Muito equívoco em Walter Franco

Há um senso comum rolando por aí, que confunde alhos com bugalhos. Ele pensa que o objeto, que se apresenta de uma forma determinada, deve ser reconhecido por esta forma em todos os níveis. Assim, sugere que a melhor maneira de captar idéias sobre, por exemplo, um país ou uma comunidade, ou mesmo de constituir a personalidade de um determinado assassino é seguir o que ele tem de mais visível, característico ou estereotipado. Desse modo, um hipotético documentário sobre o Brasil não poderia excluir o samba de sua trilha sonora; um hipotético documentário sobre a favela não poderia excluir depoimentos de moradores alarmados; um hipotético documentário sobre a mancha de óleo na Baía de Guanabara não poderia excluir as soporíferas mensagens ecológicas, etc. Neste Muito Tudo, de Bel Bechara e Sandro Serpa, essa situação atinge um nível insustentável. Ao término da projeção observamos um vazio, tamanha pataca de pressupostos e de indicações sem referência.

Antes de mais nada, uma curiosidade: a câmera treme. Por quê? Não sei. Se o último filme do Hal Hartley (um que jesus abre um lap top...) já fazia qualquer um rodopiar na sala de exibição, este fará muita gente voar. Útil seria uma explicação, não necessariamente verbal, para tanto tremelique. Quando filmados, os personagens não articulam suas falas senão por meio de depoimentos pré-gravados. "Ouvemos" Augusto de Campos analisando a música Cabeça. "Ouvemos" Julio Medaglia contando caso. "Ouvemos" Arnaldo Antunes. Seus rostos, porém, falam através de olhares insinuantes, e outros artifícios. É um exemplo simplório de como utilizar a relação som/imagem: simplesmente anexando às imagens distorcidas e flutuantes o depoimento colhido. O filme ganha ares "vanguardistas", a imagem justa de Walter Franco. Através desse procedimento nem se introduz ao incauto desconhecedor a canção de WF, nem se satisfaz o fã ardoroso. Um não entende e o outro não acha graça.

O que não motiva em Muito Tudo é exatamente esta petulância de brinquedo que conclama o arsenal "vanguardista" de São Paulo para fazer coro partidário pela imagem de Walter Franco. A Bia Abramo (quem leu a Bizz na década de 80, sabe de quem falo...) chega a dizer que WF é o compositor "mais original depois do tropicalismo". Exagero. Não que não seja, mas é muito redutor falar assim. E isto limita a compreensão do objeto. É, no fundo, aquele velho esquema Globo de televisão: cada coisa no seu lugar. Para os vanguardistas, a "vanguarda".

O cúmulo da pretensão fica por conta de uma reconstituição do jogo de dados perpetrado por Walter e o Maestro Julio Medaglia. Ambos vaiados em um festival, passam a simular um jogo de dados em pleno palco (le hasard...). É constrangedor.

Muito Tudo peca pelo conformismo. É o senso comum da "vanguarda". É a manipulação de signos repetitivos, alinhados às características atribuídas desatentamente a Walter Franco, de um artista maldito, difícil, etc. Não traz nenhuma contribuição para um entendimento da obra do compositor, nem o introduz a quem não conhece. Cada plano tem seu valor relativizado pela incongruência entre ser objeto e falar do objeto. De modo que olhamos para este equívoco como um agente de formalização da personalidade de WF, artista radical, múltiplo e descompromissado. O que não chega a constituir um desserviço, mas mantém inalterados os cânones referenciais do que se convencionou chamar "vanguarda paulista".

Bernardo Oliveira