Três
Documentos Brasileiros

Os Carvoeiros, de Nigel Noble
Posição sempre problemática, a do documentário.
Parece definitivamente dividida entre duas inquietações principais.
Primeiro, a do interesse que o cineasta pode ter de mostrar uma realidade
que ele acredita ser, por si só, forte, impactante ou reveladora
- e em que "a verdade está na própria história
dos personagens", como declarou recentemente o diretor Nigel Noble,
realizador do filme Os Carvoeiros - e que, por isso, como continua dizendo
Noble, "não há necessidade de interferir nessa história"
- ou mesmo não se deve, como princípio, intervir na "pureza"
da história. Um segundo pólo de inquietações
parece ser o da continuação de um projeto "histórico"
de transformação do próprio conceito de documentário
e de criação de outras formas, métodos e técnicas
que utilizam, entre outras coisas, exatamente a interferência na imagem
como elemento constituinte da realização do filme. Se o documentário
não deve abandonar a realidade, também não deveria,
neste caso, ver privilégios entre os diversos objetos possíveis,
obedecendo a máxima segundo a qual qualquer assunto vale à
pena ser abordado, e o que importa é a maneira como ele o é.
A hesitação entre estes dois pólos, como se denomina
aqui, é a hesitação entre uma maneira clássica
de documentar, e entre a opção pela experimentação
de novas formas. Enquanto o documentário "clássico"
pretende se apagar como forma, em nome de um conteúdo construído,
e tem como um dos seus princípios básicos uma estrita subordinação,
uma cooperação entre imagem e texto (o texto que explica a
imagem e a imagem que autentifica o texto), o "programa" de renovação
do documentário investe numa postura de destruição
da separação forma/conteúdo, de interferência
direta dos realizadores e de participação/dissolução
do objeto, que acabou por transformar a própria definição
de documentário.
Difícil opção, essa, entre o documentário, concebido
como uma forma quase fixa capaz de representar uma realidade tida como preexistente,
independente e especial, e o "anti-documentário", que não
toma seu objeto como preexistente, independente ou de especial interesse,
mas que dá forma a ele através de um método, de uma
"postura" documental que precisa sempre se readaptar e está,
por isso, em constante mutação. Mas essa separação
clara entre as diversas escolas não existe na realidade, e o mais
comum atualmente é uma contaminação múltipla
entre elas, como parece ser o caso de alguns filmes brasileiros recentes.
Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Masagão,
por exemplo, tem na sua inventividade formal e na sua aproximação
documental pouco usual - tão pouco comum em documentários
que é apenas por convenção que continuamos a chamá-lo
assim - caraterísticas suficientes para associá-lo a alguma
das linhas que trabalham com a perspectiva de renovação formal
do domínio do documentário. Ao mesmo tempo, ele não
abre mão de mostrar imagens de grande e inequívoco valor documental,
de impacto e raridade bastantes para garantir um certo interesse intrínseco
dessas imagens para o espectador. As imagens são o ponto de partida
do filme.
Nós que aqui estamos... pretende,
assim, fazer um inventário de imagens marcantes do século
XX, de imagens possam representar o século. Apostando no valor
documental e no interesse intrínseco que essas imagens inegavelmente
possuem, como mencionado anteriormente, o filme faz um percurso inusitado
através delas, se valendo de um princípio discursivo/interpretativo
interessante: procura subverter a imbricação clássica
existente entre as imagens e o texto (seja ele narrado ou legendado),
por meio de uma "fabulação" sobre as imagens e
uma insistência na discordância (ainda que não aparente)
entre a palavra e a imagem. O filme inventa livremente personagens e histórias
- fábulas - para as imagens, faz conexões entre elas, o
som, a música e as palavras na tela. Assim, uma mulher asiática,
em uma foto, ganha um nome, uma vida, que não são evidentemente
os seus. Um princípio elementar de verdade encontra-se, aí,
subvertido: a imagem não corresponde ao texto, à palavra,
que a explica, ou então, o texto não pertence verdadeiramente
àquela imagem, talvez pertença a uma outra imagem: está
deslocado em relação a ela. A justaposição
de uma imagem a um texto que não é seu, ou de um texto que
não pertence à imagem, cria um regime de produção
do falso, e não de verdade, de adequação, entre texto
e imagem, ainda que alguma verossimilhança, para criar um efeito
cômico, seja conservada.
