Cinema Hagiográfico


O documentário brasileiro está em alta. De gênero "menor", assim usualmente encarado pela crítica e pela mídia em dissonância ao seu sucesso na Europa e nos Estados Unidos - agora chega a sua vez entre nós. E nesta hora em que os festivais afins se multiplicam e algumas TVs, aberta e por assinatura, investem no gênero, a bordo de cinco documentários de longa-metragem nos últimos anos (e um sexto em montagem), gostaria de provocar uma discussão sobre a embocadura moral dessa vertente que está na origem do próprio cinema. O cinema nasceu documentário.

Ao correr de sua história, curtas e longas, o documentário nacional tem revelado uma incontornável vocação para algum tipo de patronato (não confundir com patrocínio, que seria a encomenda marqueteira pura e simples). É uma vasta filmografia com assinatura quase toda e sempre comprometida. Às costas dela - como um ventríloquo - idéias servis sopram os rumos éticos e estéticos da imagem. Por mais sub-reptício que elas fluam, acabam sempre se denunciando na "verdade" última do filme.

Essa ideologização é um cancro inflamado cuja raiz nos remete ao cinema mudo. Lá e atravessando o sonoro até cair no chamado "cinema de autor" - atuavam os nossos conhecidos "cavadores". Cinegrafistas e cineastas de aluguel, profissionais pagos para registrar e incensar fatos e feitos dos poderosos de plantão. Raras vezes viravam suas câmaras para flagrar algum acontecimento inusitado como greves, levantes populares ou revoluções. E quando o faziam era para logo ficar do lado do campeão - afinal seu virtual novo empregador.

À época do seu auge nas primeiras décadas (depois foram ou se organizaram nos indefectíveis cine-jornais da reportagem oficial e/ou comercial - estatais e privados) - o cinema de cavação se propunha a ganhar dinheiro seduzindo o espectador para a "novidade" da chamada Sétima Arte. Enquanto isso seu conteúdo turvava-lhe a percepção sobre a miséria cotidiana para idealizar e promover governantes e mecenas.

Hoje, porém, - ironicamente - esse acervo ainda que contaminado é de grande valia. Com o passar dos anos suas imagens foram perdendo a pertinência ideológica, mas não histórica. O tempo as desmobilizou criticamente. Elas se desideologizaram. Ou seja, do utilitário e mercantilista cinema de cavação resta um inestimável retrato de um Brasil que parecia nunca ter existido. Uma cinemateca irrepetível. Quase inocente aos nossos olhos. No entanto, a descoberta do seu avesso enseja o desmonte da solenidade moral com que a história oficial sempre procura perpetrar suas versões do passado.

Essa reverência ao oficialismo acabou por se constituir na mais insidiosa herança a inocular o documentário brasileiro moderno. (E a bem dizer, com melhor desenvoltura e disfarce - a mesma ilação serve para os filmes de ficção). Trata-se de um cinema já alhures batizado de "chapa branca". Seu foco vicioso e paradigmático é indisfarçável. É como se fora uma arte estatizante, estatizada. Um cinema escravo voluntário de interesses políticos, de ideais autoritários e "verdades consagradas" pelo Estado, por partidos, pela Igreja, pela Universidade, por "personalidades" acima do bem e do mal. Enfim, um cinema tipicamente clientelista - na feliz expressão do historiador e cineasta francês Marc Ferro.

Preside esse cinema, a par do seu mafioso corporativismo, de um lado uma esperta auto-censura (já que a do Estado não vige mais) que lhe dá livre trânsito junto a patrocínios e financiamentos. (Em tempo: não é a origem do dinheiro para sua produção que determina o viés pelego dos filmes: ele é inerente ao autor, uma corrupção moral). De outro, um cego investimento no discurso hegemônico do vencedor e no Weltanschauung em cartaz. E por que não, muitas vezes no do vencido - pois a história do vencido também é manipulada pelo seus. Também é fundadora de "alguma" verdade, de alguma "estratégica" concepção de mundo. Nesses cinemas não há lugar para a dúvida, que dirá para a democracia e seus conflitos de opinião e de pensamento.

