Orgia
cinéfila

Moloch, de Aleksandr Sokourov
Aconteceu em São
Paulo entre os dias 15 de outubro e 4 de novembro a 23ª edição
da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Este ano a Mostra
ocupou 10 espaços de exibição, alguns pela primeira
vez, exibindo um total de 150 longas do mundo todo. Além dos filmes
recentes, a Mostra organizou duas retrospectivas: do japonês Seijun
Suzuki e do Melodrama Mexicano.
A Mostra continua um evento sem igual no calendário brasileiro. Sua
força maior está no seu público assíduo, formado
por cinéfilos desvairados, alguns dos quais chegam a ver 100 filmes
nas semanas do evento. Além de ver os filmes, estes cinéfilos
são encontrados a cada sessão, reunidos, conversando e trocando
informações. Esta característica (dificilmente encontrada
no Festival do Rio, por exemplo) dá um charme todo especial ao evento.
Além do público e da sensação constante de cinefilia
no ar, o que diferencia a Mostra do Festival do Rio é que, mesmo
sendo este agora um evento maior, a curadoria de Leon Cakoff em São
Paulo ainda tem um caráter mais corajoso e desafiador. Enquanto o
Festival do Rio tem inegavelmente aumentado o número de filmes não
lançados comercialmente, ainda é em São Paulo que se
vai encontrar o que de mais diferente e bizarro se faz no cinema mundial.
Parte da razão disto está no público mesmo, que prestigia
e segue estas tentativas, enquanto no Rio ele só parece comparecer
nos "tiros certos". Mas, é claro, que parte grande da explicação
está na constância desta opção por parte de Cakoff,
pois foi ele que veio formando este público fiel e ousado ao longo
dos 22 anos de Mostra.
Sua aposta no formato é tal que é oferecida a legendagem em
português, seja ela eletrônica ou na película quase na
totalidade dos títulos, enquanto no Rio as atrações
mais estranhas ficam sem legendas em português e em salas menores
(e pior, várias vezes vazias). Parafraseando um personagem do filme
Projeto Veneza (exibido na Mostra), que quando questionado sobre o futuro
da arte é jogado pela janela, indicando que o futuro da arte ou o
que a faz avançar são aqueles que assumem os riscos e tentam
o novo e ir contra o estabelecido, a Mostra de SP põe em exibição
títulos como Mentiras, Moloch, Gente da Sicília, Balé
de Balas, Apaixonadas, A La Media Noche y Media, Domingo Lindo, Minazuki,
todos eles, mais ou menos bem sucedidos, corajosas tentativas de levar a
linguagem do cinema um passo a frente. Mais que isso, a Mostra de SP costuma
ser mais ousada geograficamente, e ao atirar pelo mundo todo revela cinematografias
como a do Curdistão, do Quirgistão, e este ano trouxe filmes
do Tadjiquistão, Turquia, Cazaquistão, Paquistão, além
de quase todos os países europeus e orientais.
Não se pode deixar de ressaltar no entanto que, atualmente, o cinéfilo
brasileiro que possa freqüentar os dois eventos está magnificamente
antenado com o que há de mais atual no mundo do cinema, e que as
seleções se complementam com um grande número de filmes
só exibido num dos Festivais (como é o caso de eXistenZ de
Cronenberg, os novos de Imamura, Assayas, Patrice Chereau, ou preciosidades
como Kiemas ou À Espera dos Pombos que só o cinéfilo
do Rio viu). Ainda assim, pode se questionar como nos últimos anos
vários filmes importantes ficaram de fora dos dois eventos como o
Black Cat, White Cat de Kusturica; Keep Cool de Zhang Yimou (programado
e não exibido em SP há 2 anos); Fear and Loathing in Las Vegas
de Terry Gilliam; Forgotten Silver de Peter Jackson; e entre os filmes de
Cannes 99 filmes como o novo Greenaway, os novos de Chen Kaige, Mohsen Makhmalbaf
e Marco Bellocchio, ou ainda e principalmente o vencedor da Palma de Ouro,
o belga Rosetta. Isso prova que por mais abrangentes, sempre há títulos
não exibidos, como acontece com certeza com várias pérolas
menos conhecidas além destes medalhões.
Países
Talvez por coincidência, já que a Mostra de SP não
costuma organizar painéis específicos de cinemas nacionais
contemporâneos como acontece no Rio (onde este ano houve a Mostra
Espanhola - riquíssima - e em anos anteriores vimos o cinema Africano,
ou Eslovaco, ou Egípcio, etc), a cada ano a seleção
em si acaba representando dois ou três países de uma forma
numérica maior. Isso é interessante pela possibilidade do
painel que cria de uma produção completa. Todos os anos
os EUA têm uma grande seleção formada principalmente
de filmes inéditos e ultraindependentes, o que só atesta
sua quantidade de produção. Por ser um evento anual, não
se pode destacar como uma novidade, assim como acontece com o panorama
da produção brasileira que Cakoff retomou no ano passado.
