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Sobre
O Martírio de Joana d'Arc
de Carl Theodor Dreyer


Buñuel
dirige Jeanne Moreau
Certamente, o filme
mais novo e o mais interessante da nova temporada cinematográfica.
Apoiado em um roteiro original de Delteil, ele começa no momento
em que Joana comparece diante de seus juízes e termina na fogueira.
Realizado em close-ups;
seu autor usa muito raramente, quase nunca, o plano aberto, nem mesmo
o primeiro plano. Cada plano é composto com tamanho desvelo e tamanho
arte, que muitas vezes chega a ser "quadro" sem deixar de ser "plano".
Excepcionais ângulos de tomadas, no limite da acrobacia.
E nenhum de seus intérpretes
é maquiado: na dolorosa geografia de seus rostos – os poros como
poços – ressalta-se mais a vida de carne e osso. Em momentos, toda
a tela com a brancura de uma só célula, e, num ângulo,
a face vingativa de um monge, de isca. Pode-se prever as tempestades com
uma exatidão meteorológica. Nervos, olhos, lábios
que explodem como túmulos, tonsuras, indícios jogados na
garganta inocente da donzela. Ela responde, chora ou, chorando, se distrai
como uma menininha, com seus dedos, com, um botão, com o sinal
que fica sobre a narina do monge.
Os intérpretes
se deixaram tonsurar antes e deixaram crescer a barba para que as postiças
fossem definitivamente relegadas ao teatro, e o gênio de Dreyer
reside na maneira com a qual ele dirigiu seus intérpretes. Nesse
sentido, o cinema nada nos deu de semelhante. A humanidade dos gestos
transborda a tela e enche a sala. Nós todos sentimos essa verdade
na garganta e até a moela dos ossos. Antídoto contra a mordida
das serpentes e o histrionismo! A atuação de Jannings comparada
à do mais modesto dos irmãos de Joana d’Arc torna-se tão
mole quanto manteiga e também teatral, mas menos que o trabalho
de Ludmilla Pitoëf.
Nessa humanidade da
virgem aparece mais na obra de Dreyer do que em qualquer outra das interpretações
que nós conhecemos. Nós todos temos vontade de lhe administrar
alguns golpes de chicote e dar-lhe logo após um bombom. Privá-la
de sobremesa por sua integridade infantil, por sua transparente obstinação,
sim, mas por que queimá-la? Constelada de lágrimas, laminada
de chamas, tosquiada, suja como uma moleca, ela deixa todavia de chorar
para ver algumas pombas pousarem na cúpula da igreja. Então
ela morre.
Nós guardamos
uma de suas pequenas lágrimas, que caiu até nós num
pedaço de celulóide. Lágrima sem odor, insípida,
gota da fonte mais pura.
La gaceta literaria
hispanoamericana, 1930
Tradução
de Ruy Gardnier
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