Novos diretores: uma geração em trânsito?
por Fernando Veríssimo

 

Entre as inúmeras tarefas que o cinema brasileiro se propôs na última década, a mais importante foi, sem dúvida, a (re)conquista gradativa do mercado interno. Amparada, como se sabe, em dispositivos legais sendo o principal deles a Lei do Audiovisual , a produção nacional encontrou alguns desafios novos em sua tentativa de reconciliação com o público local, tendo alcançado (em lenta e paciente marcha) sucesso razoável nesta empreitada apesar da falta de perspectiva do início da década, a fase mais negra de sua história recente.

Um dos desafios enfrentados foi, e continua sendo, uma outra configuração do mercado cinematográfico, a que correlaciona-se uma nova configuração do público, ou, com o perdão da redução, do consumidor de cinema. Não disposto a permitir generalizações arbitrárias, o conceito de público não corresponde mais à idéia de massa ou a qualquer noção totalizante, mas a uma variedade de gostos e tendências que caracteriza o desenho fragmentário e diferenciado deste mercado.

Do que decorre naturalmente o fim de uma certa noção de espetáculo popular, muito em voga nas décadas de 70 e 80, em tempos do auge da Embrafilme e que projetava-se como "carro-chefe" na estratégia de conquista do público. Este status de porta-voz da coletividade, como bem aponta Ismail Xavier em entrevista recente1, resta incorporado ao universo televisivo, à Rede Globo. Aos cineastas resta, por sua vez, a conquista de fatias do bolo, maiores ou menores, com mais ou menos glacê, o que levou à configuração de discursos tais como o da diversidade.

Nada mais natural: à diversidade do público deve corresponder uma diversidade de visões, projetos, idéias, estéticas, filmes. Toda uma nova geração de realizadores abraçou o discurso da diversidade juntamente a alguns cineastas de outras gerações; ou assim pareceu a todos, posto que a produção desta década foi parcamente discutida, e a tão proclamada diversidade ganhou ares de valor inquestionável, um mito fundador.

O lançamento, na esteira do sucesso de Central do Brasil, de produções cinematográficas da Rede Globo, tais como Xuxa I e II, Renato Aragão I, II e III, ou mesmo O Auto da Compadecida, deixaram bem claro que, em termos de disputa de mercado e conquista do público, a produção independente vinha sedimentando sua parcela de público e aproximando-se dele, sim, mas também que o melhor da festa estava reservado à expansão do universo televisivo e à retomada daquele conceito de espetáculo popular. Sucessos da marca de 1, 2 ou mais milhões de espectadores, deixaram o discurso da diversidade em xeque, apresentando variações mínimas em torno da mesma versão mercadológica do nacional-popular Global.

O reflexo daquele discurso pode ser encontrado na produção da nova safra de realizadores, uma safra cujo perfil não se traça sem maiores dificuldades e que efetivamente demonstra uma variedade nos estilos e nas opções temáticas que poderia ser interpretada, num primeiro olhar, como a marca principal desta geração. No entanto, sem distorcer o reflexo, a um segundo olhar dirigido aos filmes não escapam as limitações evidentes de um conjunto de produção fundamentado em um preceito intocável. As implicações deste discurso fajuto, do qual grande parte da crítica pode reivindicar sua parcela de responsabilidade, estão claramente exemplificadas nas obras dos jovens cineastas: filmes que não dialogam conscientemente entre si; projetos sem horizonte de abertura para discussão, encerrados em si mesmos; soluções semelhantes para problemas diversos, não raro de naturezas opostas. É uma generalização perigosa e, admito, um tanto radical; as exceções existem, evidentemente, em obras que procuram ultrapassar os limites de suas próprias propostas autorais para inserir-se em debates mais amplos (caso, por exemplo, de Os Matadores de Beto Brant, e Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral), com mais ou menos sucesso. Entretanto, o que impera em grau elevado é mesmo um cinema cuja tendência maior é a do autismo, traço constitutivo que, em tempos de balanço, ganha jeito de cicatriz. Não é à toa que a grande maioria dos estreantes, artistas ou autistas, parecem ter suas obras condenadas a uma espécie de síndrome do filme único.

Aos remanescentes desta geração resta percorrer um longo caminho de reflexão e pautar com alguma urgência discussões a respeito de suas tarefas. É preciso tecer estratégias e considerar seu papel decisivo na renovação urgente e necessária de um cinema que se caracteriza, cada vez mais, pelo perfil destes mesmos jovens realizadores. Deve-se recuperar, enfim, a consciência de classe tão confundida com o corporativismo reinante, mal endêmico que deu a tônica desta última década de cinema brasileiro.

Voltar-se, então, para os filmes e para o futuro, dando algum sentido de movimento a uma geração estacionada em sua própria falta de perspectiva.

Fernando Veríssimo é redator da revista eletrônica Contracampo

 


1. XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro dos anos 90. Praga, São Paulo, v. 9, jun. 2000.