Plano
Geral (abril de 2000)
FILMES NA TV
Douglas Sirk em 9 filmes

Rock Hudson e Jane Wyman em Tudo
Que o Céu Permite
"Tanto Godard, como Fuller ou eu, ou outro qualquer, não podemos
chegar aos pés de Sirk. Para ele, o cinema era, como dizia, sangue,
lágrimas, violência, raiva, amor e morte. E Sirk fez filmes
assim: com sangue, com lágrimas, com violência, ódio
e amor. Sirk dizia que não se podia fazer filmes sobre alguma coisa,
só se podia fazer filmes com alguma coisa. Com gente, com luz, com
flores, com espelhos, com sangue, enfim, com qualquer coisa que interessasse.
Ele também disse que a filosofia de um diretor está na luz
e no enquadramento. E Douglas Sirk fez os filmes mais cuidadosos que já
vi, filmes de alguém que ama os semelhantes e não os deprecia,
como nós." É assim que Rainer Wener Fassbinder apresenta
os seis filmes que pôde ver de seu mestre maior, Douglas Sirk. Mais
tarde, ele teria a possibilidade de ver mais filmes dele e inclusive de
conhecê-lo pessoalmente e de tornar-se seu amigo.
Douglas Sirk terá no mês de abril nove de seus filmes exibidos
pelo canal Tele Cine 5, a partir do dia 11. Os filmes abrangem o período
de 1952 até seu último filme, Imitação da
Vida, de 1959. Essa época é considerada como o seu momento
mais interessante, de mestria completa do melodrama à maneira de
Joe Stahl, de quem refez três filmes. Sua predileção
pelo gênero e a aparente concessão temática ao esquema
hollywoodiano eclipsaram o talento de sua mise-en-scène e suas preocupações
ético-formais. Foi só mais tarde, com o reconhecimento no
exterior (os Cahiers du Cinéma na França e Fassbinder na Alemanha)
que uma segunda oportunidade pôde ser dada à obra de Sirk.
No Brasil, um único amante, mas um considerável: Amílton
de Almeida, jornalista e cineasta, que realizou um filme à Sirk,
O Amor Está no Ar, e escreveu artigos sobre seu cinema.
Falar em Douglas Sirk, hoje, já é diferente. Ele é
a principal influência de um dos maiores cineastas contemporâneos:
Pedro Almodóvar e provavelmente a influência tenha sido
através da obra de Fassbinder. Sirk, no ano 2000, já é
um grande clássico do cinema de gênero, à maneira de
George Cukor, Raoul Walsh ou Jacques Tourneur. Resta, então, conhecermos
essa obra singluar e de tão pouca divulgação no Brasil:
sempre às 22:00, no Tele Cine 5
Dia 11 Sinfonia Prateada (1952)
Dia 12 Chamas Que Não se Apagam (1956)
Dia 13 Herança Sagrada (1954)
Dia 14 Mulher de Fogo (1953)
Dia 15 Tudo o Que o Céu Permite (1955)
Dia 16 Palavras ao Vento (1956)
Dia 17 Almas Maculadas (1957)
Dia 18 Amas e Morrer (1958)
Dia 19 Imitação da Vida (1959)
Primeiro Fellini no Eurochannel
O Eurochannel (TVA) apresenta no mês de abril dois dos mais obscuros
filmes de Federico Fellini, e também seus dois primeiros: Mulheres
e Luzes/Luci del Varietà (1950), co-dirigido por Alberto
Lattuada, e Abismo de um Sonho/Lo Sceicco Bianco, realizado
dois anos depois. Completam a pequena mostra A Trapaça/Il Bidone
e Ensaio de Orquestra, esses útlimos disponíveis em vídeo
e, portanto, mais acessíveis.
sempre às 22:00
Dia 05: Mulheres e Luzes (1950)
Dia 12: Abismo de um Sonho (1952)
Dia 19: A Trapaça (1955)
Dia 26: Ensaio de Orquestra (1979)
HISTOIRE(S) DU CINÉMA
A saga de Jean-Luc Godard em busca do cinema "encantado" permanece
no mês de abril. Definida a tarefa principal nas duas primeiras partes
das História(s) elas próprias divididas em duas
partes , as partes seguintes tratarão de dois estudos de caso
e, por último, do amor. A Moeda do Absoluto trata da guerra
em geral, da ação política e termina num estudo pontual:
o que o cinema fez na Segunda Guerra. Sabemos das dúvidas de Godard
sobre o cinema a partir do momento em que ele não filmou os campos
em atividade: o máximo que houve foi filmagens depois de tudo acabado,
como em Noite e Neblina de Alain Resnais. O que interessa a Godard
não é, entretanto, o cinema refletindo sobre a Guerra, mas
a ação que o cinema teve sobre ela. E nisso, em A Moeda
do Absoluto, só se salva o cinema italiano, o cinema de Rossellini,
o único a resistir. O Controle do Universo é
outro estudo de caso, dessa vez o estudo da forma, através do grande
mestre dela: Alfred Hitchcock. Os Signos Entre Nós termina
as História(s) na temática do amor. Esse fim de festa
faz a resenha da carreira autobiográfica de Godard naquilo que ela
se confunde com o cinema. Trata-se, certamente, do mesmo percurso, e é
em nome do cinema que fala Godard. Trata-se de uma prestação
de contas com o cinema, e do cinema consigo mesmo. Não é à
toa que ele dedica esse último episódio a Anne-Marie Miéville,
sua ex-colega de vida e cinema, e a si mesmo. Porque é a história
irrealizável do cinema em sua estratégia de conquistar o mundo.
