Editorial



Luís Buñuel como ator em cena célebre de Um Cão Andaluz

No dia 22 de fevereiro de 1900 nascia Luis Buñuel. Trinta anos depois, ele já teria chocado o mundo duas vezes: Um Cão Andaluz (1928) e logo após A Idade do Ouro (1930), filmes anti-religião, anti-família, anti-sociedade, anti-homem foram responsáveis por uma profunda reestruturação da função do cinema. Até os 50 anos de sua vida, essas haviam sido as suas únicas obras pessoais, até que uma grande temporada no México pôde fazer com que Buñuel recuperasse seu fôlego criativo e lançasse desde Los Olvidados (1950), ininterruptamente, vinte e seis filmes que, mais do que confirmar o diretor surrealista dos primeiros filmes, colocaram o surreal (do original francês, aquilo que está acima da realidade) a serviço da realidade e do cotidiano. Mais do que filmar os espontâneos processos da (in)consciência, tratava-se de mostrar como o próprio mundo, mais do que qualquer pessoa, é absolutamente caótico e multifacetado.

A Cinemateca do MAM, no começo de setembro, realizará uma pequena retrospectiva com filmes pouco conhecidos do grande público, realizados no México entre 50 e 58, mas que estão entretanto entre os mais importantes filmes realizados por Dom Luis. (Uma mostra com sua produção francesa mais célebre deve ocorrer pouco depois). Motivo então para Contracampo prestar homenagem a um cineasta notável, que permanece agredindo, maravilhando e estendendo sua influência pelo cinema contemporâneo mesmo depois de 17 anos de sua morte: Arturo Ripstein, Almodóvar, João César Monteiro e François Ozon, cineastas que contam, não seriam o que são se não tivessem visto os filmes de Buñuel. Publicamos, além de uma sincera homenagem, uma coletânea de textos de/sobre Buñuel até aqui inédita no Brasil, que se revela bastante esclarecedora da obra cinematográfica a vir.

Mas não é só de lembranças que vive a nossa atualidade. Como sempre, é função de uma revista de cinema discutir a sua contemporaneidade e seguir os filmes até lá onde eles se apresentam com mais vitalidade. E desde 1996, com a vinda de alguns exemplares de seu cinema em nossas paragens, foi ficando cada vez mais claro: os cinemas da China (aí incluindo Hong Kong e Taiwan) são provavelmente o palco onde se desempenha, numa multiplicidade surpreendente e realizadores criativos surgindo um após outro, o cinema que está por vir. Desde o cinema comercial de ação (Matrix é uma cópia de filme de kung-fu) até os filmes mais radicais (Flores de Xangai e Adeus ao Sul de Hou Hsiao-hsien ou A Brighter Summer Day de Edward Yang, filmes lentos e inebriantes), as Chinas são para o cinema de hoje o que o Irã foi na primeira década: o lugar em que será disputado o futuro do melhor cinema. A propósito de M:I 2, John Woo foi o primeiro escolhido. Outros nomes virão. Boa leitura.

Ruy Gardnier