Cine Mambembe O Cinema Descobre
o Brasil de Laís Bodanzky e Luís
Bolognesi
Eu vi Cine Mambembe - o cinema descobre o Brasil
há muito tempo, foi na primeira exibição dele aqui
no Rio, no Espaço Unibanco, onde teve recepção
calorosíssima, com a presença dos diretores, Luís
Bolognesi e Laís Bodanzky.
E desde então eu queria falar do filme, pelo que
ele representa e também pelo que ele mostra, e isso são
duas coisas diferentes. O que ele representa é muito bonito,
dois jovens resolvem mostrar o cinema nacional, no caso somente curtas,
nas praças e periferias. Começam a se entusiasmar pelo
projeto, e decidem levar os curtas para cidades do interior do nordeste,
tornando aquilo que seria uma simples viagem em dupla numa jornada de
aprendizado, tanto para eles quanto para os que encontram. Usam os próprios
recursos, pois, como já se sabe, amor pelo cinema, nessa terra,
não tem moleza. Quer dizer, até pode ter, quem sabe um
alojamento, quem sabe um pouco de comida.
Este é o projeto dos dois, é muito bonito,
é o que o filme representa, dois jovens entrando no interior
do país e levando o cinema brasileiro na bagagem.
Dessa forma, os curtas são mostrados no interior
do país. E Bolognesi e Bodanzky gravam digitalmente os depoimentos
dos espectadores dos filmes, pessoas que graças a eles puderam
ver aqueles filmes. Mas isso não é nada. O que se deve
dizer é que graças à dupla nós podemos ver
essa gente, essa é a grande descoberta. Quarenta e tantos anos
depois, voltamos à necessidade inicial do cinema novo, é
preciso ainda descobrir o Brasil.
Há muita gente querendo se ver, se mostrar e se
descobrir. A riqueza dos depoimentos seduz os realizadores e a nós,
e é isso que o filme mostra, seus discursos surpreendentes nos
envolvendo, negando por si só o propalado desinteresse geral
por um cinema brasileiro.
A recepção do cinema estrangeiro se baseia
às vezes em exotismos, quase sempre em mitificações
(o tira nova-iorquino, a velha senhora da pequena cidade do Sul...).
A partir daí, dessa criação dos mitos e de um ‘star
system’ (um Olimpo inatingível), pode surgir a identificação,
a empatia. O cinema nacional, em qualquer país, depende da identificação
direta, do reconhecimento da veracidade de seus personagens. E esse
é o trunfo de Cine Mambembe, seus depoentes são
realmente carismáticos e envolventes, do contrário sua
realidade nos chatearia, por mais rica que fosse.
Diz-se que o cinema brasileiro precisa examinar sua relação
com o público. Pois isso é o que faz Cine Mambembe,
e põe por terra uma série de mistificações.
É pena que não se tenha documentado as exibições
nas periferias das grandes cidades, mas as declarações
dos realizadores confirmam o óbvio, lá é muito
ruim a imagem que sem tem do cinema brasileiro. Mas no interior a conversa
é outra, até pelo triste motivo do cinema brasileiro não
chegar lá. Para um povo que não usa carro, não
sabe o que é trânsito, nem o que são perseguições
ou apartamentos, os códigos do cinema americano, sempre dublado
pelas mesmas vozes, já saturaram, e só mantém a
audiência por falta de alternativa. A única coisa que domina
e une ainda é a novela global, e com ela ainda não dá
para competir, isso nossos amigos logo aprendem.
Aprendem mais uma porção de coisas, em depoimentos
antológicos, quando essas pessoas se mostram aos documentaristas
através de discursos sinceros, que surpreendem a eles e a nós,
seja no interior baiano ou em um acampamento do MST, ou mesmo de um
dono de locadora que praticamente só tem filmes americanos, mas
diz que o que mais lhe deu dinheiro foi Mazzaropi e Os Trapalhões.
Isso fala do público do cinema brasileiro, um público
que quer se ver, e que não está sendo atendido. Não
é justo considerar que todo o povo brasileiro é como os
depoentes, e está ávido para ter acesso a filmes brasileiros.
Igualmente injusto, no entanto, será desconsiderar o que significam
esses depoimentos. Não gosto da idéia de aceitar que filmes
brasileiros devem considerar como público alvo apenas os habitantes
de metrópoles, e tentar criar uma indústria de filmes
artesanais, as 'jóias raras'. Isso é elitismo, e eu acho
que Cine mambembe evidencia isso. O filme mostra que a dita preferência
do público pelo cinema estrangeiro é bastante discutível,
precisando se levar em conta classe social, região do país,
acesso aos filmes e também os filmes específicos de cada
período para uma análise realmente séria.
Mostra, acima de tudo, gente que quer aprender. Nós
temos muito para aprender com eles.
Daniel Caetano