
Um Céu de Estrelas de Tata
Amaral
Tata Amaral e Bia Lessa são
a vergonha do cinema nacional. Que isso fique dito logo de saída
é importante. Ah, mas isso aqui não é a VEJA, não
entendam mal: a vergonha não são elas, é o cinema
nacional. Que cria duas autoras autênticas, com talento e visão
extraordinários, numa mesma década, e aproveita tão
mal estas pessoas. É uma vergonha. Que o cinema nacional não
consiga transformar em cineastas que trabalhem seguidamente duas vocações
desse porte, fala muito do quanto ainda teremos que evoluir se quisermos
mesmo ter isso que se chama um autêntico "cinema nacional".
Basicamente, cada uma delas fez um
longa na década de 90. Tata, que veio da direção
de curtas, dirigiu Um Céu de Estrelas, lançado
em 1996. Bia Lessa, que veio do trabalho no teatro, lançou seu
Crede-Mi (co-dirigido por Dany Roland) no mesmo ano, talvez por
coincidência, talvez para que seja cuspida na nossa cara a incompetência
de cuidar de valores como estes. São dois filmes que fazem uma
década por si mesmos. Mas, não eram os únicos projetos.
Em seguida Tata conseguiu filmar seu Através da Janela,
que levou mais de dois anos até ser lançado finalmente
este mês em Rotterdam, já no ano 2000. Bia Lessa tinha
seu projeto cujo nome diz tudo do atraso com que filmes se tornam realidade
no Brasil: Brasil 97. Como em pleno ano 2000 o filme não
foi concluído, claro que o nome já mudou para Brasil
simplesmente. As boas notícias são que podemos, pela segunda
vez em 5 anos, ter um filme de cada uma delas lançados no mesmo
ano. A má notícia é que não deveria levar
cinco anos para isso acontecer. Este texto pretende dissecar analiticamente
os trabalhos de estréia de ambas em longa metragem, concluindo
porque seria tão vital que houvesse um mínimo de regularidade
e incentivo a que revelações como estas não precisem
se tornar eternas promessas que não conseguem estabelecer uma
regularidade produtora.
Crede-Mi: Um Jeito Inédito
de se Filmar o Brasil
As portas de entrada de Bia Lessa no
cinema em nada se assemelham com as de Tata. Bia era uma já muito
bem conhecida diretora teatral em 1995 quando vai para o Ceará
com seu parceiro de trabalho Dany Roland ministrar oficinas de teatro
nas cidades do interior. O âmago do processo, explica Bia em entrevista
a revista Cinemais (nº3), era a idéia de que "estávamos
buscando o homem através dos livros, buscando o homem através
das obras, e não através do próprio homem". Ou
seja, cansada das extensas pesquisas e leituras para montar suas peças,
Bia decide sair um pouco daquele mundo teórico e parte em busca
de uma realidade que fale mais forte. Nesse seu interesse pela realidade,
descobre no cinema um aliado inestimável.
Uma vez no Ceará, é interessante
notar que o projeto ainda não tinha a forma de um filme. Eles
estavam realizando os workshops, e no meio tempo registrando
com uma câmera de vídeo Hi-8 as experiências. Sua
idéia era somente documentar os workshops. Quando voltam
ao Rio e começam a olhar o material, Bia e Dany descobrem ali
um filme. Que imaginam ser um documentário. No entanto, assim
que começam a editar as fitas, a decisão surge óbvia
na sua frente: aquilo era material para uma ficção. Era
só jogar fora as entrevistas e registros dos métodos de
trabalho do workshop e ficar com as interpretações
dos "atores" que haviam trabalhado com eles. Aí vem o último
acaso feliz que deu origem a esse filme tão fantástico:
o material que eles encenaram, O Eleito de Thomas Mann, parecia
se encaixar perfeitamente, por paradoxal que pareça, com a realidade
sertaneja que os cercava. Pronto, nascia Crede-Mi.
