Arte e comércio,
filmes e mercado exibidor:

Combustão ou comunhão?


No Centro Cultural Banco do Brasil (Rio) organizou-se a mostra "Cinema: Tela para Todos", na qual foram exibidos filmes lançados no mercado, e retirados de cartaz em pouquíssimo tempo. Ao fim da mostra, foi realizado um debate com distribuidores e exibidores para tentar entender quais são hoje os critérios e estratégias de lançamento, divulgação e manutenção de filmes em cartaz. Como é típico de um debate destes, respondeu-se algumas perguntas, outras não, e acima de tudo, criaram-se novas e instigantes dúvidas.

Mas, duas conclusões foram alcançadas que são especialmente alvissareiras para um esforço como o da Contracampo. Primeiro, que os filmes menores, ou de arte, precisam de uma crítica inteligente e com espaço para reflexão e discussão, para chegarem à atenção do público. Os grandes filmes-evento já são conhecidos pelos seus trailers, comerciais e pôsteres, mas os filmes menores muitas vezes não têm dinheiro para isso. No caso específico do Rio de Janeiro, a situação foi considerada dramática pelos debatedores, pois os jornais de maior circulação trocam as páginas dedicadas ao assunto da discussão cultural, por exemplo, em São Paulo, por meros parágrafos que ainda ousam se chamar de "crítica", quando, mesmo na mão de alguns bons profissionais, podem no máximo ser chamados de "press release de luxo". A outra conclusão é que as distribuidoras não estão preparadas para trabalhar com filmes que peçam mais atenção, raciocínio ou consideração, que não possam em suma ser resumidos em uma frase, um conceito, algo do tipo "dinossauros digitais" ou "Tom Cruise bronzeado". Isso ficou muito claro com a exibição dos 4 títulos da mostra, todos eles de diretores e atores consagrados, mas que escapavam à tipificação ou generalização correntes, e por isso, incompreendidos e mal aproveitados por uma mídia não reflexiva e divulgadores despreparados para o produto diferenciado. Falando dos filmes:

Medo e Delírio de Terry Gilliam. Em primeira instância, ao público é passada a idéia de um filme alucinado e doidão de Gilliam sobre uso de drogas. OK, é inegável que ele também é isso. Mas, é muito mais: é um filme sobre o baque de uma geração. Num flashback lá pelo meio do filme, Johnny Depp tem talvez um dos mais belos momentos de narração em off no cinema. Ele fala de uma geração que, nos anos 60, jurava que com paz e amor iam mudar o mundo. Que pensava que estava ganhando a guerra e que estava à frente de um processo, uma chance única de fazer uma coisa melhor deste mundo. E que, de repente, em meio a Nixon e ao Vietnã, vai descobrindo com horror que não ganhou. Que perdeu. O que era libertário e revolucionário nas drogas, vira desespero, o que era coletivismo e curtição vira introspecção e busca de anestesia. E o filme é, simplesmente, a história deste desesperado acordar. Um último grito pela porralouquice como escapatória do que está lá fora (no caso do filme, pela TV – a Guerra –, e pelo ambiente para o qual eles vão, não por acaso o paraíso do dinheiro e da satisfação pessoal-materialista, de Las Vegas). É um filme excessivo, incômodo, engraçado também. Mas não é isso o filme. E aí está a dificuldade de "vendê-lo" (na verdade é uma loucura que tenham deixado o Gilliam fazer e lançar este filme, seja porque aspecto for). Tudo que o filme tem de mais difícil, é absolutamente necessário para quem, como Gilliam, pensa estética e ética como irmãs gêmeas. Claro que há um certo excesso apaixonado de Gilliam pela viagem alucinógena, e muitas vezes o filme parece um "live action" das animações absolutamente descaralhadas que ele fazia no Monty Python, só que enquanto estas, geniais, duravam breves segundos, aqui ele precisa encher duas horas. Mas é, com todos os defeitos, um belo filme, com certeza. Que recebeu seu atestado de "bola preta" e "boneco dormindo" de nossos fantásticos críticos, e pronto. Quando um filme qualquer hollywoodiano mediano e medíocre recebe uma estrela ou bonequinho olhando por não ser "nada de novo" e uma tentativa ousada como a de Gilliam recebe a bola preta, sabemos bem em que mundo estamos.

