Editorial![]() Lee Kang-sheng e Yang Kuei-mei em O Buraco de Tsai Ming-liang |
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Começo de conversa Acho
que há muitos caminhos soltos Bastante raras são as oportunidades hoje em dia de se falar em Maurice Capovilla – não por culpa dele, evidente, mas antes porque, como todos sabemos, o cinema brasileiro é pródigo em desperdiçar (a dificuldade de produção) e esquecer (a falta de crítica) seus talentos. Pois se desde o último longa-metragem de ficção que Capô conseguiu realizar já se passaram quase duas décadas, também a crítica, exceção feita a alguns raros textos, quase sempre se ocupou muito pouco de seus filmes. Sem dúvida, já há pelo menos 15 anos o cinema brasileiro passa por uma crise de desimportância, da qual um dos reflexos mais fortes é a voluntária falta de memória da sociedade com o seu passado. É o caso de se repensar o quão cruel é um sistema que, sob pretextos duvidosos, impede seus melhores homens de fazer aquilo que melhor – e mais produtivo – sabem realizar: no caso, dirigir filmes que têm algo a dizer sobre aquela mesma sociedade que os ignora, assim como ignora e se esquece de muitos mais. É o caso, também, de se refletir sobre os efeitos futuros disso tudo, sobre os efeitos do fato de os contatos entre os mais jovens (entre os quais Contracampo se inscreve) com os veteranos serem mais e mais escassos – resumindo o problema: a linha se rompeu. A lista desses realizadores, que criaram os filmes que converteram muita gente ao Brasil (essa é uma questão que nós podemos confirmar por experiência própria), e cujo elo com os mais novos se perdeu (idem), é maior do que se imagina. Maurice Capovilla, na verdade, é só uma ponta de lança desse sentimento de perda, de algo que falta; e é com ele que inauguramos uma série de dossiês críticos (aguardem os próximos números da revista) sobre diretores brasileiros que, apesar de fundamentais, foram terrivelmente jogados no limbo do esquecimento. * * * Contracampo continua também com a sua viagem ao Oriente falando do cinema de Wong Kar-wai, esse jovem cineasta que já causou muito bafafá pelos festivais e telas por onde passou: cineasta afetado ou um rigoroso esteta? Nós apostamos na segunda hipótese e observamos, um a um, todos os seus filmes. Acresce ainda ao blitzkrieg do cinema chinês a estréia do mais recente (apesar de ser de 1998) filme de Tsai Ming-liang, O Buraco. O cinema de Tsai será enfocado como um todo numa das próximas edições. Atenção: a edição especial Festival do Rio BR 2000 (que corresponderá à edição 22 outubro de 2000) será colocada no ar no dia 03 de outubro. Juliano Tosi e Ruy Gardnier |