Ghost Story —
Uma História de Fantasmas
O cinema brasileiro viveu muito de fantasmas na década de 90





Jenipapo de Monique Gardenberg

Primeiro fantasma — o fantasma de Canterville ou o Gasparzinho. É o fantasma importado. É o fantasma que vem de fora. A sede que o Brasil teve pelo exterior nos anos 90 é impressionante: são os narradores estrangeiros, são as viagens para o exterior, é o filme feito para fora. É o directed by. Carlota Joaquina, Jenipapo, Mil e Uma, A Grande Arte: todos com seus sonhos fora do Brasil, desejo de cinema com ego estrangeiro, um cinema que não se contenta em atender o desejo de mercado do gringo: tem também que falar a língua dele. Algo contra as outras línguas? Nada, mas na medida em que os filmes não apresentam nenhum problema real, nenhum uso político da língua estrangeira nem um uso estético, resta apenas o doce e falso ar de um cosmopolitismo de vedete. Primeira saída pragmática da esfera do fantasma: Tudo É Brasil de Rogério Sganzerla. O filme é quase todo falado em inglês, mas para realçar a fala daqui e a vida daqui. É a "poesia de exportação" oswaldiana que aqui toma partido contra a mediocridade temática e o fantasma que vem de fora.

Segundo fantasma — búúúú. O segundo fantasma vem de Berlim. É um prêmio mais que um filme. Central do Brasil, depois da premiação na Alemanha, passou a ser o fantasma-mór do cinema brasileiro. Para uns é o modelo que o cinema brasileiro deve seguir; para outros é o modelo infame do grande capital. Central do Brasil povoou todos os sonhos e pesadelos da "classe" cinematográfica para bem e para mal. Poucos, os mais sóbrios, souberam realizar a operação psicanalítica e se livrar do fantasminha camarada que foi Walter Salles com seu Central. Muito se correu atrás de erros no filme, muito se falou de populismo, de violência amenizada, de covardia política; e inversamente, muito se falou de "saída" para o cinema brasileiro, de importarmos de vez uma forma de cinema que "é a certa". Assim, discutiu-se muito pouco o filme e sim o que representava sua ascensão ao título de "obra exemplar" do cinema brasileiro. Ora, filme nenhum consegue se sustentar como "obra exemplar", porque cinema (e arte, de um modo geral) necessita de variedade. Se nem Cidadão Kane pode ser obra exemplar, quem dirá Central do Brasil. Segunda saída pragmática da esfera do fantasma: Alma Corsária de Carlos Reichenbach, o filme mais livre da década, o filme mais pessoal e sem superego, pouco se importando com obras exemplares ou modelos prévios de organização. Um cinema impuro e belo como a vida.

Terceiro fantasma — O público do cinema brasileiro. Nesse caso nem se trata de um boitatá, mas de um saci. Os diretores tal qual Pedrinho com uma peneira tentando correr atrás do redemoinho para prender o saci, o público brasileiro. O saci é pretinho e mutilado — bem à semelhança da forma espiritual do brasileiro dos anos 90. Economicamente sodomizado duas vezes por dois Fernandinhos, o nosso saci fugiu sem que o cinema brasileiro pudesse segurar o capuz. Resultado: ficou inventando ventiladores para criar redemoinhos falsos. O Cangaceiro, Buena Sorte, Jenipapo, Tieta do Agreste, mas sobretudo Quem Matou Pixote? são os exemplos patentes de um cinema que buscava seu público e fez mais de uma concessões para isso. Resulta que não foram obras de sucesso nem junto ao público nem junto à crítica. Defeito básico: fazer média com o público, achar que o público é criancinha. Mas o público não é criancinha, é saci, e o saci adora pregar peças em quem deseja capturá-lo. Terceira saída pragmática da esfera do fantasma: Navalha na Carne de Neville d'Almeida, mais um filme da estética da bandalha de Neville, um filme que não se preocupa com a estética do bom-gosto da classe média e que por si só é digno de consideração e estima. Navalha na Carne são as férias do burguês e da finesse, a volta do cinema brasileiro ao terceiro excluído do cinema da década: o sexo.