O Último Entardecer de Wayne Wang. Vendido como uma história de amor, entre Jeremy Irons e Gong Li (aliás, a cada filme mais bonita), o filme na verdade é uma explosão de tesão pela realidade. Sim, pois a premissa do filme já vale a sua realização: Wang, um cineasta mediano nas suas incursões hollywoodianas, originário de Hong Kong que é, resolveu que não podia deixar passar em branco o que julgava ser um momento-chave do mundo no século 20: a passagem do território do domínio da Inglaterra para a China. Precisa documentar isso, e ao invés de fazê-lo pelo documental resolve ir pela ficção. Em qualquer entrevista dele sobre o filme, está lá dizendo que a história e os personagens vêm como conseqüência e que o principal era o momento histórico. Ainda assim os críticos vão em busca da excelência narrativa, como se os mesmos mastodônticos critérios valessem para todas as propostas. Não percebem que esta obsessão pelo mundo real, como incentivador de projetos, sempre fascina. Então quando o cara vai fazer um filme a partir daí é, no mínimo, importante e diferente. No filme, a câmera sempre na mão, que reflete a insegurança de um país prestes a "mudar de dono" sem saber as novas regras do jogo, a trilha sonora sempre lutando entre a tradição e a modernidade. Os personagens meio que se perdem nisso tudo. Foram chamados de óbvios. Ora, óbvios, muito poucos não são. O que importa no filme, porém não é a história. É a História. É o misto de excitação e desencanto com a mudança, é o retrato de uma sociedade sem rosto e difícil de entender é a primazia dada a paisagem urbana local, aos rostos, às ruas. No filme, o que realmente importa não é o drama do personagem de Irons, inglês que vai morrer em 6 meses - metáfora meio óbvia da situação, diriam uns- mas sim sua tentativa, após anos morando lá, de finalmente compreender e captar em vídeo o que é Hong Kong. Ao final, assume sua derrota no intento. Um país não se explica facilmente. Nem um filme que almeje fazer tanto.

A Lenda do Pianista do Mar de Giuseppe Tornatore. (que consta do arquivo de críticas de Contracampo) Também um filme rotulado de óbvio e sentimental, sobre um pianista e um navio. Nada mais equivocado. Sentimental o filme é, como é toda a tradição do cinema italiano, do caráter latino em si. Mas, o filme realmente é (como boa parte do trabalho de Tornatore) sobre memória e sobre o poder do "contar histórias". O pianista como personagem e sua trajetória não são o principal do filme, e aparentemente ninguém pegou isso. O principal é o personagem do narrador, que é quem puxa a narrativa. Que "cria" este personagem ao ir contando a história dele para várias pessoas. E o fascínio destas pessoas e a forma como elas mudam de posição deve-se ao poder do narrador, da história que ele conta, como ele conta. Que no caso é uma metáfora clara ao cinema e ao seu poder. E mais, o filme é uma exaltação do poder da memória, e das formas como ela altera a percepção da realidade. Assim o filme é uma fábula sim, pois é produto de uma imaginação (do narrador). E se dá em inúmeras camadas narrativas. Portanto, um filme muito maior do que o que se tentou dizer. E que tem pelo menos três cenas clássicas: a maior de todas que é o pianista tocando sob inspiração de uma mulher que surge como uma aparição por uma escotilha, e a qual ele vê sem ser visto (uma ode a inspiração artística), o duelo de pianistas, e ainda a cena onde com música o pianista tenta recriar pessoas (tocando "temas" de acordo com a expressão e o movimento).

Assim todos os 3 filmes são muito mais que suas propostas ou suas "vendas". Apenas o quarto, O Terceiro Milagre de Agnieszka Holland é o contrário: supostamente um filme sobre a fé e seus limites, é uma simples desculpa para fazer um filme de tribunal dos mais esquemáticos. Holland usa todos os clichês possíveis do gênero (inclusive uma reviravolta lamentável), e outros ainda como a dúvida do padre entre uma mulher e o celibato. Mas o pior deslize é a primeira seqüência do filme. Quando o filme devia questionar justamente a fé a partir de seu componente humano, ela vai lá e comete o erro de filmar (talvez impressionada com as possibilidades plásticas da cena) um milagre dando a ele o estatuto de verdade inquestionável. Com isso, o espectador perde de saída o direito a dúvida ou a escolher por si sua posição no filme (e por conseguinte no mundo) com relação ao fenômeno religioso. Não pode questionar a realidade de fenômenos como sendo projeções de subjetividades. O milagre existe. Então, ele só pode se colocar do lado de quem acredita neles. Ao não perceber a complexidade da discussão que levanta, a diretora a reduz a uma nobre desculpa para montar uma narrativa.

Mas, o que importa após a mostra é poder ter visto que o cinema é maior em significado e poder do que os artifícios e modelos que ele mesmo criou para se promover. E que se não pararmos para pensar neles de vez em quando, estaremos falando para ninguém.

Eduardo Valente