Uma noite no estúdio das Ursulinas
(sobre Greed de Joseph von Stroheim)



Buñuel jovem, numa retirada

Essa noite o programa anuncia, para começar, dez minutos de cinema de antes da guerra. A luz se apaga.

Espiritismo? Sombras emboloradas brilham novamente para uma segunda existência. Turbilhões de velhas lembranças. O czar Nicolau II avança rodeado de papas com roupas de cerimônia. Como o sorriso que ele dirige para a objetiva é patético! Certamente alguém dentre os russos presentes em sala terá chorado vendo esse sorriso de além-túmulo. Agora, uma Renault primitiva, de onde desce o sr. Poincaré, nos faz melhor sentir a beleza de uma última Packard ou Isotta Fraschini. Em seguida, é o tango milonga. O bigode do professor é muito mais larga que o decote de sua parceira. Com o ar mais sério do mundo, os dois fazem movimentos ridículos, e o público ri sem parar até o fim do filme, porque passa-se imediatamente à seção "modas".

Curso de história natural dos chapéus. Os modelos se mexem como galinhas. Para frente, para trás, para os lados, suspendendo um atrás do outro tecidos, tercais... Sejamos sérios. Nós pensamos que a nossa época é um modelo de bom gosto... e de simplicidade. Se quisermos, por força de complicação. Essas atualidades de antes da guerra são o epílogo da idade contemporânea. E esse destino final, ainda que ele seja apenas imaginário, nos angustia. O grotesco atinge seu cúmulo com a projeção de um cinedrama primário. Teatro filmado. A objetiva imóvel se restringe a reproduzir. Sua única virtude é que ele é mudo: felizmente nós não ouvimos as palavras que acompanham a ação. Certamente para substituir essas palavras os atores gesticulam no centro de um cenário abjeto. Três ou quatro cortes de faca do barbudo protagonista terminam o filme com nossos risos.

Rápida evolução do cinema. E alarmante. Deixemos de lado as possibilidades infinitas do cinema em cores, em três dimensões: digamos que estamos, senão no limite, ao menos não muito longe da realização de sua evolução técnica. E assim, o filme que agora nos parece excelente, nos fará rir da mesma forma do que esse alguns anos? É uma das mais sérias objeções que se pode fazer ao cinema. Se a obra de arte resiste à passagem dos séculos, conservando sua beleza sempre completa e florescente, por que o filme, vítima do tempo, alcança um envelhecimento tão deletério? Objetivamente, o cinema primitivo não tinha encontrado a sua própria linguagem, seus meios de expressão particulares. Nenhum dos quatro pilares maiores sobre os quais se apoia o grande templo da fotogenia estava ainda construído: nem o close-up, nem o ângulo das tomadas, nem a iluminação, nem o mais forte, o mais definitivo, a montagem ou composição. O filme, como uma peça de teatro, se desenvolve no espaço e no tempo. Nele, um e outro são fixados, e para sempre, enquanto que no teatro a moda ou o gosto adequado introduzem as variações correspondentes. Daí a adaptação teatral. Assim talvez, o gosto de cada época, impotente face ao caráter definitivo do filme, será o fator de depreciação mais forte de seu valor estético. Disseram que estilizando as vestes, os cenários, etc., poderia-se atenuar um destino tão trágico. Mas a atuação cênica, esse procedimento por si mesmo, eles não envelhecerão? Será preciso retornar sobre esse tema importante.

(...)

O último dos filmes ditos "de repertório" é Greed (Ouro e Maldição), de Eric von Stroheim. Por si próprio, esse filme mereceria um artigo muito mais extenso do que esse. Nós nos limitaremos aqui a tocar em alguns pontos, algumas de suas mais evidentes qualidades.

Esse filme está entre os mais insólitos, ousados, geniais que o cinema criou.

Ninguém pode ficar indiferente: ou faremos dele um arquétipo ou ao contrário pensaremos que seu autor quis zombar das normas e dos imperativos do cinema e também de sua época. Mas não é por simples gosto de gozação que Stroheim saía para trabalhar durante anos. Mais de 100.000 metros filmados, que deram, depois da montagem, 40.000 metros para projetar. Foi necessário um montador especializado para reduzir o tamanho a algo em torno de 30.000 metros, como está agora. Dizem que Stroheim chorou e bateu o pé como criança. Por vários meses "ele sofreu por essa amputação como se fosse a de um de seus membros". Com o naturalismo mais extremo, são-nos apresentados tipos abjetos, cenas repugnantes em que paixões nojentas e primitivas encontram a formalização mais perfeita. Um tal domínio para mostrar visualmente o que há de mais baixo, vil, feio e corrompido no homem, nos inspira ao mesmo tempo repugnância e admiração. Desprezo absoluto ou indiferença por todos os truques cinematográficos, mas o maior lirismo na iluminação. Não "vedetes" mas "persnonagens" como que esculpidos em granito. Com essa nova obra, Stroheim assume um caráter típico, ele se coloca imediatamente à altura do "típico" Zola. Nós não gostamos do naturalismo nem em literatura, nem no cinema. E apesar disso o filme de Stroheim continua magnífico, magnífico de forma repugnante.

Paris, dezembro de 1926
Tradução de Ruy Gardnier