Interessante, mas o cinema iraniano, cuja descoberta no Brasil se atribui
a Cakoff, no ano passado tão representado, este ano só tinha
o novo filme de Abbas Kiarostami. Assim, duas cinematografias sobressaíram:
JAPÃO - com 8 títulos novos, e mais 10 da Mostra Suzuki.
Entre os filmes novos que compõem o panorama a que nos referimos
percebeu-se uma extrema radicalidade na forma de abordar as mais diferentes
questões. O cinema japonês, um xodó de Cakoff, e da
cidade de São Paulo através da imensa colônia que
não deixa haver sessão vazia de filmes de lá, parece
pelo painel apresentado, cada vez mais ousado. Enquanto Balé de
Balas tentava se inserir numa linguagem "modernosa", cheio de
preocupações estéticas, mas também quanto
ao papel do homem na sociedade moderna, e construía um olhar bastante
novo e radical filmes como Minazuki e Domingo Lindo apelavam à
velha imobilidade da narrativa oriental com seu ritmo bastante mais estudado
e vagaroso, em busca de uma percepção temporal diferente
e bastante eficiente. Todos os três alcançam resultados bastante
satisfatórios nas suas buscas, o mesmo não podendo ser dito
de A História de Pupu, um pastiche de road movie onde sátira
se confunde com bobagem, e estranheza com o vazio. Num outro pólo,
o belíssimo novo filme de Takeshi Kitano (comentado mais à
frente) ganhou o público. O cinema japonês vai bem, obrigado,
pelo menos no que se refere a suas ousadias e tentativas.
FRANÇA - Com 16 filmes formava o maior conjunto de filmes novos
em exibição. A primeira coisa notável é a
força em números do cinema francês, pois recentemente
houve a Mostra de Cinema Francês com 8 títulos, depois no
Festival do Rio foram exibidos filmes que não estavam nesta lista
nem em SP, e agora vêm mais estes 16. A marca que se poderia esperar
é a da diversidade, sendo que a lista de filmes incluía
desde o radicalismo total de Sombra até o estilo série-da-Sony
de Agarrando Sonhos, passando pelo neo-noir referencial de O Polvo, o
realismo de Vivendo no Paraíso, a perversão de Amantes Criminais,
e os olhares pessoais de Bruno Dumont (A Humanidade) e Otar Iosseliani
(Adeus Lar Doce Lar). Mesmo com toda esta variedade pôde ser percebido
que uma série de temas e formatos se repetiu em parte da produção
francesa (e a bem da verdade mundial), mas disto tratamos em seguida.
Entre as outras representações nacionais menores, que se
destaque a constância da produção tcheca (com 3 filmes
em exibição), o extremo comercialismo da produção
inglesa selecionada (6 filmes), a coragem dos holandeses (4 títulos),
e a irregularidade dos alemães (8 títulos) e italianos (6
filmes).
1 Tema e 2 Formatos
A cada ano também é possível perceber a repetição
sistemático de alguns temas ou formatos estéticos na programação,
e raramente isto se deve a uma coincidência, mas sim reflete um
momento mundial histórico e artístico. Pois bem, este ano
um tema pôde ser percebido como recorrente; enquanto dois formatos
opostos de filmar foram mais usados do que nunca.
1 TEMA - A MIGRAÇÃO: Certamente não é
por acaso que, no contexto da globalização, mas também
da rearrumação de fronteiras e fuga de refugiados de guerra,
e da imigração da periferia para a metrópole, em
um número imenso de filmes foi problematizada a figura do imigrante.
Isso ficou mais claro do que nunca no cinema francês, onde vários
filmes lidavam com a questão, especialmente dos árabes,
o que parece constituir verdadeira obsessão nacional. De forma
direta em Nossas Vidas Felizes, Vivendo no Paraíso, Karnaval, Louise
(Take 2), ou Amantes - Dogma 5, ou de forma indireta em Agarrando Sonhos,
Amantes Criminais e Adeus Lar Doce Lar, a figura do imigrante esteve presente
na maioria dos filmes franceses, mas não só (como no alemão
Figuras na Noite). A questão de povos em marcha foi mostrada em
Jornada para o Sol (curdos), Viagens (judeus), Os Amigos de Yana e Adeus
Pavel (russos), enquanto a migração interna de causas quase
sempre econômicas foi tema de Assim eles Riam (Itália), Oi
Warning (Alemanha), ou ainda a divisão do Líbano que criou
fronteiras religiosas e fugitivos das mesmas em Beirute Oeste.