Crede-Mi, o filme, o resultado
final, é tão fascinante quanto a narração
deste processo. Que tenha surgido como filme de forma quase acidental
não diminui, pelo contrário, aumenta seu impacto. Porque
só a inocência de quem sequer sabia que estava "fazendo
um filme" pode explicar tamanha quantidade de inovações
num só trabalho. Crede-Mi é, sem dúvida,
uma experiência única no cinema mundial. Aponta caminhos
para o cinema brasileiro que nunca foram percebidos. E mais, aponta
caminhos para o cinema mundial dos quais este não se apercebeu
até hoje. Quando vivemos a falência de tantas formas pela
sua repetição, a existência de Crede-Mi é
a prova de que sempre haverá espaço para o novo. É
no mínimo bizarro que o filme não tenha o reconhecido
nacional (que dirá mundial) que se esconde por trás de
suas propostas.
O filme, basicamente, se imbui da missão
de contar uma estória de Thomas Mann, baseada em lendas e mitologias
anteriores à Idade Média. Só que faz isso não
só sem reproduzir local e época em que se passa a história,
mas o faz sem atores profissionais, com mais de um ator representando
cada personagem, utilizando a paisagem do Ceará atual e seus
ritos e eventos mais típicos. É claro que esta idéia
soaria tão absurda a quem partisse em tal empreitada, que só
o fato de sua transformação inesperada em filme pode explicar
a existência desta maravilha. Porque os diretores não tinham
idéia da importância do que estavam fazendo, nunca temeram
não ter a capacidade de alcançar os objetivos finais que
o filme atinge. Porque de uma premissa tão complexa, poderia
se esperar tudo. Era de uma em um milhão a possibilidade de sair
o filme que afinal saiu.
Do início, fica claro, que estamos
assistindo uma obra única. Imagens de água correndo se
fundem com o rosto de um velho sertanejo que começa a contar
uma história. A presença do narrador ligando os vários
momentos é fundamental. Só que não teremos um,
mas vários narradores ao longo do filme. E cada um impõe
sua inflexão, sua poesia, seu ritmo, seu rosto (a narração
nunca vem simplesmente em off), de forma que parece que ouvimos
a mesma história em torno de várias fogueiras. Essa idéia
do narrador onipresente e de vários rostos ressoa profundamente
no imaginário, onde a história parece preexistir as pessoas,
o que tem relação com o sertão e sua cultura oral,
assim como os mitos antigos que Mann conta.
A partir daí a história
vai se desenvolver em três registros diferentes: os narradores;
pessoas (não uso a palavra atores muito conscientemente) interpretando
os personagens em momentos encenados; e cenas documentais que registram
a vida nas cidades por onde eles passam, mas que são incorporadas
a trama. Esta mistura é absolutamente surpreendente durante todo
o filme. O fato de que os personagens mudam de atores a todo momento
se explica pelo fato de que o workshop passou por várias
cidades. E a verdade é que isso não tem a menor influência
em dificultar a compreensão da história.
O mais impressionante em Crede-Mi
é a quantidade de tabus do cinema que ele quebra, um a um. Em
verdade, é impossível não sair da sessão
do filme tentando entender se ainda há algum sentido em tudo
que aprendemos ser o cinema e suas fronteiras. Esta questão dos
atores é a primeira. O fato de serem não-profissionais,
ao contrário de criar problemas para a história, aumenta
sua ressonância. Porque ao invés de procurarmos a maestria
de um ator (digamos um Robert De Niro, uma Fernanda Montenegro) para
admirarmos sua capacidade de interpretar um papel, vemos a maravilha
de um ser humano não treinado, no momento de sua maior espontaneidade,
sendo ele ao tentar ser outra pessoa. Há algo de inexplicavelmente
sublime neste processo. Porque nunca sairemos tanto da realidade que
não vejamos o ator interpretar o personagem. Só que aqui,
não há o ator. O contato direto é entre pessoa
e personagem. O segundo tabu é o mesmo personagem sendo interpretado
por vários atores sem que isso afete em nada a compreensão.
Claro que podemos citar o exemplo clássico de Buñuel em
"Esse Obscuro Objeto do Desejo" para buscar antecedentes deste procedimento,
mas os objetivos eram completamente distintos. Em Crede-Mi Bia
Lessa não queria racionalmente quebrar regras e mostrar facetas
de uma mesma pessoa, como Buñuel. Ela apenas gravou todas as
encenações, e na edição percebeu que não
havia problema se buscasse os melhores momentos de diferentes pessoas.