Tudo o que signifique a impermeabilidade da ordem estatuída, eleita ou não e "todos" seus passados, a estetização dela vem colada a uma permanente restauração do mito, do herói, da institucionalização de uma verdade dogmática, portanto, infensa a contestações, à controvérsia, não importa de que jaez moral e político - eis os mandamentos do cinema "chapa branca".

Com as exceções que confirmam a regra, o cinema histórico documental e de ficção (qual a diferença?) brasileiro não vai além de uma ilustração a cores dos famigerados livros didáticos. E quando o tema é censurado ou omitido por ignorância naqueles, o cinema faz por incorporar-lhe o estilo e a dependência ideológica do oficialismo assinada pelo Estado.

Mas ele não se esgota aí. Na sua esteira vigora a partir dos anos '80 e em especial na área do documentário seu primogênito mais cultuado: o cinema hagiográfico. São filmes que, ao biografar líderes e protagonistas da história (políticos, militares, religiosos, intelectuais, artistas, etc.) comportam-se 1iteralmente genuflexos diante dos seus personagens. Como se todos fossem santos (e sabemos muito bem que até os próprios nem sempre honram a fama).

Assim o que se tem assistido nas telas e telinhas é uma acrítica e perversa galeria de "neo-heróis" da nacionalidade que servem precipuamente como álibi para uma sorrateira recuperação ideológica. Através dessa heroicização individualizada tenta-se "reescrever" a história do Brasil: eles não passam de pretexto, de cortina anímica para - dependendo da pessoa - idealizar ou demonizar os acontecimentos do passado.

Para tanto não há uma visão holística do eleito. Há sempre, isso sim, um recado edificante embutido. Ninguém é de carne e osso. E nada melhor do que um cadáver fresco (melhor se ainda estiver quente). Haja cenas adjetivas, haja entrevistas laudatórias, haja narração entoando hosanas. Homens e mulheres viram entes sem mácula, ignoram-se suas mazelas, erros políticos, traições, autoritarismos, mordomias, violências afetivas e intrafamília e todo um corolário de amoralidades. Ignora-se sua humanidade. Otimizam-se as suas virtudes às raias da beatificação.

Diverso do cinema de cavação, que ainda ostentava uma certa ingenuidade que o futuro redimiria, o cinema hagiográfico, tão freqüente (e impune) ultimamente, é a melhor e mais amadurecida formatação de um recauchutado cinema totalitário do tipo ''culto à personalidade" comum aos regimes de inspiração soviética e/ou nazi-fascista).

São filmes que buscam o conservadorismo do espectador. Não o estranhamento. Buscam seu olhar conforme. Não a revelação e o risco. Buscam a unanimidade, a catequese. Não o dissenso, a polêmica, a livre circulação dos contrários à luz. Os filmes pensam pelo público. Procuram levá-lo pela mão como a uma criança, paternalizando-o, imobilizando-o.

Estamos diante de uma impostura moral e estética travestida em pesquisa, documentação, testemunhos e reflexão históricas - para provocar a empatia pelo constrangimento e a idiotia da platéia. As contradições são "apagadas" como por um ato de mágica e no seu lugar volta a medrar a vetusta dialética da utopia social coletiva sem liberdade de expressão, cujo fiasco todos sabemos no que tem dado.

Pelo jeito como a nossa história recente, a do século passado e a remota vem sendo filmada, rastreada e recontada através desse cinema chamuscado, que não perde por alardear resgate iconográfico e memorial para legitimar-se, já podemos nos considerar nas malhas de uma "pós-ditadura" mediática - a caminho de um religioso fervor por uma verdade "revelada", exclusiva e excludente.

Um triste cinema de autor e autoria em que o criador, demitindo-se da poesia, da invenção e da sua liberdade de olhar, vira fautor do engodo, do autoritarismo e vítima involuntária da sua criatura.

Sylvio Back

(1997)