A Idade do Ouro (Roteiro)



Escorpiões vivem nos penahascos. Trepado num desses penhascos, um bandido avista um grupo de arcebispos que cantam, sentados numa paisagem mineral. O bandido corre para anunciar a seus amigos a presença próxima dos majiorquinos1. (são os arcebispos). Chegando em sua cabana, ele encontra seus amigos num estranho estado de fraqueza e de depressão. Todos pegam em armas e saem todos, com a exceção do mais jovem que nem mesmo pode se levantar. Eles passam a andar entre os penhascos; mas uns depois dos outros, não podendo mais, caem por terra. Então, o chefe dos bandidos abate-se, sem esperanças. Do lugar em que está, ele ouve o barulho do mar e percebe os majorquinos que agora estão no estado de esqueletos disseminados entre as pedras.

Uma enorme caravana marítima toca a costa nesse lugar abrupto e desolado. A caravana se compõe de padres, militares, freiras, ministros e diversas pessoas em trajes civis. Todos se dirigem para o lugar em que repousam os restos dos majorquinos. Imitando as autoridades que conduzem o cortejo, a multidão descobre as cabeças.

Trata-se de fundar a Roma imperial. Coloca-se a primeira pedra, quando gritos penetrantes desviam a atenção geral. Na lama, a dois passos, um homem e uma mulher lutam amorosamente. Eles são separados. Ferem o homem e policiais vêm prendê-lo.

Esse homem e essa mulher serão os protagonistas do filme.O homem, graças a um documento que revela sua alta personalidade e a importante missão humanitária e patriótica que o governo lhe confiou, é logo recolocado em liberdade. A partir desse momento, toda a sua atividade destina-se para o Amor. No momento de uma cena de amor não realizado, presidida pela violência dos atos faltantes, o protagonista é chamado ao telefone pelo alto personagem que o encarregou da responsabilidade da missão humanitária em questão. Esse ministro o acusa. Porque ele abandonou sua tarefa, milhões de velhos e de crianças inocentes pereceram. Essa acusação, o protagonista do filme a acolhe com injúrias e, sem mais nada ouvir, retorna para o lado da mulher amada no momento em que um acaso completamente inexplicável acontece, mais definitivamente, e separa-a dele. Em seguida, vê-se ser jogado pela janela um pinheiro em chamas, um enorme instrumento agrícola, um arcebispo, uma girafa e plumas. Todo isso no instante preciso em que os sobreviventes do castelo de Selligny ultrapassam a ponte levadiça coberta de neve. O conde de Blangis é evidentemente Jesus Cristo. Esse último episódio é acompanhado por um paso-doble2.

Luís Buñuel

Tradução de Ruy Gardnier


1 Maiorquinos: habitantes da Ilha de Majorca

2 Vê-se igualmente no filme, entre outros detalhes, um cego maltratado, um cão esmagado, um filho quase morto gratuitamente por seu pai, uma velha senhora esbofeteada, etc.