Pelo contrário, isso dava uma nova perspectiva ao filme: desdobrava
a história de uma forma que, como ela afirma, "ao mesmo tempo
que você está contando a história de um, você
está contando a história de todos. E você pode radicalizar
isso, quer dizer, você pode realmente contar a história
de todos inventando a história de um". Um mito nada mais é
do que isso. E ao montá-lo desta forma Bia Lessa foi mais fiel
à sua essência do que jamais poderia pensar.
Tecnicamente também quebra inúmeras
barreiras. Para começar a lenda do cinema caro e belo, de equipe
numerosa. Crede-Mi foi feito literalmente por duas pessoas: Bia
e Dany. Um gravava com a Hi-8, o outro registrava o som. E só.
Só mesmo na inocência de quem "registrava um workshop"
eles poderiam fazer um filme assim. E, no entanto, as imagens do filme
são perfeitamente visíveis e muitas vezes belíssimas,
e o som audível. E se às vezes não entendemos uma
palavra, que importância isso tem?? O filme é o verdadeiro
Dogma. Só que, mesmo surgindo antes que os filmes dinamarqueses,
eles não estavam em busca de marketing, então não
fizeram nenhum documento de princípios, só um filme. Aparentemente
isso faz a diferença para ser reconhecido. Bem, lamente-se. Porque
Crede-Mi é muito mais radical e inovador do que Festa
de Família (longe) e até que Os Idiotas, ainda
que aí seja pau a pau.
Mas, certamente, a grande maravilha
do filme está na sua mistura de realidade e ficção.
A verdade é que com Crede-Mi você pode jogar fora
tudo que Kracauer, Bazin, Arnheim, e quem mais você quiser, já
tenham escrito sobre a relação da imagem em movimento
e a realidade. Aqui tudo deve começar de novo. Porque o que o
filme faz não tem paralelos nem explicação. Ele
pega imagens encenadas e incute verdade nelas não só pelos
não-atores e a carga de vida que eles trazem, mas pelo deslocamento
espacial e temporal que o sertão do Ceará traz para uma
história antiga europeía. E pega imagens documentais cujo
valor Ricardo Dias e seu Fé, por exemplo, não conseguem
transmitir, e as reinsere completamente em outro contexto, no meio de
uma trama ficcional. A mistura que sai daí não é
nunca menos que sublime e é difícil explicar como pode
haver tantas camadas de significação possíveis
em cada imagem. São séculos de tradição
européia e histórica na trama, são séculos
de História dolorida e sofrida na paisagem, são anos de
vida nos rostos, são segundos de beleza real que a câmera
capta. Tudo misturado e servido para o espectador num contexto completamente
arbitrário, e por isso mesmo humano e transcendente, que os diretores
coordenam e montam, resignificando a vida, que é tudo que podemos
pedir da arte.
Assim é que um batismo de verdade
vira o batismo de um personagem da história de Mann. Assim é
que uma procissão vira o cortejo fúnebre do rei ficcional.
Assim é que um parto verdadeiro vira ficção. Assim
é que uma aula numa destroçada escola pública cearense
vira a educação do príncipe e que um ritual do
reisado vira batalha de cavaleiros medievais. Assim é que as
encenações das cenas ganham inflexões inesperadas
pelo ambiente que as cerca e as pessoa que as interpretam. E cada cena
que se sucede vai ganhando mais e mais força,. Em todas as cenas
de multidão, de cunho documental não-encenado, os diretores
escolhem sempre o momento em que uma pessoa olha diretamente na câmera.
Porque quando aquela pessoa olha para dentro do espectador ela não
quebra uma barreira de distanciamento como nos ensinaram nos cursos
de cinema clássico narrativo: ela cria uma aproximação,
nos transporta para sua realidade ao assumir a câmera como parte
dela. Por isso, um homem pode ficar de quatro e latir interpretando
um cachorro, algo que o cinema não deveria permitir porque ficaria
"farsesco". E no entanto fica absolutamente belo.
