A
moda Buena Vista Social Club
Fui ver Buena Vista Social Club durante a Mostra, aqui no Rio, num dia em
que fui barrado na sessão de Solaris, que estava lotada (!). Menos
mal que o filme de meia noite fora trocado, e o documentário seria
exibido num horário que parecia adequado, sem grande alarde. Lá
fui eu. E Buena Vista Social Club me fez pensar em muitas coisas... me fez
lembrar de quando eu ia ver os filmes alemães do Wenders na sala
2 (em 16mm, coisa que não acontece mais...), "Paris Texas"
na 3 e mostra Wenders na sala 1. No caso, lembro-me especificamente de uma
vez com os filmes americanos, uma sessão dupla deliciosa, no tempo
em que existiam sessões duplas, acho que '89, sessão esta
com o Hammet e depois o Amigo Americano, com o grande Dennis Hopper.

Buena Vista Social Club, de Wim Wenders
Pois é, a década de 90 me parece um pouco a época de
crise dos autores, principalmente os europeus e americanos, Wenders, Scorsese,
Coppola, até Almodóvar, grande parte dos estilistas está
claramente em crise, o que não quer dizer que seus filmes estejam
piores, de maneira nenhuma, mas eles não estão mais interessados
em refazer os mesmos filmes, voltar constantemente aos mesmos temas.
E num momento de entusiasmo Wenders foi lá para Cuba fazer o documentário.
O que eu achei do filme? Bastante desagradável, me senti mal em vários
momentos. Mas isso porque eu vi uma verdade que não me agradou, portanto
como documentário o filme cumpre o seu papel, por caminhos tortos.
E porque não gostei?
Para explicar, vou me permitir divagar um pouco... Dois dias depois que
eu cheguei a Paris, numa viagem feita no primeiro semestre de 1998, eu vi
na capa do caderno cultural do Le Monde (um jornal chatíssimo) uma
foto de Francisco Repilado, o famoso Compay Segundo. Como comprar músicas
caribenhas era um objetivo que eu tinha, logo me interessei pela reportagem,
que tinha o título "O que há de novo em Paris" e
o subtítulo "O que há de novo é este senhor de
noventa anos!". Apesar dos estímulos dados por Malan e Franco,
àquela altura eu não podia gastar meus parcos trocados, o
disco Buena Vista estava sempre caro, mas acabei arrumando umas promoções
com dois dos discos solo do nosso amigo, "Yo Vengo Aqui" e "Lo
Mejor de la Vida". Não tive dinheiro pra ir ao show do cara,
coisa que só fui fazer um ano depois, no Canecão, e o disco
Buena Vista Social Club eu também demorei um pouco mais para ouvir.
Quando enfim ouvi, foi fácil perceber a diferença, eu estava
diante de um produto bem mais elaborado.
Elaborado demais. É disco de produtor, não de músicos.
Isso não tem problema quando a gente ouve o disco, ele é bonito
de todo jeito. E de fato a guitarra está mais destacada na equalização,
mas a guitarra é boa, tem um clima cafona. De fato, a atitude do
produtor não é muito elegante, mas isso não estraga
o produto.
Aliás, isso não é raro. Stan Getz fez a mesma coisa
nos discos que gravou com João Gilberto. É um expediente mesquinho,
mas a obra pode sobreviver a isso. É claro que pode ser mais confortável
admirar artistas íntegros, mas eu acho que a admiração
estética pode ir além da ética, eu gosto de ouvir Wilson
Simonal, mas isso não espalhem...
Mas isso tudo que eu falei foi sobre o disco, e o assunto que eu quero abordar
é o filme, e se eu dei essa volta toda foi pra notar que o filme
revela claramente, para quem quer ver, todos os problemas do projeto Buena
Vista, e isso faz dele um documentário paradoxal pra chuchu, porque
às vezes parece que o próprio Wenders não nota, às
vezes eu achava que ele estava fingindo que não via, o que é
óbvio na tela, que não há intimidade entre produtor
e músicos contratados, a relação é profissional
e pouco íntima, embora se tratem com simpatia. Além dos monólogos
egocêntricos de Cooder, podemos perceber isso no curto diálogo
que ele mantém com Ibrahim Ferrer. Eu disse diálogo? Como
diálogo, se depois de dois anos de convivência Ry Cooder ainda
não fala uma palavra de castelhano??!
O diálogo entre ele e Ferrer entra para a antologia dos momentos
mais constrangedores das histórias do cinema e das relações
entre patrões e empregados. Não apenas porque ainda necessitam
de tradutores, mas pelo tema mórbido que desenvolvem. É de
ter engulhos, mas expõe claramente as limitações do
projeto.
Porque é um projeto de gringo, é um projeto de quem desconhece
o tema tratado, é um projeto com olhar deslumbrado, deslumbrado pelo
que lhe é exótico.
Eu falei há pouco que a admiração estética pode
ir além da ética? Pode até ser, mas nas artes narrativas
isso complica ainda mais. Não há muito problema em gostar
de um cantor dedo-duro, mas um filme ignorante e caça-níqueis
já é mais complicado, mesmo quando nós aprendemos muito
durante sua sessão.
O projeto e a moda Buena Vista me parecem ter um grande defeito e uma grande
vantagem. O problema do projeto é que ele valoriza a música
cubana "de raiz", contrapondo aos grandes músicos que foram
pros Steites fazer "salsa" ou jazz latino, como Tito Puente a
diva Célia Cruz. Além do absurdo inato a essa valoração,
esta interpretação esconde a profunda, e enriquecedora, influência
americana na música dos bons velhinhos. Isso é evidente numa
canção do disco cuja harmonia é idêntica à
primeira parte da clássica "Stormy Weather", do Harold
Arlen, e no filme isso é reforçado pela bela interpretação
de "Begin the Beguine" pelo Ruben Gonzales. Cuba foi a boate americana
desde a época da guerra com a Espanha até a revolução,
foi quase o 51º estado americano, como querer exigir "raiz",
"pureza", num caso desses?
A vantagem é que, de fato, levaram para o mundo ótimos músicos
que estavam esquecidos em seus cantos. Talvez por isso eu tenha me lembrado
tanto do Dino 7 cordas e do Altamiro Carrilho durante a sessão, e
talvez por isso eu agora tenha colocado pra tocar um belíssimo disco
do grande Abel Ferreira. É pena que não haja um Ry Cooder
disposto a fazer o mesmo pelos nossos músicos de choro. Abel morreu
pouco conhecido no Brasil, no exterior quase ninguém sabe quem ele
foi, um dos maiores saxofonistas do século. Dino é o símbolo
maior de uma linguagem brasileira no violão, cuja tarefa é
marcar o baixo e fazer os contrapontos, ele começou no conjunto de
Benedito Lacerda, tocou com Pixinguinha, Carmem Miranda, Jacob do Bandolim
e quase todos os grandes nomes da chamada MPB. Quem os conhece no exterior,
e mesmo aqui no Brasil, esses músicos geniais, esses artistas iluminados?
Será que nos falta um Ry Cooder, mundo terrível?
Daniel Caetano
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