Editorial



Sessão em 1957 na
Cinemateca do MAM: presenças de
Leon Hirszman, Carlos Diegues, Walter Lima Jr., entre outros

Em 1966, David Neves realizou o primeiro livro que tentava dar conta do Cinema Novo como movimento estético, intitulado Cinema Novo no Brasil. Buscando as origens do movimento, escreveu essas linhas: "Como nasceu esse movimento? De forma espontânea, natural e nada complexa. Pode-se dizer que seu núcleo central originou-se de um grupo de jovens idealistas que se reunia nas sessões semanais da Cinemateca do Museu de Arte Moderna." E é essa mesma cinemateca que nesse julho comemora seus 45 anos de atividades, tendo como bagagem a criação do mais importante movimento estético brasileiro, só fazendo par com a Semana de Arte Moderna.

Do mesmo jeito que o Cinema Novo passou por crises vindas dos anos 80, nos 90 a Cinemateca também passou por inúmeras crises de identidade e de função social. Os tempos são outros, e é de alguma forma preciso se adequar, tal como árvore que se dobra ao vento, aos novos tempos sem entretanto deixar ruir seus sustentáculos, aquilo que a mantém: sua política cinematográfica, sua aposta de que o cinema é objeto de paixão e de ação. Aos 45 anos, e depois de momentos drásticos – em que a Cinemateca virou adendo eventual dos eventos do Museu – a Cinemateca tenta readquirir a postura que a eternizou e que criou gerações de amantes do cinema, realizadores e críticos. Mas o caminho não é fácil.

...Como também não é fácil manter uma revista de cinema que está prestes a completar vinte números e dois anos. Pouco antes da entrada ao ar do número 19, Bernardo Oliveira despede-se da editoria de Contracampo por tempo indeterminado. É com pesar que naramos o fato e, tal qual numa família, procuraremos nos estabelecer aos poucos, como acontece quando se perde um ente querido. E desejamos um bom futuro na carreira editorial que ele possa escolher. Mas a edição não vem desfalcada. No número 19, além dos textos e entrevistas em homenagem ao aniversário da Cinemateca, ainda temos Ruy Guerra falando da realização de Estorvo, bateria de textos sobre a obra de Sérgio Bianchi e ainda uma nova sessão que deverá aparecer em cada edição, sobre os filmes da história do cinema (recente ou não) que, por um motivo ou outro, foram subestimados ou pouco vistos. "Filmes a descobrir, filmes a recuperar" tenta então de dar a eles uma outra possibilidade de leitura, ou até mesmo de fazê-los visíveis pela primeira vez.
Boa leitura.

Ruy Gardnier