Bia Lessa é inteligente o suficiente
para usar um recurso final que dá unidade a todos esses elementos:
a música. Praticamente onipresente, ela mistura modinhas e cantorias
típicas do sertão com melodias medievais em instrumentos
locais, criando sempre uma ambiência que liga os dois temas do
filme, segundo a diretora: o Ceará e Thomas Mann. Miticamente,
a história de Mann fala de incesto, de pecado, da relação
com o divino, da Morte e da Vida, do nascimento e da passagem de gerações
e tradições. Ora, como coloca Geraldo Sarno na mesma Cinemais,
"o sertão põe as questões últimas e primeiras.
Não tem intermediação. Não precisa mesmo
do padre para falar com Deus". E é neste tom que Bia encontra
o contato entre Mann e o Ceará.
Ao juntar coisas tão diversas
quanto o sertão e a Alemanha, o teatro e o cinema, a película
e o vídeo, a realidade e a ficção, Bia Lessa cria
um novo paradigma de arte, como há muito não se via. E
o mais importante, não o faz na teoria, mas na prática.
Cria algumas das mais significativas imagens do cinema brasileiro em
todos os tempos. Faz do imperfeito o sublime. Se poucas pessoas no mundo
sabem dessa revolução, azar o delas. Sorte de quem viu
o filme e pôde dividir estes momentos inestimáveis.
Depois do filme pronto, Bia declarou
que "isto é o que me interessa em cinema nesse momento, mais
do que conseguir planos maravilhosos – a câmera numa grua para
fazer um tal movimento. O que me interessa é a possibilidade
de lidar com a vida". Fiel a isso, partiu para um projeto tão
radical quanto, ainda incompleto, em edição, devendo estar
pronto este ano: registrar apenas momentos não encenados, sem
texto, e a partir da edição deles construir a narrativa
da vida de um personagem. Ou seja: um nascimento real de um bebê,
seguido do batismo de outro, do primeiro dia na escola de outra criança
e assim sucessivamente até a morte de um velho. Que isso tudo
junto funcione como a narrativa de uma vida, e portanto de um país
(pois se passa em vários pontos geográficos diferentes,
daí o nome Brasil). Um projeto brilhante, cujo resultado
em filme ainda não foi comprovado, mas que se unido a Crede-Mi
já evidenciam um dos maiores talentos e inovadoras a surgir no
cinema brasileiro. Que esta fonte não se esgotasse devia ser
obrigação, e que essas idéias circulassem mais
ainda.
Um Céu de Estrelas e a Tragédia
Hoje
A beleza do cinema esteve, está
e estará sempre no seu atributo de "arte total". Ou seja, ele
representa de tal forma uma junção possível de
todas as outras artes que seus caminhos são, literalmente, inesgotáveis.
Por isso é que, ao mesmo tempo que Bia Lessa ilumina novos horizontes
com seus caminhos radicais, uma outra cineasta trabalha sob conceitos
completamente diferentes de cinema, e o resultado é igualmente
devastador e criativo sobre tudo que pensávamos com relação
ao cinema até então. Essa outra cineasta é Tata
Amaral, e seu filme de estréia, Um Céu de Estrelas.
O filme é rodado em película, com uma equipe técnica
completa, atores profissionais interpretando personagens pré-escritos,
sobre uma base teórica e exaustivamente ensaiada, de proposta
dramatúrgica explicitamente ficcional. Ou seja, num primeiro
momento nenhum ponto de contato com a experiência que vimos anteriormente.
Pois é, e mesmo assim o resultado é completamente novo
e surpreendente. Caminhos são trilhados na arte do cinema, que
não esperávamos serem possíveis. E a resposta do
espectador é necessariamente o mesmo choque. Nas palavras de
Ruy Guerra, quem viu esse filme e não foi tocado por ele "ou
não viveu o suficiente, ou está vivendo uma vida que não
merece ser vivida. Ou está cego ao que se passa à sua
volta e dentro de si mesmo".
