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A maior dificuldade para o bom entendimento de Missão: Marte reside na dúvida cruel que nos assola desde o primeiro minuto de projeção. Trata-se de um autêntico Brian De Palma e por isso nossa atenção deve perguntar mil vezes se algumas cenas participam das desonestas e soníferas reproduções roliudianas ou se ele está brincando com estes padrões. Optamos pela primeira hipótese por se tratar de um verdadeiro pântano de clichês, que nada deixa a dever a Independence Day e tantos outros. Por quê? Não sou cinéfilo. Não freqüento as salas com a constância de outros amigos e não vejo nada de mal nisso. Muito pelo contrário: odeio a obrigatoriedade da informação. Nem vi Titanic, pois nada ali me interessava. Naquele dia fatídico, fui em busca desse cinema estéril, que bem acomoda o espectador na cadeira e bem acomoda o dinheiro no bolso das produtoras/distribuidoras americanas. É um cinema sem novidades: sabemos tudo o que vai acontecer. Até o imprevisível é previsível. Quando ele se dá, muitos por aí chegam a acreditar que roliudi ainda fabrica cinemão comercial mas se equivocam. Roliudi hoje fabrica cineminha. O cinemão americano que o Cahiers tratou de reabilitar ao quadro "artístico" sempre conjugou uma dose maciça de novidade com investimento pesado. Hoje, gasta muito em alta tecnologia para dizer muito menos. E a cada dia nos "obriga" a pagar os famigerados oito reais por uma nova "produção". E quem se espanta com a palavra "obrigo" e se pergunta onde está essa obrigatoriedade, aí vai: é muito pouco provável que a resposta dada pelos jornais e revistas de grande circulação justifique a bilheteria esmagadora dos filmes americanos. Que resposta? A de que o cinema brasileiro perde na bilheteria porque não tem a qualidade. Ora, ora... se não se desvencilham da alienação e da vergonha, que se informem pelo menos. Liguem para o telefone da TV Cultura e comprem o programa do Almodóvar no Roda Viva. Ele está muito bem informado a respeito desta suposta "superioridade". Em posse das preciosas informações de Pedrinho, não me obriguei mais a assistir estes filmes. Mais como uma dieta do que como guerrilha. Mas, falando de cinema, a lágrima do extraterrestre, por si só, já caba com o filme. Que diremos do voluntarismo "Bill Clinton" de Tim Robins? E o cineminha ecológico que o ET utiliza para contar sua estorinha? E o final místico? E a ciência como centro das atenções? Um espetáculo triste e moralista. Observamos, porém, um fenômeno aparentemente novo neste quadro. A inserção neste mercado estéril de diretores que outrora fizeram "cinematografia". Brian De Palma, Steven Soderbergh e Milos Formam soltaram suas bombas sem dó nem piedade. Soderbergh chegou a fazer um filme com a Julia Roberts, onde a moçoila "luta por seus direitos". Milos Formam resolveu fazer o Lenny do ano 2000 e tropeçou em Jim Carey. Aqui, Brian De Palma realizou o oposto simétrico de 2001. Mas a comparação não é justa: em nenhum momento sentimos ambição por parte do autor. Parece que ele foi contratado para dirigir tecnicamente a produção. Como um preparador físico, um personal trainer das telas. Não se trata, pois, do De Palma técnico arguto, conhecedor de Hitchcock em Dublê de Corpo, conhecedor de Corman e Romero em Carrie, etc. Sua presença se faz sentir como mero mediador de um debate inglório. Ao invés do profissional criativo e informado, o mero modelador de formas idênticas. A pergunta que fica no ar, ecoa em meus ouvidos, sonorizada pela voz de Rogério Sganzerla: para quê tanta tecnologia? Para dizer o quê? Para mostrar o quê? Para quê, para quê???... Bernardo Oliveira |
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