2 FORMATOS:
1) DOGMA - Com o surgimento do Dogma 95 a partir do ano passado, aparentemente
houve um movimento mundial de reavaliação das possibilidades
narrativas do cinema, e parece haver uma volta numerosa ao uso de artifícios
libertadores da linguagem, principalmente incorporando-se a câmera
na mão super nervosa, e muitas vezes a imagem em vídeo.
Se Amantes - Dogma 5 deixa clara a sua filiação, também
em Nossas Vidas Felizes, O Polvo, Louise (Take 2), Balé de Balas,
O Passado (Rep. Tcheca), Ressaca Total (Noruega), A Árvore do Pico
(Itália), Filhotes (EUA), Mentiras (Coréia), Projeto Veneza
(Áustria), e acima de todos em Sombra, a câmera parecia prescindir
de tal liberdade para conseguir contar sua estória. É difícil
dizer se o que vemos é uma tendência duradoura ou só
um contrafluxo, mas não se pode negar sua importância.
2) A CONTEMPLAÇÃO - Talvez compreendido como o oposto
do estilo do Dogma, na verdade, este se opõe de formas distintas
ao ritmo e aos cânones da linguagem clássica narrativa. Vários
filmes trabalharam com a noção de expansão do tempo,
buscando uma subjetividade do espectador, e uma poesia do banal em muitos
casos. A forma como o público muitas vezes reagia (pedindo agilidade
ou definição de uma história) provou que talvez esta
opção seja a mais radical nos dias de hoje, do primado da
edição videoclipesca e das imagens em profusão. A
linguagem do Dogma, que se pensa por demais radical, talvez não
seja. Em filmes como O Vôo da Abelha (Tadjiquistão/Coréia),
Minazuki e Domingo Lindo (Japão), Atrás da Floresta e A
Humanidade (França), As Bodas de Deus (Portugal), Adeus, Pavel
(Holanda), 1997 - Diário Ilustrado de Rustem (Casaquistão)
e mais radicalmente (e talvez por isso de forma mais bem resolvida) em
Moloch (Rússia), O Vento nos Levará (Irã), Vive L´Amour
(Taiwan) e Gente da Sicília (França/Itália), o espectador
foi levado a reposicionar seu relógio biológico e seu metabolismo
a uma outra percepção, com a força de uma hipnose
muitas vezes.
Os Filmes
No meio de 63 filmes (total que pude assistir) é claro que se vê
muitos filmes ruins (dos quais os piores geralmente são os mais
pretensiosos ou que "se fingem de bons" tapeando os incautos
com pequenos e grandes golpes de expectativa, como principalmente Os Cinco
Sentidos -Canadá, Meu Melhor Inimigo - Alemanha, Homo Sapiens 1900
- Suécia ou Oi Warning -Alemanha). No entanto para o cinéfilo
o filme ruim nunca é inútil. Com cada filme visto se apura
a visão, se aprende coisas novas (ainda que pela negação)
e se apreende sempre uma nova realidade. Agora, o verdadeiro prazer está
sempre nos filmes que te pegam e dão uma nova visão do mundo
e da arte, as obras-primas que vão ficar com você para sempre.
Neste ano prodigiosamente muitos destes filmes foram exibidos, os quais
numerarei aqui de forma sucinta:
Gente da Sicília, de Jean Marie Straub e Daniele Huillet - onde
a identidade de um povo é revista através de sons e imagens.
A atuação não-naturalista dos atores, que quase "cantam"
suas falas e fazem pausas inesperadas, a montagem surpreendente, a beleza
das situações criadas, a fotografia em preto e branco que
redesenha a paisagem natural como os rostos.
El Viento se Llevo lo Que, de Alejandro Agresti (Argentina) - Mais que
um filme, uma crença no humanismo e na força e magia do
cinema. Uma proposta para um cinema latino criativo, de raízes,
engraçado e emocionante, que não esconde seus defeitos mas
ressalta suas qualidades. Dono de várias das maiores cenas ou diálogos
da Mostra, um filme para o verdadeiro cinéfilo chorar copiosamente.
Moloch, de Alexander Sokurov (Rússia) - O mais desconcertante filme
da Mostra, tematizando um fim de semana de Hitler, Eva Braun e parte da
"Corte" nazista em plena Segunda Guerra. Filmado com um fotografia
quase irreal, com seu ritmo e narrativa aparentemente aleatórios
e banais, criou grande desconforto e incômodo. "Qual seria
sua mensagem??" se perguntavam muitos... Um filme para ser discutido
e revisto por anos...
Verão Feliz, de Takeshi Kitano (Japão) - Kitano radicaliza
seu lado mais lúdico sem abrir mão dos defeitos que fazem
do ser humano o que ele é. Uma comédia talvez, mas muito
mais uma aula de humanismo. Um Central do Brasil que ousou fugir de sua
camisa de força.