A relação que Ruy Guerra
faz entre a vida e o filme é um ponto de partida interessante
para falarmos de Um Céu de Estrelas em comparação
com Crede-Mi. Como já foi explicado, a relação
do filme de Tata Amaral com a realidade é bem diferente da de
Bia Lessa, afinal não se confundem limites entre documental e
ficção. Tudo aqui é ficcionalizado. Só que
o contato do filme com a vida vai se dar na instância do espectador.
O que esses dois filmes têm de estupendo é que propõe
a revolução do cinema pelo ser humano, cada um do seu
jeito. Em Um Céu de Estrelas o assunto de Tata Amaral
é o ser humano. Nem mais, nem menos.
Numa série de textos publicados
também na revista Cinemais nº3, os autores do livro que deu origem
ao filme e do roteiro deste (Fernando Bonassi e Jean Claude Bernardet
respectivamente) falam das intenções do projeto, assim
como a diretora. A palavra-chave que eles usam é tragédia.
Como Bernardet explica muito bem, tragédia não é
um drama muito grande nem um formato teatral fechado. Bonassi explica
que tragédia é "a constatação de que a vontade
humana, apesar de sua potência, nem sempre é capaz de mudar
o curso de certos acontecimentos". Levando este curso de ação
ao paroxismo é que os autores do filme (os 3 em conjunto, mas
especialmente a diretora) criam este novo exemplar, previamente inédito,
do cinema brasileiro: a tragédia moderna.
Mais uma vez, como frisamos sobre o
filme de Bia Lessa, isso tudo poderia ser muito bonito teoricamente.
Mas, por uma ação do destino, ou do acaso, que são
os deuses que regem a transformação de uma idéia
em um filme num set de filmagem, o resultado final reflete rigorosamente
cada vírgula da idéia acima exposta. Rigor aliás
pode ser a palavra-chave no estudo deste filme. O principal elemento
do filme, sem dúvida, é a forma como trabalha seus personagens.
Conta a história de Dalva, uma cabelereira moradora da Mooca,
que se vê encurralada em casa pelo ex-noivo, quando este vem devolver
pertences dela que estavam em sua casa. A diretora dá aos personagens
o caráter trágico sugerido acima. Em cada diálogo,
em cada ação física, está presente a força
do acaso que move os personagens de uma forma que eles não podem
controlar. Estes desafiam a cada momento as leis da lógica narrativa
linear. O tom psicologizante e explicativo que domina o cinema mundial
é esquecido aqui. Pode-se argumentar que esta é a grande
inovação do cinema de Tata Amaral.
Nas palavras de Fernando Bonassi, "nossos
personagens não tem destino, mas apenas a verdade biológica
de sua existência e quatro ou cinco idéias/desejos fixos.
Eles se movimentam num mundo desordenado, francamente contrário
a desejos tão veementes e, diante disso, vão tomando atitudes
ao sabor de estímulos do mundo que os cerca". Por isso, Dalva
e Vitor (o ex-noivo) não seguem um caminho lógico na narrativa.
Eles não têm objetivos, têm desejos. No filme isso
se mostra de formas sempre diferentes, mas constantes. Por exemplo,
como as ações nunca se fecham num círculo compreensível.
O corte de uma sequência para outra não se dá num
fechamento de idéia, mas no meio, de forma abrupta e inesperada.
Do mesmo jeito, a sequência que se segue muitas vezes entra em
completa oposição com os sentimentos da anterior.
Porque assim é o mundo dramatúrgico
destes personagens, porque assim é o nosso mundo. Daí
podermos dizer que a ligação de Um Céu de Estrelas
com o fenômeno humano e a vida é tão forte quanto
a realidade de Crede-Mi. Ele é um filme que supera a "simulação"
de realidade típica do cinema de ficção, onde o
verossímil deve substituir o verdadeiro. Mas o verdadeiro raramente
é verossímil. Para nos aproximarmos da realidade devemos
nos afastar ao máximo da verossimilhança calculada do
cinema narrativo. E esse é o caminho buscado. Por isso, Vitor
mata a mãe de Dalva e em seguida ela trepa com ele, numa das
mais corajosas transições dramáticas da História
do cinema. Porque são humanos movidos a desejos. Ela viu algo
nele naquele momento que aflorou o tesão, e tesão não
se explica. A cena de sexo, não por acaso, é uma das melhores
de todos os tempos, nem um pouco plástica e calculada, nem asséptica
e bela. É o sexo como é na maioria das casas: entrega,
suor, voracidade, desespero, solidão em busca de completude,
necessidade mais do que atração. Uma cena que resume o
filme.
