Quem Matou Pixote?
de José Joffily
Quem Matou Pixote? foi o filme brasileiro
que mais sofreu com toda essa sede do "meio" cinematográfico
brasileiro por roteiros perfeitos, bem "sacados" e por uma tentativa
homérica de contato corpo-a-corpo com o público. Resultado:
foi um dos mais flagrantes fracassos de público (principalmente)
e de crítica (que foi até condescendente). Quem Matou
Pixote?, como já bem apontou Christian Caselli, é
tudo o que o Pixote original, de Hector Babenco, não é:
nada realista, sempre forçado e tristemente roteirizado.
Não devia ser assim: Joffily fez,
nos anos 80, boas incursões pelo curta, com Alô Tetéia
e um belo pequeno filme sobre Copacabana. Nos anos 90, fez antes
desse o irregular A Maldição de Sanpaku, mas que
só pela atuação de Roberto Bomtempo, claramente
inspirada no Jean-Paul Belmondo de Acossado, já valia
uma visão. Apesar das regras do gênero, filmadas sem tesão,
o filme deixava entrever certos momentos bonitos: os primeiros, certamente,
de Bomtempo sozinho, mas também os de sua estadia na casa de
Felipe Camargo, ou na bela atuação de Patrícia
Pillar.
Quem Matou Pixote? só se
aproveita da pior parte de A Maldição de Sanpaku:
um tolo esquematismo de roteiro, e uma escolha infeliz que aproxima
o filme mais de uma tragédia grega do que de um drama realista.
Resultado: um ódio inesperado surge quando vemos a infâmia
que é o pobre Fernando Ramos da Silva à beira da morte
molhar as mãos em sangue e pintá-las não na calçada
da fama, mas na da miséria. Jacques Rivette, quando crítico,
escreveu sobre o laço intrínseco que une ética
e estética. Pois bem: a forma desse filme, procurando uma narratibilidade,
desrespeita a morte humana em favor do espetáculo, e poucas coisas
em cinema — como em literatura ou qualquer outra arte — são tão
detestáveis quanto essa prática.
A casinha da família Silva é
tristemente inverossímil, cheia de badulaques e cores aberrantes,
parecendo mais casinha de bonecas do que de gente pobre. A música
de David Tygel é intrusionista e manipuladora, desrespeitando
os momentos íntimos dos personagens. A atuação
de Cassiano Carneiro e Luciana Rigueira torna o casal simpático,
mas os atores não podem fazer tudo: o ambiente da festa em que
eles se beijam é malfeito, inverossímil, assim como a
personagem de Carol Machado, deslocada, parecendo ter saído do
imaginário classe-média de Confissões de Adolescente.
O filme de José Joffily foi o mais
triste resultado de uma maneira equivocada de fazer cinema popular no
Brasil, ancorada em modelos que são avessos ao gosto médio
do brasileiro, inclusive ao gosto do público de classe média
que hoje vai aos cinemas "de arte", circuito onde hoje o cinema brasileiro
é exibido mais significativamente. Não por tratar-se de
uma história real ou por ser uma história de sofrimento
e de denúncia social. Antes de tudo por ser um filme que privilegia
um "bom gosto" que está apenas na cabeça dos realizadores,
uma cega aceitação de modelos narrativos canônicos
que só fazem diminuir a intensidade da trama. Se não dá
para salvar muita coisa de Quem Matou Pixote?, que ao menos o
filme valha como um aviso. Um triste aviso.
Ruy Gardnier