O Vigilante
de Ozualdo Candeias.





O Vigilante de Ozualdo Candeias

O Vigilante foi um dos filmes brasileiros feitos nos anos 90 que não alcançou as telas. Sabe-se apenas de sessões informais e de cineclubes em São Paulo. Digam o que quiserem, que o estilo de Candeias é difícil, muito sujo ou nojento para o espectador médio — não há possível desculpa para deixar o filme de um dos maiores realizadores do cinema brasileiro fora das telas desde 92, época de realização de O Vigilante.

Ozualdo Candeias, tendo dado inclusive o nome ao cinema marginal com seu longa de estréia A Margem, e tendo feito ao longo de sua carreira filmes como Meu Nome É Tonho, As Bellas da Billings e Aopção (este último inclusive premiado em Locarno), teve imensas dificuldades para produzir na década, e sua única realização ficou longe do público. Não que seus filmes custem caro, pelo contrário. Candeias parece ser o único cineasta brasileiro a manter ao longo de toda sua carreira o baixo orçamento associado intrinsecamente como opção estética (Bressane deixou de fazê-lo ainda nos anos 80). O Vigilante é fiel a toda sua estética, ao seu universo de retirantes, camponeses, vagabundos e prostitutas, onde o homem é pouco mais que o animal, ou um pouco menos. Nada de sentimentos nobres ou redenção espiritual. Estamos num momento ainda mais radical do que os teatros de Nélson Rodrigues e Plínio Marcos, dois gênios da animalidade humana em seu sentido afirmativo (embora em sua "vida consciente", Rodrigues tenha parecido recusar essa mesma animalidade, ou caracterizá-la como defeito inerente ao homem). Estamos povoados por amáveis animais humanos.

O filme conta a chegada de um camponês à cidade. Os tempos são difíceis. Até o papagaio do realejo sabe: é difícil dar alguma mensagem de esperança na época dos Collors. Ele consegue o emprego de vigilante na metrópole, mas todo dia ele tem que voltar ao ambiente pré-urbano de um bairro de subúrbio que é dominado pelos traficantes locais, que barbarizam a vizinhança com estupros e "pedágios" do comércio local. Toda a localidade fica de fato estupefata com os mandos e desmandos dos marginais, mas nem os bonzinhos parecem fazer melhor. Pra conseguir algum dinheiro, alguns jovens pedem o revólver do vigilante emprestado para fazerem um pequeno roubo. Tudo dá errado e nem o revólver eles conseguem devolver. Sem revólver pessoal, o vigilante, perito em tiro, tem que suportar todos os abusos cometidos pela gangue. Até que a filha da estranha família que aluga o quarto para ele — a mãe branca caridosa e sonhadora; o filho, negro esguio e esticado; a filha virgem que vai casar de branco e espera apenas por um noivo — é estuprada e morta, talvez na cena mais cruel de toda a história do cinema brasileiro, tendo como trilha uma sanfona e um piano que cospem pateticamente Pour Élise e o tema de amor de Love Story. Isso é suficiente para o vigilante. Depois de um belo plano que tem por tema o vestido inédito da filha morta, vemos o personagem principal caminhando pelas ruas até que vê uma banca de jornal. Ele compra os quadrinhos de aventura e um cordel e, ao lê-lo, decide o que fazer: ele pegará dois revólveres, se vestirá como herói de história em quadrinhos — um dos maiores trunfos do filme — e matará um a um os vilões.

O fim do filme leva a trama — conceitual, narrativa — às últimas conseqüências (estéticas e éticas), coisa rara num cinema brasileiro que quase nunca dá nome aos bois e sempre faz questão de ser condescendente e conciliador (O Que É Isso, Companheiro?, por exemplo). O tema do filme, percebe-se no final, é como um estado de violência social pode derivar de uma infraestrutura de Terceiro Mundo. Outros dois filmes já fizeram disso seu tema nessa década, e vários tangenciaram (logicamente, porque é um dos maiores temas não só do cinema, mas de todas as áreas [ciências, artes] humanas hoje em dia). Como Nascem os Anjos se omitiu de dar conclusão, preferindo um final à tragédia grega, com um quase duplo suicídio. Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral, foi mais longe, e incorporou um microssistema de violência a todo um aparato policial e midiático que fazem espetáculo e número de uma tragédia humana. Mas o único filme a dar completa conta de seu tema é O Vigilante: depois de ter matado todos os traficantes e colocá-los vestidos de noiva no ponto central do bairro, o vigilante e sua companheira resolvem sair da cidade. No ônibus, um grupo de jovens pára o ônibus e aponta revólveres para os passageiros. Vemos uma criança assaltante brincando tranqüilamente com um revólver, apontando-o para os passageiros em plano fechado. O filme se fecha com diversos close-ups de revólveres sendo disparados, de mãos de crianças, sem que saibamos quem foi ferido, quem está morto e quem ficou ileso. Uma música infantil acompanha os créditos do filme, enquanto o público estarrecido se refaz.

Qualquer interpretação em palavras arrisca a síntese conseguida pelo filme, mas vamos lá: quando a violência é a única moeda de troca comum nas sociedades e comunidades, quando ela é tão normal quanto uma criança segurar brincando um revólver de verdade, a violência deixa de ser dirigida e passa a ser anômica, a violência regulando — sem um objeto determinado — as nossas relações sociais mínimas. Isso é extensível à vida mínima: trânsito, compras em supermercado, relações conjugais... Já saímos da esfera do cinema para a nossa vida. Poucos são os filmes em que essa linha tênue pode ser ultrapassada. E O Vigilante é um desses.

Ruy Gardnier