Louise (Take 2), de Siegfried - Em meio a tanta câmera correndo
de lá para cá, todos os outros filmes esqueceram do seu
assunto e se apaixonaram pela forma. Não este, que mistura em doses
certíssimas a dureza do dia a dia dos excluídos e marginalizados
com o lirismo e o romantismo do olhar das crianças. Uma trilha
sonora fenomenal, imagens marcantes, grande elenco.
Mentiras, de Jang Sun Woo (Coréia) - Outra polêmica, um filme
que trata a sexualidade como centro da vida pelo viés da perversão,
sem no entanto julgar ou moralizar seus personagens em um só momento,
construindo uma história de amor radical e, no fundo, poética.
Quase explícito, e aparentemente monotemático, é
de fato um exercício de rigor.
Adeus Lar Doce Lar, de Otar Iosseliani (França) - Como se duplicando
o olhar de Jacques Tati, o diretor olha para o cotidiano de uma cidade
grande e vê nela muito espaço para o bizarro, o lúdico,
o surreal. Tudo pelos olhos de um autêntico romântico numa
narrativa fluida, episódica, deliciosa. Depois, um olhar realista:
tal romantismo tem pouco espaço nos dias de hoje. Mas sem ser pessimista:
aqueles dispostos a buscarem radicalmente e sem olhar para trás,
um olhar humano nesta sociedade o encontrarão.
Ghost Dog, de Jim Jarmusch (EUA) - Um autor no domínio completo
da linguagem, que cria com a trilha, a montagem (fusões impressionantes),
a fotografia, os atores, um ritmo hipnotizante em busca do seu conteúdo:
espécies em extinção no mundo de hoje, aqueles que
tem um código de conduta. Um filme de mafioso com referências
a cultura oriental, desenhos animados, rap. Um libelo pela comunicação
possível mesmo em línguas diferentes, num tempo onde só
se fala na falta dela.
O Passado, de Ivo Trajkov (Rep. Tcheca) - Uma proposta radical: recriar
a percepção de um surdo-mudo. Mas não é um
filme mudo. Música, ruídos, estranheza. E uma narrativa
complexa que mistura passado, presente e futuro até a revelação
final. Uma odisséia em busca de um amor num mundo hostil. Fotografia,
montagem, mas acima de tudo sons inesperados.
As Bodas de Deus, de João César Monteiro (Portugal) - Os
prazeres da carne, do jogo, da comida. Um hedonismo mais humano impossível,
e sem nenhum respeito por nenhuma autoridade institucionalizada, seja
ela religiosa, política ou militar. Um filme de revolução,
seja pela estrutura narrativa seja pelo conteúdo. Sem dúvida
as melhores falas e citações da Mostra.
Sombra, de Philippe Grandrieux (França) - Um serial killer que
não consegue conter seu desejo e uma virgem que nunca se sentiu
tão desejada. Um encontro filmado com a câmera mais radical
e inovadora do ano, som claustrofóbico e sem diálogos quase
até o fim. O comportamento humano sem tentar explicações
lógicas e/ou morais. Até onde erra o filme acerta por tamanha
ousadia. A "porrada" do Festival.
Vive L´Amour, de Tsai Ming Liang (Taiwan) - Antecipando o que viria
a seguir, inclusive o sublime O Buraco, o diretor mostra três personagens
que dividem um mesmo teto mas sem se falar ou conhecer. A solidão
da vida moderna e a dificuldade de se relacionar. O plano final mais fenomenal
de anos de cinema. Um retrato pessimista, mas bastante humano do hoje.
O Vento nos Levará, de Abbas Kiarostami (Irã) - A radicalização
do banal, o enfrentamento do moderno e do arcaico, da tradição
e da tecnologia, a impossibilidade da imagem cinematográfica de
explicar e englobar tudo o que é a vida. Tudo de essencial acontece,
nada acontece. Um estilo levado às últimas conseqüências.
Ainda que se destaque que não foram vistos alguns considerados
fundamentais por alguns (como A Carta de Manoel de Oliveira, Ninguém
Escreve ao Coronel de Arturo Ripstein, Meu Nome é Joe de Ken Loach,
Apaixonadas de Tonino de Bernardi), com estes 13 se garantiria anos de
alegria cinematográfica, quanto mais um mês. Mas que não
se esqueça de citar tantos outro bons filmes vistos, como Viagens,
O Polvo e Amantes Criminais (França); Minazuki e Domingo Lindo
(Japão); Tamaro (Suiça), Adeus, Pavel (Holanda), Soplo de
Vida (Colômbia)... inúmeros os momentos e as lembranças
de mais uma orgia cinematográfica abrindo as janelas do mundo.
Eduardo
Valente
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