No entanto, a fraqueza dessas mentiras está no fato de elas não
serem imanentes. Ao contrário, na sua transcendência elas
pretendem apontar ou resgatar uma verdade maior, superior, ou mais importante
que a mera adequação entre um suposto sujeito e a representação
que lhe é atribuída. Mentiras provisórias, ou momentaneamente
cômicas, pois serão substituídas, ao longo do filme,
pelo pesar de uma verdade transcendente, que engloba e submete todo o
resto, e tende a ser, portanto, final. O filme é cheio de efeitos
dramáticos e catárticos - usando mesmo muitos recursos publicitários
- que não permitem uma outra visão. A cada imagem que se
sucede o espectador é levado a confirmar as precedentes em favor
de um mesmo sentido.
Totalmente diferente é o resultado obtido por Tudo é Brasil,
de Rogério Sganzerla. Há, neste filme, o mesmo princípio
de desarticulação entre texto e imagem, mas aqui essa desarticulação
é levada até um ponto em que fica difícil o restabelecimento,
ou a recuperação, de qualquer forma final de "verdade".
Há uma total imanência da interpretação realizada
por Sganzerla. O filme usa o texto - em geral letras de músicas,
falas dos "personagens", etc - para preencher a imagem com outros
sentidos além daquele que poderia transparecer mais imediatamente,
e a imagem, por sua vez, para questionar o texto (e vice-versa também),
mas de uma maneira que fica impossível para o espectador recuperar
ou estabelecer quaisquer verdades que sejam. As "mentiras" aqui
não são provisórias, elas se multiplicam e se complicam
em seus desdobramentos infinitos até o fim do filme...
Desta maneira, as "mentiras" de Tudo é Brasil - que não
são absolutamente mentiras - não são da mesma ordem
das "verdadeiras" mentiras de Nós que aqui estamos...
Elas abolem uma divisão verdadeiro-falso muito característica,
em nome de alguma coisa que não é mais verdade nem mentira,
em nome de uma tentativa de superação, de afastamento desse
princípio de verdade e adequação que assombra, de
certa forma, o documentário e o entendimento que o senso comum
dele tem. Neste sentido, Tudo é Brasil leva mais longe uma pesquisa
de novas formas de tratamento documental, mesmo que seja, mais uma vez,
apontando para uma dissolução do próprio documentário.
Uma outra referência importante é Santo Forte. O filme de
Eduardo Coutinho não traz exatamente, como, no fundo, nenhum dos
exemplos anteriores, uma grande renovação do "método"
documental. Ele parece ser herdeiro de um certo cinema dos anos cinqüenta
e sessenta - historicamente importante pelas novidades que apresentou
na época - que tem como um de seus representantes principais o
diretor Jean Rouch. Santo Forte parece se filiar, em certa medida, a filmes
como Crônica de um Verão: a postura do entrevistador, que
intervém na entrevista, a postura da realização,
que toma o filme como acontecimento, e um pouco menos como representação,
e os personagens que são levados a refletir um pouco sobre as suas
próprias imagens.
Coutinho adota uma postura em relação ao seu objeto que
certamente não é a postura de um documentarista clássico,
mas ele também não chega a trabalhar em um nível
tão "interpretativo" como Sganzerla ou Masagão.
Ao contrário, ele aposta no interesse e na força dos depoimentos
de seus personagens, sem, no entanto, deixar de intervir, de mostrar a
participação da equipe de filmagem e de evidenciar as nuances
e diferenças do seu método. Sem dúvida há,
em Santo Forte, um privilégio do objeto, do discurso e da fala
dos personagens, mas esse objeto não é nunca mostrado como
totalmente independente da própria realização do
filme, e portanto a sua preexistência está apenas, no limite,
latente: só o filme pôde atualizar, dar lugar ao aparecimento
da realidade que mostra - e é neste sentido que o filme tende a
se tratar como acontecimento.
Nós que aqui estamos... e Tudo é Brasil trabalham com uma
subversão do princípio de complementaridade entre imagem
e texto, o que não é o caso de Santo Forte. No filme de
Coutinho, a imagem às vezes intervém ironicamente nas falas
- como nos inserts de planos mostrando o quarto, a sala ou o lugar onde
aconteceram os fatos narrados. A imagem pode até explicar e ilustrar
os depoimentos, pode até mesmo confirmá-los ou avalizá-los
- dada a dramaticidade que eles possuem - mas porque é preciso,
sobretudo, acreditar no discurso dos personagens. Não existe, no
entanto, uma indagação a cerca da veracidade daquela imagem.
Essa parece ser uma questão superada para o filme de Coutinho.
Luiz
Rezende Filho
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