E que, ainda assim, é apenas
mais uma. Pois todas as cenas são rigorosas na concepção.
Os diálogos iniciais, quando o filme se apresenta, são
secos, duros, sempre incompletos. Não comunicam quase nada. Vitor,
em verdade, não está lá, está em outra dimensão
de desespero. Dalva, por sua vez, já está na Miami para
onde vai viajar no dia seguinte: toda vez que fica sozinha seu olhar
vagueia para outro lugar, sua mente passeia. Ela se distrai no quintal,
ao olhar um quadro de areia móvel, ao ouvir uma música.
Não por acaso, eles não se encontram nos diálogos.
As respostas não parecem suceder as perguntas, as informações
não batem. Não conseguimos "construir" personagens, apenas
perceber os tais quatro ou cinco desejos fixos. Quando começam
uma cena, os personagens não sabem onde vão terminar.
A raiva de Dalva vira rapidamente atração física
pelo corpo de seu macho. O carinho de Vitor vira agressividade. E é
nessa tocada sem fôlego que vamos seguindo.
Não por acaso o sentimento o
tempo todo é que a saída não existe, só
existe a morte. Essa é a tragédia que citam os realizadores.
O inevitável. Os sentimentos estão à flor da pele.
Um boquete é feito sob a mira de uma arma. Ou um momento onde
ela põe a faca no pescoço dele que aponta a arma para
ele. A chegada da polícia é o elemento externo que permite
que a inevitabilidade venha à tona mais rapidamente. Mas é
apenas um elemento a mais que em si não muda em nada o desfecho.
A única verdade do filme é a incomunicabilidade dos personagens.
Dalva só quer ir para longe. Sua mãe não tem relação
com nenhum deles. Mas o personagem-chave, detonador da ação,
é mesmo Vitor. Não só ele tem a arma, mas ele tem
o motivo destruidor. Entendemos ao longo do filme que ele "não
gosta de gente" e que Dalva foi sua vida por dez anos. Ele não
tem mais vida. No fundo sua intenção é suicida.
Só que o acaso leva a outros caminhos. Num certo momento ele
aponta a arma para a própria cabeça, e sentimos a sinceridade
da opção. Só que ao fundo a reza da mãe
desesperada o irrita, o distrai, e para calar este som que o tira do
objetivo é que ele atira nela. Não há planejamento
ou "maldade" no sentido clássico. Só aconteceu.
O final do filme leva todo esse rigor
e o fecha com uma beleza inigualável. Cercados, sem saída,
Dalva e Vitor estão sentados no chão da cozinha. Um rápido
diálogo de uma força ímpar leva-os ao inevitável.
Ele pergunta, "Cê me desculpa?? Eu vivi por você esse tempo
todo". Ao que Dalva responde "Eu sei, mas não é justo".
Pronto, aí está tudo que era preciso ser dito. Por isso
não haverá mais palavras, pois Tata Amaral demonstra o
tempo todo ter noção profunda do que compõe o necessário
na sua história. Ela oferece a ele uma comida, claramente um
ritual de última refeição, numa longa e silenciosa
cena entre eles, onde simplesmente comem. Ao final, ele dá a
arma para ela. Cortamos para a cobertura externa da TV, ouvimos um tiro.
Num plano final antológico, a câmera da TV entra pela casa
toda até a cozinha onde está a cabeça dele caída,
e ela segura a arma. A câmera pára, há o silêncio.
Ela olha para ele, para o vazio, para os policiais (fora do quadro).
No seu olhar, o vazio de alguém que nunca controlou seu destino,
a figura da personagem trágica. A teoria transformada em arte
sublime. Ela olha para dentro da alma da câmera e do espectador.
Mais que isso este não pode suportar. Piedoso fade-out.