Ele só conquistou quando de sua própria derrocada. O mundo
só vira imagem quando a imagem já não serve mais pra
nada. E esses são os tempos de hoje, um tempo em que a imagem vale
majoritariamente pelo seu valor de troca e quase nada pelo seu valor de
uso. E nisso constata-se a tentativa de Godard, claramente nostálgica
e não sem lembrar a tentativa de Heidegger de remitificar a linguagem,
de fazer voltar a imagem ao seu estatuto de "justamente uma imagem",
quando o que o mundo midiático hoje esconde a imagem através
de uma "imagem justa".
Ruy Gardnier
Dia 3: 3A A Moeda do Absoulto
Dia 10: 3B Uma Nova Onda
Dia 17: 4A O Controle do Universo
Dia 24: 4B Os Signos Entre Nós
sempre às 20:30, no canal Eurochannel (TVA)
Meus Heróis, Meu Tesouro
No número de março de Contracampo, um artigo menciona o meu
nome. Trata-se de um artigo de Bernardo Oliveira a respeito de um texto
escrito por mim sobre os fantasmas do cinema brasileiro na década
de 90. De acordo com o meu artigo, Walter Salles e Central do Brasil constituiriam
um fantasma que afetou tanto a "direita" do cinema (passando a
tratá-lo como ícone ou exemplo do que o cinema brasileiro
deve ser) como a "esquerda", que, sempre sociologizante, seguindo
os passos um tanto lerdos da crítica marxista no século XX
(tenho em mente Gramsci, Lukács e a Escola de Frankfurt), preferiu
ver em Central do Brasil não um filme, mas apenas um sinal:
um sinal de que só faz cinema quem é filhinho de papai, que
existe má distribuição de renda no Brasil e, conseqüentemente,
na distribuição de grana para fazer cinema no Brasil.
Essa esquerda tem um problema fundamental: só consegue ver nas obras
que lhes são desagradáveis apenas índices daquilo que
lhes parece mau na sociedade; é cega para análises maiores
e para significações mais importantes dentro da obra fílmica.
Seria inútil elencar aqui as inúmeras bobagens cometidas pelo
marxismo strictu sensu no século XX, mas citemos apenas a ignorância
de dois autores fundamentais, absolutamente incompreendidos por essa crítica
e, no entanto, os maiores contestadores de toda a sociedade vigente: Beckett
e Artaud. O problema com a crítica dita marxista é apenas
um: ela não consegue ver nas obras "ruins" senão
um efeito de superestrutura que remeteria aos preconceitos de uma estrutura
maior.
Voltando às vacas frias e magras, ao me referir no texto "Ghost
Story" sobre a cegueira da crítica a respeito de Central do
Brasil, não quis me referir explícita ou implicitamente
a nenhum artigo ou articulista de Contracampo. Feita a ratificação,
o artigo de Bernardo Oliveira me parece justo em alguns pontos, além
de ser um belo compêndio sobre os diversos aspectos aos quais pode
ser exposto o valor artístico e político de Central do
Brasil. Mas ele me parece equivocado tanto em sua motivação
quanto em algumas acusações que realiza, e me parece criar
muito barulho por nada.
Quanto à unica menção minha no referido artigo que
me interessa no momento: sobre a minha "formação crítica"
ou minhas influências na escrita, só posso dizer que me encaixo
no "francesinho Cahierista" a medida em que posso dizer de outros
que são "ufanistas sociologizantes". Em ambos os casos,
perde-se o essencial, e assim a conversa gira mais em torno de preconceitos
do que de argumentos.
Sobre minha "formação", então. A primeira
vez que percebi que o exercício da crítica poderia ultrapassar
o mero juízo de gosto para se transformar num estudo, foi lendo um
pequeno livro de Haroldo de Campos chamado "Metalinguagem". Todo
o rigor de análise e o afã crítico me fizeram brilhar
os olhos. Uma segunda grande influência foi a descoberta dos textos
críticos de Glauber Rocha, iconoclasta e ardoroso defensor do cinema
que amava. Tive e tenho a certeza que até hoje ele é o maior
crítico de cinema do Brasil. O de intuições mais admiráveis
e o mais apaixonado. Um pouco mais tarde, fiz outras duas "descobertas":
"Diferença e Repetição", de Gilles Deleuze,
livro que até hoje ressoa na minha cabeça não só
por tudo que entendi dele, mas também pelo que me resta a entender;
e a crítica de atualidades, sim, dos Cahiers du Cinéma. Não
preciso aqui elencar o sem número de homens notáveis, inclusive
filósofos, que se utlizaram das páginas dos jornais e preiódicos
esse exercício do jornalismo que hoje tem aparentemente tanto
valor cultural quanto as loterias e os bingos para refletir coisas
das mais importantes em suas sociedades. Menciono poucos e suficientes:
Denis Diderot, Jean-Luc Godard e Nélson Rodrigues. A crítica
de cinema dos Cahiers du Cinéma me parecem, hoje, a única
forma existente de conjugar defesa ardorosa e erudição com
crítica cultural. Não acho que nisso haja vergonha ou uma
falta de visão conjuntural do situação nacional. Meu
"eixo de operações" nunca deixou de ser a prática
da ação cultural no Brasil e no Rio de Janeiro. E se considero
Central do Brasil um tanto como fantasma e prefiro me ater à
análise fílmica, isso não diz respeito à minha
cegueira cultural ou a um desvio metodológico importado da França:
diz respeito, isso sim, a um tipo de análise que imagina tirar muito
mais das obras inclusive suas significações políticas,
sociais e econômicas a partir de um estudo da obra e de seu
lugar cultural, e não dos preconceitos sociológicos todos
dados a priori da herança da crítica cultural marxista.
Ruy Gardnier
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