Quarto fantasma — this ghost speaks english, but it's a ghost from outer space. O quarto fantasma é o ET, o fantasma que vem de Hollywood para assustar nossos roteiristas e realizadores oficiais. Bruno Barreto, Sérgio Rezende, Fäbio Barreto e Paulo Thiago já sonharam horrores com aquele dedinho e aquela bicicleta que voa. O naturalismo, a realidade romanceada, "esse filme é baseado em fatos históricos, mas para fins cinematográficos, algumas modificações foram feitas na história original". Um cinema inócuo, que não faz mal a ninguém, a não ser aos bons realizadores que ficaram sem fazer cinema porque as figuras de Mauá, Policarpo Quaresma, Lamarca e os episódios da guerra de Canudos e do seqüestro do embaixador — sempre deslocados de sua função política pela "necessidade dramática" — eram mais importantes para as empresas patrocinadoras do cinema brasileiro do que a própria experiência contemporânea, do que as obras de vigor e grande vontade. É o cinema do "deixa disso", sempre mal realizado e com uma ideologia pregnante e complicada, onde a História não reflete mais um estado de coisas e sim um fato, uma reminiscência que deve estar na memória passiva, mas jamais na ativa. É o diretor de cinema convertido em mau professor de história, aquele professor que apenas se contenta em colocar uns garranchos no quadro e que obriga os alunos a copiarem. Nenhuma reflexão, nenhuma mestria de realização. Se Orfeu entra nessa, ao menos a aula de Geografia é interessante, bem dada (mas sem reflexão e sem brilho além do glitter de carnaval). Quarta saída pragmática da esfera do fantasma: Um Céu de Estrelas de Tata Amaral, filme que se empenha em falar da contemporaneidade, sem saídas e vícios do pior cinema hollywoodiano, claudicante e moralista. Um cinema do coração contra o cinema autômato.

Quinto fantasma — a idéia de uma retomada do cinema brasileiro, corrigindo os erros do passado. Os dois erros preferidos: a "falta de roteiro no cinema novo" (sic), gritada aos quatro ventos por gente equivocada como Artur Xexéo, e a temática de baixo calão das comédias eróticas dos anos 70. Ou seja: um erro é o auteurismo, o outro é o mau gosto. O cineasta passa a ser funcionário de um público X, que pede um cinema "bom", ou seja, um cinema tecnicamente eficaz ("que dê pra ouvir o que os atores dizem") e que respeite o bom-gosto-da-classe-média, ou seja, não mostrar nada daquilo em que eles realmente pensam. Esse é o pior inimigo, pois ainda está vigente, e pode dominar por completo o cinema brasileiro. Tudo bem, é um fantasma burro, altamente ignorante, mas com alto poder popular. É o fantasma Jânio Quadros!!! Quem diria, ele que era populista e conservador, mas brega, é agora o fantasma das gentes inteligentes da Classe Média. Claro, a classe média sempre é a mais pelega, que sempre tem parte com as poucas posses que tem. Ela quer ir no cinema pra ver O Quatrilho, quer digestão fácil, um "programa legal", nada tão intenso quanto um filme de autor, nada tão despudorado quanto uma pornochanchada. Contra esse fantasma perigoso e que ameaça ser obrigado a renunciar pelas "forças ocultas", a quinta e a sexta saídas pragmáticas da esfera do fantasma: O Sertão das Memórias de José Araújo e Um Copo de Cólera de Aluízio Abranches: os dois por honrarem-se em fazer cinema de autor, um cinema que trate de questionar, colocar um ponto de interrogação na tela e na cabeça do espectador, e o filme de Abranches especificamente, embora menor, por fazer uma cena de sacanagem que, se é "de arte", tem ao menos um mau-gosto-burguês louvável nas cenas mais impudicas e excrescentes.

Rumo a um 2000 sem fantasmas. Uma odisséia eletrônica, uma odisséia no espaço ou uma viagem insólita????

Ruy Gardnier