneros como o
suspense ou a comédia já foram uma vez objetos do mesmo
preconceito, e não estamos dispostos a incorrer na mesma espécie
de equívoco. E aliás, o que é um gênero maior?
Tudo o que podemos dizer é que as ficções adolescentes
existem; muito mais do que a factualidade de sua existência,
queremos dizer com isso que ela exerceu pregnância, ela persistiu
e persiste no imaginário cinematográfico, além de
ter se constituído naquilo que se convencionou chamar um nicho
de mercado. Numa sociedade mundial de consumo, os nichos de mercado
designam a partição das preferências culturais da
população. Se algo consegue nascer e subsistir como nicho,
significa que de fato ocupa um papel significativo na sociedade. E tanto
pior para os que consideram os nichos negativamente, como meros produtos
da moda. As ficções adolescentes existem: elas povoam imaginário,
se reproduzem e criam efeitos.
Primórdios,
primórdios... Sabemos que a primeira estratégia de alguma
coisa que se quer estabelecer como instituição é
traçar a sua própria história. Entremos nesse jogo:
podemos falar de Frankie Avalon e Annette Funicello, dos filmes dos Beatles,
de Frank Tashlin até, mas não estaríamos nos atendo
ao ponto. A única referência cinematográfica que parece
relevante às novas comédias americanas dos anos 80 é
American Graffiti, de George Lucas. E mesmo assim, a influência
de American Graffiti vai até certo ponto. O filme de George
Lucas, certamente uma obra-prima, tinha como ponto forte o olhar nostálgico
para uma juventude de vinte anos antes. Ora, a força dos filmes
de Amy Heckerling e John Hughes, para citar os dois maiores nomes do gênero,
é justamente manter-se no presente, ou seja, dialogar diretamente
com os jovens que vão ao cinema. De resto, esses filmes parecem
muito mais influenciados pela música pop/rock do que efetivamente
pelo cinema. É o próprio John Hughes quem o diz: suas referências
são os Beatles e Bob Dylan. É acima de tudo uma nova atitude
no modo de tratar (e retratar) os jovens, uma atitude que consiste em
não mais paternalizá-los ou culpabilizá-los, mas
identificar-se a eles, fugindo das grandes tragédias e tentando
levar para a tela do cinema as situações cotidianas e os
anseios da geração entre 13 e 23 anos. Nada de muito importante:
drogas, descoberta do sexo, vida escolar, primeiro amor, trabalho, relações
entre meninos e meninas, popularidade, relação com autoridades
(escolares ou familiares), futuro, sucesso profissional...
Não bastasse
isso tudo, a comédia adolescente ainda viveu um tempo privilegiado.
Sua matéria prima, os jovens, passavam por um momento de profundas
mudanças na sociedade americana (e conseqüentemente em toda
a sociedade ocidental). Herdeiros do rock e dos movimentos libertários,
os jovens dos anos 80 não têm nenhuma ideologia de liberação
(sexual, política), mas têm que conviver mesmo assim com
sexo cada vez mais cedo (Phoebe Cates em Picardias Estudantis acha
um absurdo que Jennifer Jason Leigh seja uma virgem aos 15 anos), com
drogas (no mesmo filme, Sean Penn vive Jeff Spicolli, um surfista que
ingere mais maconha do que oxigênio) e não têm absolutamente
mais com quem conversar. Natalie Wood em Juventude Transviada não
conseguia admitir que seu pai não a entendia. Ainda era um registro
de que jovens e adultos partilhavam um mesmo mundo. Nos anos 80, nada
de tal: os jovens já desconsideram de cara o apoio de uma figura
de autoridade para entender aquilo que eles estão passando. Ferris
Bueller não reclama de seu pai; ele simplesmente não o leva
em consideração. Ele sabe que seu pai é bem-intencionado...
o problema é que ele apenas não conseguiria lhe dar algum
conselho relevante. Há uma diferença não mais de
idade, mas de mundo: pais e filhos simplesmente vivem em registros diversos.