Tematicamente o filme revolve então
em torno da noção do trágico com este rigor e força.
Mas, esteticamente, ele não é menos coerente. A fotografia
de Hugo Kovensky busca sempre os personagens, as reações,
as trocas de humor e a proximidade. É uma câmera móvel
que cria grande espontaneidade, e ainda assim obedece a um trabalho
de iluminação estudadíssimo. A decupagem começa
com espaços mais amplos que descrevem a casa. Ficamos fechados
o tempo todo, a não ser por um breve plano exterior no início,
que consegue em segundos passar a atmosfera que cerca aquela casa. Ao
longo do filme, com os clímaxes dramáticos, a decupagem
vai fechando os planos até que praticamente sentimos as secreções
dos personagens. Sim, porque Um Céu de Estrelas é
um filme orgânico, humano, e para isso precisa de líquidos
vitais. Há sangue, há lágrimas, há suor,
há vômito, há pôrra. Em suma, há tudo
aquilo que nos faz humanos.
A parte sonora não é
menos rebuscada, com um trabalho de som direto sublime seguindo os personagens
e a câmera com toda a mobilidade destes. A edição
de som de Edu Santos Mendes é um trabalho à parte, pois
boa parte do filme se estrutura em torno dos offs (a música,
a polícia, a TV, a voz da mãe, os aviões e trens
que passam em cada momento de devaneio de Dalva querendo sair daquele
lugar). O trabalho de Edu no filme tem sua marca típica de misturar
significações múltiplas com utilidade narrativa.
Denso e complexo. Finalmente a trilha pontua os momentos exatos, sem
nunca ser intrusiva.
Em suma, embora mais adequado aos cânones
típicos do cinema narrativo do que o experimento estético
e temático que é Crede-Mi, Um Céu de
Estrelas é uma porrada na ordem vigente do cinema por tudo
que propõe como vital como motivação para filmar.
É um filme urgente, tesudo, humano, dolorido, propositor de um
cinema necessário. Sua tragédia moderna é a realidade
em busca de um cano de escape. Não só antes que exploda,
mas até porque vai explodir de qualquer jeito. Ainda bem que
seja assim.
Um país, um cinema, duas
autoras
Lá no título do artigo
citávamos duas autoras em busca de um país. Que país
é esse?? Ora, acreditamos que a essa altura não precisamos
falar mais nada. O que diferencia estas duas concepções
de cinema de tudo que temos visto aqui e alhures é sua profunda
necessidade de falar da vida. Seja na relação dual entre
realidade e ficção que Bia Lessa propõe, seja na
transposição trágica do modelo humano para as telas
pelas mãos de Tata Amaral. O Brasil de hoje está presente
em cada fotograma. Seja na escola detonada de Crede-Mi, seja
na TV intrusiva na realidade do mundo cão de Um Céu
de Estrelas, seja na paisagem seca e agreste de um, seja na solidão
urbana e desesperada do outro.
Nem todos os países se dão
ao luxo de terem dois filmes como estes em uma década. Muito
menos de duas diretoras estreantes que prometem muito mais a dar. Mas,
o cinema brasileiro é competente em desperdiçar talentos,
em não conseguir achar um caminho para que sua existência
seja menos cíclica e mais atemporal. Nos filmes aqui vistos estava
a semente de um presente, de um futuro, e acima de tudo de uma eternidade.
Bia Lessa luta para terminar seu Brasil
97 em 2000, que mal podemos esperar para ver. Tata Amaral lança
seu Através da Janela que tem sua proposta radical reiterada
numa dissecação trágica da relação
mãe-filho, onde acompanhamos o gradual processo de desconstrução
de uma pessoa vivida de forma antológica por Laura Cardoso num
filme estupendo e tão completamente diferente esteticamente quanto
coerente tematicamente com o primeiro. Ainda bem que em 2000 elas nos
presenteiam de novo. E daí para frente, para onde?? Responder
esta pergunta é decidir o futuro que podemos pensar para o cinema
brasileiro. Pois o passado já está aí, e no que
depender de Crede-Mi e Um Céu de Estrelas, ele
é tão somente brilhante.
Eduardo Valente