Igualmente com a escola. Por mais que se tentasse mostrar a instituição
high school com simpatia, seria impossível não mostrar
o mal estar que ela cria no comportamento dos jovens: a atitude do jovem
é ou ignorar o professor e divertir-se de outra forma (Sixteen
Candles/Gatinhas e Gatões), entrar na confrontação
direta (Picardias Estudantis) ou simplesmente ignorar que existe
sala de aula (Curtindo a Vida Adoidado). Uma escola tem validade
por agregar adolescentes; o único problema são aqueles sujeitos
velhos na frente do quadro negro. Mais que as gerações anteriores,
os anos 80 - conservadores até não mais poder - tiveram
de si o grande problema e foram o grande sintoma da falência das
instituições. Não é que eles fossem rebeldes
e detestassem a autoridade; muito menos trata-se de um emburrecimento
generalizado (tese absurda ainda sustentada por uns poucos): os adolescentes
retratados nesses filmes simplesmente não se sentem concernidos,
nada do que passa na sala de aula lhes diz respeito.
Outra mudança
significativa ocorrida nesse período e que os filmes captam com
perspicácia é a rearrumação de papéis
a partir de uma nova praça pública: o shopping center. Nos
anos 60, não havia outro local onde se pudesse filmar os jovens
californianos a não ser na praia (e de fato, foi o que se fez).
John Hughes fazia sua johnhughesland em Chicago, num suburb, mas
Picardias Estudantis se passa em plena região praiana da
Califórnia é simplesmente não há uma cena
de praia (fora um sonho de Jeff Spicolli, e mesmo assim a praia está
em back-projection). As crianças se divertem em sua praia
particular: a piscina de casa. Em compensação, o shopping
lhes rouba todo o tempo. Ou eles vão para lá a fim de
encontrar com as pessoas e conversar, encontrar o local de sua afirmação
social (Weird Science/Mulher Nota 1000) ou têm lá
seu emprego de meio-expediente e ficam lá o dia todo depois do
colégio (Picardias Estudantis, onde quatro dos personagens
principais trabalham). De qualquer forma, o cenário muda: passa
da praia, lugar "da natureza" por excelência, para o shopping,
lugar do consumo, lugar "da natureza" para a cultura do consumo e, logo,
lugar natural dos jovens dos anos 80 em diante.
Mas a força
maior dos filmes de Hughes e Heckerling residem menos nos temas que eles
abordam do que na forma com a qual eles abordam esses temas. Eles
podiam ser graves, extrair verdadeiros dramas da vida dos adolescentes;
poderiam, igualmente, realçar o poder de decisão das autoridades
e fazer dos adolescentes ora vítimas da autoridade ora burladores
inconseqüentes. A verdadeira sabedoria de mise-en-scène
de um Picardias Estudantis ou de um Curtindo a Vida Adoidado
consiste justamente em colocar a autoridade entre parênteses,
em mostrar que não existe uma Lei à qual se pautar na hora
do julgamento. Em parênteses ou literalmente fora do baralho: em
dois filmes seus (Sixteen Candles e Esqueceram de Mim, dir.
Chris Columbus), John Hughes inicia um filme com uma cena familiar primordial
onde um personagem é esquecido pelos pais e deve reencontrar um
sentido por si mesmo (Molly Ringwald ou Macauley Culkin, adolescente ou
criança). Os diretores constatam algo que acontece no seio da família
americana (com mãe e pai no trabalho, os filhos se educam sozinhos,
por si mesmos e pelos encontros que fazem) e não dão nenhuma
mensagem moralista. Parecem dizer, pelo contrário, que apesar de
tudo the kids are alright, como já dizia o grupo The Who.
Os adolescentes não têm pais, como nos desenhos de Charlie
Brown, ou então seus pais estão ausentes, mas isso não
importa muito - as crianças crescerão sem muitas seqüelas.
É justamente essa leveza que impressiona, a profunda intimidade
que esses diretores estabelecem com uma geração que não
é a deles: Jennifer Jason Leigh tem três relações
sexuais com três homens diferentes aos 15 anos, fica grávida
e pratica um aborto, e isso é filmado com tanta gravidade quanto
alguém pedindo uma coca-cola no balcão. Os adolescentes
matam aula, transgridem a lei, experimentam sua sexualidade (a Aids ainda
não tinha emergido como um grande problema de toda a sociedade),
e os diretores continuam filmando seus personagens sem tomar muito partido
em prol ou contra, apenas registrando (antropologicamente, poderíamos
dizer) o comportamento de uma geração. Desdramatização,
narrativa agitada, muitas mudanças mas nenhum trauma muito grande,
olhar contemplativo: assim, John Hughes e Amy Heckerling conseguiram criar
uma forma cinematográfica coerente aos personagens que estavam
experimentando; assim conseguiram inventariar um mundo em processo de
construção. Sem muita pretensão em realizar grande
arte, realizaram um belo painel, uma obra delicada e cheia de ressonâncias
ainda hoje.
Ruy Gardnier
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